26/03/2026
A VIDA NA EUROPA É DURA PORQUE SE TRABALHA MUITO — percepção ou realidade?
Por Moniz Sebastião
É comum ouvir entre emigrantes africanos que a vida na Europa é dura por causa do trabalho. Mas será mesmo uma questão de trabalhar mais… ou de trabalhar diferente?
Pela minha experiência como estudante de pós-graduação e trabalhador em Portugal, aliada ao contacto permanente com pessoas que vivem em países como Espanha, França e Bélgica, acredito que a resposta está menos nas horas e mais no ritmo, na exigência e no contexto.
Em primeiro lugar, o ritmo e a organização do trabalho.
Na Europa, o trabalho é mais estruturado: horários fixos, cumprimento rigoroso de prazos e menos pausas improvisadas. Para quem vem de contextos mais flexíveis — com maior espaço para interacções sociais — isso cria a sensação de maior carga, mesmo quando o número de horas é semelhante (8h/dia, 40h/semana).
Em muitos países africanos, o mercado de trabalho tende a ser mais informal e flexível. Um número significativo de trabalhadores — em Angola, em particular — está ligado ao sector público, onde o cumprimento dos horários nem sempre é rigidamente observado na prática. Em vários sectores, é comum chegar atrasado e sair antes do período estipulado, sem grandes penalizações. Isso sustenta uma menor exigência laboral e molda o corpo e a mente para um ritmo mais relaxado.
Em segundo lugar, os empregos iniciais e as condições de trabalho.
Muitos imigrantes entram em áreas como construção, limpeza, restauração, supermercados, segurança ou cuidados a pessoas em situação de vulnerabilidade. Esses trabalhos são, em geral, fisicamente exigentes e com pouca margem de descanso. Em muitos casos, o trabalhador permanece as oito horas em pé, em actividade contínua e, por vezes, sob frio, chuva ou calor intenso — factores que agravam a percepção de dureza.
O facto de se trabalhar em regime de turnos rotativos é outro desafio para quem vem de um contexto laboral mais estável, geralmente de segunda a sexta-feira, das 8h00 às 16h00. Em Portugal, muitos trabalhadores obedecem a regimes de turnos definidos pela planificação das empresas. Há, por exemplo, sistemas como o 3/2 , 4/2 ou 5/2, em que se trabalha três, quatro ou cinco dias consecutivos e se descansa dois, sendo que os dias de folga nem sempre coincidem com os fins de semana. Numa semana trabalha-se num período, noutra, noutro, e assim sucessivamente.
Além disso, o impacto do trabalho por turnos na vida pessoal e social não deve ser subestimado. A alternância constante de horários — ora de manhã, ora à noite, ora de madrugada — interfere directamente com o sono, a saúde e a convivência familiar. Muitas vezes, o trabalhador vê-se desencontrado da rotina dos amigos e familiares, o que dificulta a construção de relações sociais estáveis. Para quem vem de um contexto em que os fins de semana são, por norma, momentos de descanso e convívio, essa quebra de previsibilidade pode aumentar a sensação de isolamento e desgaste emocional, reforçando a ideia de que a vida laboral na Europa é particularmente exigente.
Em terceiro lugar, a pressão económica.
Na Europa, o custo de vida é mais elevado, sobretudo para quem vive do salário mínimo. Tomando o exemplo de Portugal, o peso da habitação é significativo, sendo comum mais de metade do rendimento ser destinado ao arrendamento. Isso coloca o emigrante numa situação com pouca ou nenhuma margem de poupança.
Vive-se, muitas vezes, num aperto financeiro permanente — numa lógica de “corrida dos ratos”: trabalha-se continuamente para cobrir despesas, sem conseguir acumular recursos. Esse ciclo gera desgaste e, frequentemente, exaustão.
Esse contexto leva muitos imigrantes a trabalharem mais horas, fazerem horas extra ou acumularem múltiplos empregos, além de enviarem apoios para familiares. Ou seja, não é apenas o sistema que impõe o ritmo; é também a necessidade pessoal.
Em quarto lugar, a integração e adaptação.
A rigidez no cumprimento dos horários é um desafio adicional. Em muitos casos, o percurso casa–trabalho depende de transportes públicos, o que exige domínio dos horários, rotas e funcionamento desses sistemas. Para quem ainda não está familiarizado, isso torna-se exigente. Não é por acaso que vemos tantas pessoas a correr de um lado para o outro atrás de transportes — não é apenas pressa, é necessidade.
Em quinto lugar, as expectativas versus a realidade.
Enquanto leccionei Sociologia da População e das Migrações na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, analisámos diversos estudos sobre o fenómeno migratório. Uma das conclusões recorrentes é que muitos emigrantes transmitem aos potenciais migrantes a ideia de uma “vida boa” na Europa.
Essa “vida boa” corresponde, muitas vezes, a condições que, no contexto africano — e angolano em particular — ainda são vistas como luxo: acesso regular à água, electricidade e gás, segurança pública, facilidade de acesso ao crédito bancário, infra-estruturas urbanas adequadas, maior oferta de bens de consumo, melhores condições de educação para os filhos e melhor acesso aos serviços de saúde. Ainda assim, importa reconhecer que, em países como Portugal, esses sistemas — nomeadamente saúde e educação — têm enfrentado desafios recentes como falta e sobrecarga de profissionais e pressão sobre os serviços.
No entanto, ao chegarem à Europa, muitos imigrantes deparam-se com uma realidade diferente: forte competição, elevada exigência profissional e necessidade de adaptação rápida. Esse contraste reforça a sensação de que “se trabalha muito”.
Em síntese, a percepção de que “na Europa trabalha-se muito” resulta de vários factores combinados: cultura de produtividade, tipo de emprego, pressão financeira, exigências de adaptação e expectativas criadas antes da chegada.
Em termos de horários, trabalha-se tanto quanto em Angola. A diferença está na intensidade e nas exigências.
Todos esses factores tornam a vida do imigrante particularmente pesada nos primeiros tempos. No entanto, com o passar do tempo, há uma melhor compreensão e domínio das estruturas dessas sociedades, permitindo maior estabilidade e uma progressiva desconstrução dessa percepção inicial.
No fim, talvez a frase mais honesta continue a ser aquela que ouvimos em Angola:
cada um escolhe onde quer sofrer.