06/06/2026
JUSSARA MUHONGO É CHAMADA DE MENTIROSA POR AFIRMAR EM ENTREVISTA QUE NÃO COBRA
A polémica em torno da entrevista de Jussara Muhongo sobre a questão de cobrar ou não cobrar para ministrar em eventos e igrejas revela algo muito mais profundo do que apenas uma resposta mal interpretada. Na minha perspetiva, o problema central não está necessariamente no conteúdo daquilo que ela quis dizer, mas na forma como a narrativa foi organizada durante a entrevista.
Dar entrevistas não é uma tarefa simples. Muitos artistas possuem talento extraordinário nos palcos, mas nem sempre conseguem estruturar ideias com clareza diante das câmaras e dos microfones. Isso exige experiência, maturidade comunicacional e, muitas vezes, preparação especializada. É por essa razão que diversas agências e equipas de gestão investem no treino mediático dos seus artistas, justamente para evitar situações em que uma mensagem legítima acaba por gerar interpretações contraditórias.
O que me parece é que Jussara procurava explicar uma realidade comum entre muitos ministros de louvor: não existe uma cobrança direta para determinadas atividades eclesiásticas, mas há uma remuneração quando se trata de eventos comerciais ou iniciativas que geram receitas através da venda de ingressos ou outras formas de arrecadação. Infelizmente, a forma como essa ideia foi transmitida abriu espaço para interpretações diferentes, e parte do público concluiu que houve falta de sinceridade.
Entretanto, também precisamos reconhecer que entrevistas são ambientes onde qualquer pessoa pode tropeçar na organização do pensamento. Isso é absolutamente normal. O problema é quando transformamos um momento de comunicação imperfeita numa sentença pública.
Mas há uma questão ainda mais relevante que esta polémica expõe: a dificuldade que parte da comunidade cristã demonstra em aceitar que músicos gospel também precisam viver do seu trabalho.
É curioso observar como muitas pessoas celebram a prosperidade de profissionais de diversas áreas, mas sentem desconforto quando um cantor, músico ou ministro de louvor é remunerado pelo serviço que presta. A música gospel continua a ser arte. Continua a exigir investimento, estudo, ensaios, deslocações, produção, equipamentos, equipa técnica e anos de dedicação. Para muitos, além de ministério, é também profissão.
Por que razão isso incomoda tanto algumas pessoas?
Cada artista tem o direito de definir o modelo de gestão da sua carreira. Da mesma forma, cada igreja ou organização tem liberdade para decidir quem deseja convidar e em quais condições. Ninguém é obrigado a contratar ninguém. Contudo, quando um artista é convidado para um evento, geralmente isso acontece porque a sua presença agrega valor espiritual, artístico ou cultural à atividade.
Nesse contexto, honrar quem serve também é um princípio bíblico.
A verdade é que, no fim das contas, quase todos os modelos convergem para o mesmo ponto, o da cobrança. Há aqueles que estabelecem um valor de forma clara e objetiva através de contrato. Há aqueles que preferem não apresentar um valor fixo e deixam que a instituição os honre segundo as suas possibilidades e reconhecimento. Ambos os modelos existem e ambos são legítimos.
Muitos artistas adotaram durante anos a narrativa do “não cobramos”, esperando que a honra viesse espontaneamente. Porém, a experiência mostrou que nem sempre isso acontecia, inclusive em contextos de abundância financeira. Como consequência, muitos passaram a formalizar os seus honorários de maneira mais direta e transparente.
Talvez esteja na hora de a comunidade cristã abandonar alguns preconceitos e começar a olhar para esta questão com mais maturidade. Precisamos parar de selecionar quem merece apoio e quem não merece. Precisamos aprender a celebrar a prosperidade dos músicos gospel da mesma forma que celebramos a prosperidade de outros servos de Deus.
A inveja nunca edificou ministério algum. A honra, sim.
Os ministros de louvor dedicam tempo, recursos e talento para servir ao Corpo de Cristo. E quando são justamente valorizados por isso, não estamos diante de mercantilização da fé, mas do reconhecimento de um trabalho legítimo.
Como escreveu o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 9:14:
“Da mesma forma, o Senhor ordenou àqueles que pregam o evangelho que vivam do evangelho.”
Talvez a verdadeira discussão não seja se um músico gospel cobra ou não cobra. Talvez a discussão devesse ser sobre como podemos construir uma cultura de honra, transparência e valorização daqueles que dedicam a sua vida ao serviço de Deus através da música.
Porque no final, todos cobramos, só mudamos é a narrativa.
Kark Sumba