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29/03/2026
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CURRÍCULO OCULTO

A ARTE DO BEM VESTIR Por Moniz Sebastião Quem olha para as minhas fotos de há trinta anos repara logo nas roupas largas....
28/03/2026

A ARTE DO BEM VESTIR

Por Moniz Sebastião

Quem olha para as minhas fotos de há trinta anos repara logo nas roupas largas. E isso não tem a ver com “não saber vestir” — muito pelo contrário. Era exactamente assim que se sabia vestir naquela época.

Não se trata de excesso de tecido, mas sim das tendências que marcaram cada período. A moda muda, reinventa-se e, muitas vezes, regressa com novas leituras. Como explicaria Pierre Bourdieu, o gosto e as formas de vestir não são escolhas isoladas, mas sim construções sociais influenciadas pelo tempo, pelo meio e pelo capital cultural de cada grupo.

Passei parte da minha adolescência na Mabor Sonef, município do Cazenga, onde fui baterista de uma banda chamada "Todo Mundo Patrão". Naquele tempo, as minhas referências vinham sobretudo da música congolesa. Nomes como General Defao, Papa Wemba, Koffi Olomide, Reddy Amisi, Emeneya, Madilu System e Pepe Kallé influenciavam não só o som, mas também a estética e a forma de estar.

Curiosamente, naquela altura ainda não se falava de artistas que hoje são incontornáveis, como Werrason, Fally Ipupa ou Ferre Gola. Cada geração tem os seus ícones — e isso é parte natural da evolução cultural.

No meio evangélico, também havia vozes marcantes: Couple Buloba, Patrice Ngoi Mosoko, Frère Mente, Dennis Ngonde e, mais tarde, Matou Samuel, entre outros.

O tempo passou — já não sou tão novo assim — e isso também nos dá outra perspectiva sobre tudo.

Hoje, para quem está atento, é fácil notar que a juventude ocidental volta a adoptar roupas largas, com bastante tecido. O mesmo se observa em muitos artistas pelo mundo, confirmando que a moda é cíclica e que certas tendências apenas se reinventam com o tempo — algo que também dialoga com a ideia de “modernidade líquida” proposta por Zygmunt Bauman, onde tudo está em constante transformação.

Aliás, vemos exemplos disso quando um astro como Will Smith surge com um traje que não gera estranheza — pelo contrário, inspira até recriações, inclusive através da inteligência artificial.

No fundo, tudo depende do olhar. Analisar uma situação fora do seu contexto histórico, cultural e temporal é como usar um microscópio quando, na verdade, precisamos de um telescópio.

Mude as suas lentes — e mudará também a sua percepção.

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VIDA NA EUROPA...cada um escolhe onde quer sofrer

É comum ouvir entre emigrantes africanos que a vida na Europa é dura por causa do trabalho. Mas será mesmo uma questão de trabalhar mais… ou de trabalhar diferente?

A VIDA NA EUROPA É DURA PORQUE SE TRABALHA MUITO — percepção ou realidade?Por Moniz Sebastião É comum ouvir entre emigra...
26/03/2026

A VIDA NA EUROPA É DURA PORQUE SE TRABALHA MUITO — percepção ou realidade?

Por Moniz Sebastião

É comum ouvir entre emigrantes africanos que a vida na Europa é dura por causa do trabalho. Mas será mesmo uma questão de trabalhar mais… ou de trabalhar diferente?

Pela minha experiência como estudante de pós-graduação e trabalhador em Portugal, aliada ao contacto permanente com pessoas que vivem em países como Espanha, França e Bélgica, acredito que a resposta está menos nas horas e mais no ritmo, na exigência e no contexto.

Em primeiro lugar, o ritmo e a organização do trabalho.
Na Europa, o trabalho é mais estruturado: horários fixos, cumprimento rigoroso de prazos e menos pausas improvisadas. Para quem vem de contextos mais flexíveis — com maior espaço para interacções sociais — isso cria a sensação de maior carga, mesmo quando o número de horas é semelhante (8h/dia, 40h/semana).

Em muitos países africanos, o mercado de trabalho tende a ser mais informal e flexível. Um número significativo de trabalhadores — em Angola, em particular — está ligado ao sector público, onde o cumprimento dos horários nem sempre é rigidamente observado na prática. Em vários sectores, é comum chegar atrasado e sair antes do período estipulado, sem grandes penalizações. Isso sustenta uma menor exigência laboral e molda o corpo e a mente para um ritmo mais relaxado.

Em segundo lugar, os empregos iniciais e as condições de trabalho.
Muitos imigrantes entram em áreas como construção, limpeza, restauração, supermercados, segurança ou cuidados a pessoas em situação de vulnerabilidade. Esses trabalhos são, em geral, fisicamente exigentes e com pouca margem de descanso. Em muitos casos, o trabalhador permanece as oito horas em pé, em actividade contínua e, por vezes, sob frio, chuva ou calor intenso — factores que agravam a percepção de dureza.

O facto de se trabalhar em regime de turnos rotativos é outro desafio para quem vem de um contexto laboral mais estável, geralmente de segunda a sexta-feira, das 8h00 às 16h00. Em Portugal, muitos trabalhadores obedecem a regimes de turnos definidos pela planificação das empresas. Há, por exemplo, sistemas como o 3/2 , 4/2 ou 5/2, em que se trabalha três, quatro ou cinco dias consecutivos e se descansa dois, sendo que os dias de folga nem sempre coincidem com os fins de semana. Numa semana trabalha-se num período, noutra, noutro, e assim sucessivamente.

Além disso, o impacto do trabalho por turnos na vida pessoal e social não deve ser subestimado. A alternância constante de horários — ora de manhã, ora à noite, ora de madrugada — interfere directamente com o sono, a saúde e a convivência familiar. Muitas vezes, o trabalhador vê-se desencontrado da rotina dos amigos e familiares, o que dificulta a construção de relações sociais estáveis. Para quem vem de um contexto em que os fins de semana são, por norma, momentos de descanso e convívio, essa quebra de previsibilidade pode aumentar a sensação de isolamento e desgaste emocional, reforçando a ideia de que a vida laboral na Europa é particularmente exigente.

Em terceiro lugar, a pressão económica.
Na Europa, o custo de vida é mais elevado, sobretudo para quem vive do salário mínimo. Tomando o exemplo de Portugal, o peso da habitação é significativo, sendo comum mais de metade do rendimento ser destinado ao arrendamento. Isso coloca o emigrante numa situação com pouca ou nenhuma margem de poupança.

Vive-se, muitas vezes, num aperto financeiro permanente — numa lógica de “corrida dos ratos”: trabalha-se continuamente para cobrir despesas, sem conseguir acumular recursos. Esse ciclo gera desgaste e, frequentemente, exaustão.

Esse contexto leva muitos imigrantes a trabalharem mais horas, fazerem horas extra ou acumularem múltiplos empregos, além de enviarem apoios para familiares. Ou seja, não é apenas o sistema que impõe o ritmo; é também a necessidade pessoal.

Em quarto lugar, a integração e adaptação.
A rigidez no cumprimento dos horários é um desafio adicional. Em muitos casos, o percurso casa–trabalho depende de transportes públicos, o que exige domínio dos horários, rotas e funcionamento desses sistemas. Para quem ainda não está familiarizado, isso torna-se exigente. Não é por acaso que vemos tantas pessoas a correr de um lado para o outro atrás de transportes — não é apenas pressa, é necessidade.

Em quinto lugar, as expectativas versus a realidade.
Enquanto leccionei Sociologia da População e das Migrações na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, analisámos diversos estudos sobre o fenómeno migratório. Uma das conclusões recorrentes é que muitos emigrantes transmitem aos potenciais migrantes a ideia de uma “vida boa” na Europa.

Essa “vida boa” corresponde, muitas vezes, a condições que, no contexto africano — e angolano em particular — ainda são vistas como luxo: acesso regular à água, electricidade e gás, segurança pública, facilidade de acesso ao crédito bancário, infra-estruturas urbanas adequadas, maior oferta de bens de consumo, melhores condições de educação para os filhos e melhor acesso aos serviços de saúde. Ainda assim, importa reconhecer que, em países como Portugal, esses sistemas — nomeadamente saúde e educação — têm enfrentado desafios recentes como falta e sobrecarga de profissionais e pressão sobre os serviços.

No entanto, ao chegarem à Europa, muitos imigrantes deparam-se com uma realidade diferente: forte competição, elevada exigência profissional e necessidade de adaptação rápida. Esse contraste reforça a sensação de que “se trabalha muito”.

Em síntese, a percepção de que “na Europa trabalha-se muito” resulta de vários factores combinados: cultura de produtividade, tipo de emprego, pressão financeira, exigências de adaptação e expectativas criadas antes da chegada.

Em termos de horários, trabalha-se tanto quanto em Angola. A diferença está na intensidade e nas exigências.

Todos esses factores tornam a vida do imigrante particularmente pesada nos primeiros tempos. No entanto, com o passar do tempo, há uma melhor compreensão e domínio das estruturas dessas sociedades, permitindo maior estabilidade e uma progressiva desconstrução dessa percepção inicial.

No fim, talvez a frase mais honesta continue a ser aquela que ouvimos em Angola:
cada um escolhe onde quer sofrer.

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