02/09/2026
Kenneth Kaunda foi o pai da independência da Zâmbia. Governou desde 1964 e em 1972 transformou o país num estado de partido único com a sua UNIP, com o lema "One Zambia, One Nation".
A história do milho é a história da queda dele.
1. O subsídio que sustentava o poder
Nos anos 70, a Zâmbia vivia do cobre, que representava 95% das exportações. O dinheiro pagava a vida urbana. O governo subsidiava fortemente o mealie meal, a farinha de milho que é a base da alimentação zambiana. Era política social e também política de sobrevivência.
Quando o preço do cobre quebrou e o do petróleo disparou em 1973, a Zâmbia entrou em crise. A dívida externa chegou a 7 mil milhões de dólares e o país foi para o FMI.
O FMI exigiu: desvalorizar o kwacha, congelar salários e acabar com o subsídio ao milho para o preço refletir o custo real de mercado.
2. 1986 - A primeira explosão
Em Dezembro de 1986, o governo removeu o subsídio. O preço da farinha disparou em Lusaka e no Copperbelt. Houve motins enormes. 15 pessoas morreram.
Kaunda ficou abalado. Em 1 de Maio de 1987, em televisão ao vivo, fez o impensável: rasgou o acordo com o FMI. Disse que o programa tinha trazido "dor, má nutrição e morte". Restaurou controles de preços e fixou o câmbio.
O FMI retaliou, declarou a Zâmbia inelegível e os doadores cortaram ajuda. Não funcionou. A inflação ficou nos 60% e em 1989 Kaunda teve de voltar ao FMI.
3. 1990 - O preço que derrubou o regime
Em Junho de 1990, o governo dobrou de novo o preço do mealie meal, mais de 100% de aumento de uma vez. Foi a gota d'água.
Três dias de motins em Lusaka, saques, protestos na Universidade da Zâmbia. Cerca de 27 mortos e mais de 100 feridos.
Dias depois, a 1 de Julho de 1990, o tenente Mwamba Luchembe foi à rádio nacional ZNBC e anunciou que o exército tinha tomado o poder, citando justamente os motins da semana anterior como motivo. O golpe durou 3 a 5 horas e falhou, mas enfraqueceu totalmente Kaunda, que já estava abalado depois dos motins.
Como disse anos depois o presidente Michael Sata: "Quando as pessoas se revoltaram no tempo de Kenneth Kaunda, foram os motins da fome que o fizeram ser removido do poder".
4. O fim nas urnas
Pressionado, Kaunda acabou com o partido único em Dezembro de 1990 e marcou eleições multipartidárias para Outubro de 1991.
Concorreu contra Frederick Chiluba, líder sindical que tinha sido preso nos anos 80 e que era o símbolo da luta contra a austeridade. Kaunda foi esmagado. Chiluba teve 76% dos votos presidenciais e o seu MMD ganhou 125 dos 150 lugares no parlamento.
Kaunda aceitou a derrota e garantiu uma transição pacífica, o que o tornou um exemplo raro em África. Mas a lição ficou: na Zâmbia, mexer no preço do milho é mexer no poder.