Fumódromo da Alma

Fumódromo da Alma Cinzas que falam. Editorial fora do algoritmo.

HÁ UMA ESTRANHA mania a florescer entre artistas de todos os calibres. Transformar o que já foi dito, gravado, performad...
16/10/2025

HÁ UMA ESTRANHA mania a florescer entre artistas de todos os calibres. Transformar o que já foi dito, gravado, performado, e por vezes esgotado, em livro. Não um livro com contexto, análise, bastidores ou costuras críticas entre os versos. Não. Apenas livro. Como se o papel conferisse uma nobreza que o microfone não tem. Como se o papel fosse redenção. Como se o livro fosse um túmulo sagrado onde os versos vão descansar em paz, longe das ruas, das bocas e das batalhas.

Essa tendência não é nova, mas tem piorado. Vira e mexe alguém lança um "livro de letras". O que no fundo é só uma colectânea de coisas que já ouvimos, já entendemos (ou não), já decorámos, já citámos, já vivemos. A diferença? Agora podemos pagar para ver as mesmas palavras impressas em papel couchê, com capa dura e prefácio pretensioso. A pergunta é: por quê?

É o fetiche do livro como símbolo de erudição. Mesmo que o conteúdo não precise, e muitas vezes não suporte, esse tipo de elevação. Existe aí uma ansiedade de validação. Como se, para ser levado a sério, o artista tivesse que deixar de ser voz e virar objecto. Como se a palavra só valesse se ganhasse ISBN.

E então chegamos ao caso do rapper Kid Mc, que anuncia o lançamento de um livro com todas as suas letras já gravadas. Não. Não é um livro com ensaios sobre a sua lírica. Nem uma análise cultural do seu impacto no rap angolano. É um livro de letras. Letra por letra. Faixa por faixa. Aquilo que já ouvimos dezenas de vezes. Está no YouTube, Spotify, discos, pen drives, de tudo e mais alguma coisa que compramos na praça da independência. Agora podemos comprar impresso.

Temos que dizer com todas as letras. Isso é um delírio editorial. Ainda mais vindo de um rapper. Um rapper. Um cronista da rua. Um artesão da oralidade. Alguém que sempre teve no improviso, na vivência e na circulação a sua força. Ao lançar um livro de letras, Kid MC abandona o palco da palavra viva para vender souvenir de si mesmo.

Se o interesse fosse realmente partilhar as letras com o público, que colocasse no Genius.com. No Letras.mus.br. Tem centenas de sites e banco de dados disponíveis para catalogar letras de música. Se a preocupação é com o arquivo, então vamos digitalizar, contextualizar, abrir para o debate, explicar gírias, revelar intenções por trás das barras. Se for por isso, a CAL E CARVÃO se oferece. Com gosto. Para transcrever cada verso. Organizar por álbum, faixa, ano e tema. E colocar em todas as plataformas com as devidas explicações de cada rima.
Mas não. É um livro. Um livro que custa. Que se compra. Que gera lucro. Que confunde legado com faturamento.

A arte da palavra não precisa ser empacotada em papel para ter valor. E se o rapper quer mesmo deixar algo impresso, que seja na memória colectiva. Não nas gôndolas da livraria, como se fosse autoajuda em verso.




Filho de um pastor de Richmond, Virgínia, D’Angelo cresceu entre o evangelho e o funk, entre o divino e o profano. Foi e...
15/10/2025

Filho de um pastor de Richmond, Virgínia, D’Angelo cresceu entre o evangelho e o funk, entre o divino e o profano. Foi esse cruzamento que moldou o seu som, uma alquimia de Marvin Gaye, Prince e Curtis Mayfield, com uma assinatura própria que nenhum imitador conseguiu reproduzir.

O seu álbum de estreia, "Brown Sugar" (1995), foi o estopim de uma revolução discreta: o nascimento do chamado “neo-soul”. Já em "Voodoo" (2000), D’Angelo mostrou que não era só mais um cantor talentoso, era um visionário. Funk, jazz, hip-hop e espiritualidade conviviam numa harmonia de pura combustão criativa. E "Black Messiah" (2014), lançado após um longo silêncio, veio como testamento de maturidade e resistência: um grito político, uma oração negra, uma catarse.

Mas D’Angelo nunca foi um homem de holofotes. Retirou-se do palco durante anos, travou batalhas pessoais, espirituais e, agora sabemos, também físicas. Sempre preferiu a sombra do estúdio à luz da ribalta. É talvez essa introspecção que o tornou tão humano, e por isso, tão eterno. Quando cantava, parecia que o mundo se suspendia por uns segundos. As palavras vinham carregadas de alma, mas também de dor. E a dor, na voz dele, nunca soava como fraqueza, era só mais uma nota na partitura da vida.

Hoje, o neo-soul perde o seu pilar. O hip-hop, o R&B e a música negra no ocidente, perdem um dos seus arquitectos silenciosos. D’Angelo era o ponto de ligação entre os clássicos e o futuro, entre o espiritual e o terreno. Não lançou muitos discos, é verdade. Mas os três que deixou são monumentos. Cada faixa, um universo. Cada pausa, um sermão.

A família descreveu-o como alguém “que lutou com serenidade e fé”. E é fácil acreditar. Porque há artistas que vêm à Terra apenas para recordar-nos de que a música pode ser cura, pode ser co***lo, pode ser reza. D’Angelo foi isso tudo, e algo mais. Agora, o silêncio que f**a é tão belo quanto a melodia que ele deixou suspensa no ar.

D'Angelo, nascido Michael Eugene Archer em 11 de fevereiro de 1974, em Richmond, Virgínia, filho do pastor Luther Archer Sr. e de Mariann Smith, ganhou 4 Grammys ao longo da carreira e foi indicado 14 vezes. Morreu na madrugada de 14 de outubro de 2025, após longa e corajosa batalha contra o cancro do pâncreas.




CARMEN... ÀS VEZES SAARCASMO. OUTRAS VEZES, MULHER DO ANOHá nomes que soam como promessa, e há pessoas que a cumprem com...
14/10/2025

CARMEN... ÀS VEZES SAARCASMO. OUTRAS VEZES, MULHER DO ANO

Há nomes que soam como promessa, e há pessoas que a cumprem com o peso dos dias. Carmen Mateia é uma dessas raras vozes que nasceram para transformar ausências em acção. Nascida em Benguela, crescida entre o calor da costa e o pó vermelho do Cunene, aprendeu cedo que o silêncio não alimenta ninguém. E decidiu falar, não com arrogância, mas com propósito.

A sua trajectória não é a de quem teve estradas abertas, mas a de quem as constrói com as próprias mãos. Formada em Linguística, percebeu que a palavra podia ser uma arma de libertação. Foi assim que ergueu a Associação dos Agitadores Culturais 3X MAUS. Ou melhor, MAUS, MAUS, MAUS, um espaço onde jovens angolanos descobrem que a cultura é também uma forma de resistência. Ali, a poesia conversa com o hip-hop, o teatro encontra o activismo, e o sonho faz-se colectivo.

Depois surgiu o Na Fila do Pão, um gesto de empatia que se transformou em movimento. Começou como grupo de WhatsApp, cresceu como ponte entre juventudes, e hoje é uma das plataformas mais relevantes para conectar jovens a oportunidades de trabalho, formação e voluntariado. Carmen percebeu que "esperar na fila" podia ser mais do que esperar o pão: podia ser aprender a fazer o próprio fermento.

Mas ela não se deteve. Com o Turista Sem Kumbu, levou o activismo para o interior, tocando comunidades esquecidas, ensinando sobre economia criativa e liderança cívica. Nessa viagem, encontrou o verdadeiro sentido do servir: não impor, mas escutar. É assim que Carmen fala, com os ouvidos atentos e a alma entregue.

Há quem a chame de empreendedora social. Outros preferem o termo activista. Mas talvez Carmen seja, acima de tudo, uma tecelã de futuros possíveis. Ganha prémios, sim; inspira, sobretudo. E agora, o reconhecimento atravessa fronteiras: Carmen Mateia é nomeada para o EMY Africa Awards 2025, um dos mais prestigiados galardões do continente. A nomeação não é o ponto de chegada, mas a confirmação de que o mundo começa, enfim, a ouvir a voz que Benguela e o Cunene já conheciam. A de uma mulher que transforma cada gesto em caminho, e cada caminho em esperança.

EMY - Exclusive Men of the Year, no caso de Carmen, deveria se chamar EWY. Devem imaginar as razões. Mas, claro que "Evolve. Motivate. Yield.", não soam tão mal. 😉




VINTE E SEIS anos após sua morte, o nome de Big L volta a ecoar no Harlem. Agora sob o selo da Mass Appeal, que confirmo...
07/10/2025

VINTE E SEIS anos após sua morte, o nome de Big L volta a ecoar no Harlem. Agora sob o selo da Mass Appeal, que confirmou o lançamento de “Harlem’s Finest: Rise of the Forgotten King” para 31 de outubro de 2025.

O projecto integra a série “Legend Has It…”, criada pela Mass Appeal para celebrar figuras com status de lendas do hip-hop. A mesma colecção inclui trabalhos de Nas & DJ Premier, Ghostface Killah, Raekwon, De La Soul e Mobb Deep.

Segundo o espólio de Big L, o novo álbum reunirá faixas inéditas, remasterizações e freestyles raros. Muitos deles antes removidos das plataformas digitais por questões de mixagem, samples não licenciados ou créditos ausentes. Com o envolvimento directo da família e de produtores originais, a promessa é devolver aos fãs “as versões definitivas” do repertório deixado por Lamont Coleman.

Com Harlem’s Finest: Rise of the Forgotten King, Big L, assassinado em 1999 aos 24 anos, regressa como um fantasma que rima e nos lembra por que continua a ser um dos MCs mais fortes que o hip-hop já teve.

Lamont Coleman (1974–1999) nasceu e cresceu no Harlem, Nova York. Membro fundador do lendário colectivo D.I.T.C. (Diggin’ in the Crates), ao lado de nomes como Lord Finesse, Showbiz & A.G., Fat Joe e Diamond D. Big L destacou-se pelo liricismo técnico, sarcasmo sombrio e uma narrativa de rua muito mais afiada que seus contemporâneos.
Seu álbum de estreia, "Lifestylez ov da Poor & Dangerous" (1995) é hoje considerado um clássico subestimado do rap de Nova York.




ANGOLA CELEBRA EM 2025 os seus 50 anos de independência. Meio século depois, a cultura continua a ser memória e crítica ...
30/09/2025

ANGOLA CELEBRA EM 2025 os seus 50 anos de independência. Meio século depois, a cultura continua a ser memória e crítica viva.

É nesse espírito que se homenageia Bruno M, agora condecorado com a Medalha Comemorativa dos 50 Anos da Independência Nacional.

Num género nascido da rua e do improviso, Bruno M foi excepção: compôs, escreveu, arranjou. Trouxe estrutura ao caos. Em vez de batidas repetidas e paranoias, entregou música pensada, com letras que diziam algo. "Txubila", "1 Para 2", "60 Segundos" — faixas que provaram que o kuduro podia ser feito com rigor e sentimento.

Não era só MC. Era compositor. Criador. E num tempo em que tudo era digital, fez som que podia ser tocado ao vivo.

Hoje está fora dos palcos, por escolha espiritual. Mas o legado ficou. Bruno M elevou o kuduro sem lhe tirar a alma. Até José Eduardo dos Santos, em vida, cantou "Txubila" — o que diz tudo.

A condecoração não é só justa. É um sinal de que a cultura pensada também tem lugar na história.

Parabéns, Bruno M.




CLARICE, VÍRGULA, INTELIGÊNCIA(ou: O dia em que a língua portuguesa ganhou uma assistente literária com nome de escritor...
30/09/2025

CLARICE, VÍRGULA, INTELIGÊNCIA

(ou: O dia em que a língua portuguesa ganhou uma assistente literária com nome de escritora)

Há nomes que não chegam sozinhos. Trazem bagagem, eco, intenção, e às vezes um peso que ninguém pediu. “Clarice” é um desses nomes. Basta pronunciá-lo e já se forma um silêncio em volta.

O nome carrega literatura, introspecção, alma em estado de rascunho. Clarice é nome de quem observa a chávena a arrefecer como se fosse um evento cósmico. De quem sabe que vírgula não é pausa, mas respiração do pensamento. De quem escreve como quem ouve o mundo com os olhos fechados.

Foi por isso que estranhei — e depois admirei — quando vi nascer uma inteligência artificial chamada Clarice. Uma máquina. Uma assistente de escrita. Uma entidade algorítmica que promete ajudar-nos a escrever melhor em… português.

Não em inglês, não em tradução automática, não com dicionário preso ao Oxford. Em português mesmo. Com crase, com trema ausente, com palavras que os correctores anglófonos sublinham em vermelho porque não fazem ideia do que seja um “cacimbo”.

Clarice AI é o nome do projecto criado por um grupo de brasileiros com uma ambição ousada: desenvolver uma Inteligência Artificial (IA) voltada especif**amente para falantes da língua portuguesa. Não uma adaptação de modelos estrangeiros, mas uma tecnologia pensada desde o início para o nosso idioma — com todas as suas variações, ambiguidades e gírias que só fazem sentido na nossa geografia mental.

Por trás da Clarice está a empresa Neuralmind, fundada por Ronaldo Ferreira e Anderson Soares — dois nomes já conhecidos no ecossistema de IA no Brasil. A ideia surgiu de uma inquietação legítima: por que depender sempre de ferramentas feitas em inglês, treinadas em corpus anglófonos, com referências culturais que passam longe das nossas realidades? E mais: por que aceitar que os nossos textos sejam lidos por máquinas que não sabem quem é Mia Couto, nem o que signif**a escrever “com saudade” sem precisar explicar?

Clarice não promete inspiração. Ela não escreve por nós — ainda. Mas revisa, sugere cortes, propõe reestruturações. E o faz com um cuidado raro entre as ferramentas digitais: sem impor regras duras, mas oferecendo possibilidades. Como quem diz: “aqui talvez te estendeste demais”; ou “esta frase pode brilhar mais se respirar um pouco”.

Talvez o mais bonito (e irónico) seja isso: uma IA que, em vez de automatizar a escrita, tenta devolvê-la ao seu ritmo mais humano. A Clarice não é uma substituta da escrita, mas uma espécie de editora invisível. Um par de olhos atentos que revê, mas não reescreve a nossa voz. Uma máquina que, ao contrário de tantas outras, não nos rouba a autoria — apenas nos sussurra ao ouvido: “há outra forma de dizer isto.”

Mas não é só poesia. A Clarice AI é também uma iniciativa de soberania linguística. Numa altura em que quase toda a inteligência artificial que usamos vem do hemisfério norte, treinada em bancos de dados que ignoram mais de 260 milhões de falantes de português no mundo, ela chega como um gesto de resistência. Uma afirmação: a nossa língua merece uma IA feita à sua medida.

Além do português do Brasil, a plataforma também se propõe a respeitar outras variações do idioma — o que abre espaço para usos em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Portugal. Ainda está longe da perfeição, claro. Nenhuma IA compreende verdadeiramente o que é escrever a partir da margem. Mas Clarice, ao menos, começa do lugar certo: da pergunta “como se escreve em português?” — e não da tradução apressada de uma lógica inglesa.




HÁ LUTAS QUE não se travam só no ringue, mas na memória e na dignidade do país que carregamos nos ombros.O Mundial de MM...
29/09/2025

HÁ LUTAS QUE não se travam só no ringue, mas na memória e na dignidade do país que carregamos nos ombros.

O Mundial de MMA está a ferver em Tbilisi, e Angola vai a marcar presença pesada nas meias-finais. Para os atletas angolanos não é só participação, é afirmação.

Daniela Mandanji abriu caminho com raça, ao derrotar Asselya Serikbayeva (Cazaquistão) e agora vai cruzar luvas com a compatriota Elizabeth Salvador — duelo 100% angolano.

Milfa Nicolau não quis conversa: TKO em cima de Bakhromjon Imomzoda do Tajiquistão. Próxima paragem: Hadi Al Mir do Líbano.

Na categoria dos 52 kg, Jomar Sousa mostrou garra, bateu o mexicano Fábio Lopez e agora mede forças com Aminjon Saivaliev do Tajiquistão.

Esperança Chilala trouxe o nome que carrega: esperança. Passou por Alma Gabriela do México e agora vai travar guerra com Andrea Guzmán, também mexicana.

E nos 93 kg, Elfran Marques deu KO no silêncio: venceu Azamat Assylbekuly do Cazaquistão e vai para cima do polaco Łukasz Makowski.

Nem todos avançaram — Mário Stefan e Ricardo Pireza f**aram pelo caminho por lesão, Maria Liberal e Niclas Herlander caíram nos quartos. Mas a chama continua acesa: Nadir Vieira, Jeorgina Ludmila, Cláudia dos Santos, Nilza Munhanha e Maria Kitoko também já carimbaram bilhete para as meias.

Que fique claro: Angola não está apenas a participar, está a marcar território, a conquistar respeito, a escrever uma história que começa nos tatames e termina na identidade de um povo inteiro. Que as meias-finais sejam mais do que um passo competitivo, que sejam uma ponte entre o que somos e o que ainda podemos ser... CAMPEÕES.

Texto: Redação
Revisão: clarice.ai
Fotografia: FAMMA




O MUNDO DO futebol coroou Ousmane Dembélé com a Bola de Ouro. Um francês de origem africana, negro, a segurar o troféu m...
24/09/2025

O MUNDO DO futebol coroou Ousmane Dembélé com a Bola de Ouro. Um francês de origem africana, negro, a segurar o troféu mais cobiçado da bola no pé. Um momento carregado de simbolismo, principalmente num desporto ainda marcado por preconceitos, exclusões e uma indústria que engole os seus heróis ao mesmo tempo que os expõe como manequins dourados.

Mas que gala foi essa? Uma cerimónia que, ano após ano, perde credibilidade, convertendo-se mais num desfile de marketing do que numa celebração genuína do talento. A cada edição, parece menos sobre futebol e mais sobre quem rende mais cliques, capas e contratos. O prémio que já foi um hino à excelência agora é, muitas vezes, um eco de bastidores e lóbis.

E, no entanto, ver Dembélé levantar aquele globo dourado é inegavelmente poderoso. Um negro a erguer a Bola de Ouro ainda pesa no imaginário colectivo, porque sabemos bem quantos pés negros construíram este jogo, e quantos foram ignorados, silenciados, desvalorizados. Nesse sentido, o gesto de Dembélé não é apenas pessoal; é também histórico.

Mas a história não termina aí. É aqui que a ironia começa a incomodar. Estes mesmos jogadores, milionários globais, símbolos de resistência apenas pela cor da pele ou pelo bairro onde nasceram, calam-se diante das tragédias humanas. Os seus dribles são livres, mas as suas consciências estão presas. Assistimos a jogos, compramos camisolas, enchemos estádios, financiamos impérios. E eles? Não conseguem sequer soltar um tímido "Palestina Livre", "Congo Livre", "Sudão Livre". Não é pedir muito. Não é pedir que se metam no meio de bombas, apenas que falem.

E não vale dizer que futebol e política não se misturam. Misturam-se sempre e, os grandes da história souberam disso. Pelé, com todas as suas contradições, nunca fugiu da questão racial, da pobreza, da sua condição de negro num país que o idolatrava mas também o insultava. Maradona, com toda a sua rebeldia, nunca se escondeu: criticou guerras, presidentes, impérios. Foram vozes imperfeitas, sim, mas vozes. Hoje, temos silhuetas bem vestidas, mas mudas. Ídolos blindados por assessorias, agências e cláusulas.

O futebol adora vender-nos a imagem do jogador como herói, mas o herói moderno é tímido: prefere o silêncio que protege contratos milionários à palavra que incomoda patrocinadores. E é aí que a Bola de Ouro, apesar do brilho, não ilumina.

Não se trata de tirar mérito a Dembélé — o prémio é justo, o talento é inegável. Mas é impossível não olhar para este contraste: a importância simbólica de um negro a vencer, num palco que continua a ser político, e a indiferença de quem, com tanta visibilidade, prefere ser apenas parte do espectáculo.

No fim, a Bola de Ouro continua a ser isso mesmo: ouro. Celebra um homem, mas não necessariamente a humanidade.

Parabéns, Dembélé.




Antes da primeira batida, da primeira nota, o Largo dos Ex-Congoleses já era som, já era música. Não era palco, era rua:...
20/09/2025

Antes da primeira batida, da primeira nota, o Largo dos Ex-Congoleses já era som, já era música. Não era palco, era rua: asfalto gasto, esquina esquecida, poeira no ar. Ali, onde o Estado não chega, chegou a Bungula Street Sessions.

A montagem fez-se sem luxo — cabos espalhados como raízes, baixo a testar o grave, MPC carregada. No centro da cena, as colunas artesanais, imponentes, feitas por Sacerdote: altifalantes no interior de dois pneus atrelados, empilhados sobre uma estrutura de metal, madeira, encaixe de urgência e engenho. Pura engenharia de rua. O som saía dali como ronco de liberdade, voz de quem nunca teve palco.

A roda formou-se devagar: gente a chegar sem convite, sem bilhete, sem pressa. Crianças, mães, nossas mães zungueiras, irmãos zungueiros, vendedores e vendedoras que todos os dias dão vida àquele espaço.

O Largo colou-se ao som de Faradai e do Tubo.du.Ensaio e, o bairro reconheceu-se naquele improviso. A bateria respondia ao baixo como se trocassem códigos secretos, o teclado cortava o ar, a coluna tremia. A cidade, não! O Largo — esse que vive acelerado demais pra ouvir qualquer coisa — parou por uns minutos.

Mas o sistema não gosta dos bodas fora da sua malta, nem das notas fora da sua pauta, logo, a polícia apareceu e... nós não tivemos de correr, e nenhum lucro foi esquecido no local.

Eles alegaram que o espaço era pequeno, “inapropriado”, com gente a mais. Tudo truque! O problema não era de som, era de signif**ado. Neste país, cultura que não bate continência é sempre vista como afronta, e quando a arte nasce da rua, com voz própria, sem patrocínio nem censura, vira alvo. Querem controlar até o que se sente.

O som foi desligado, mas ninguém arredou pé. Houve conversa. O comandante, jovem, sensato, percebeu o que estava ali — talvez tenha ouvido mais do que mandavam — e sugeriu mudar de lugar. E foi o que se fez. Mas cada rua tem o seu chefe, e eles foram vindo aos poucos, um por um, cada qual com farda e ego, a tentar silenciar o que não compreendiam.

Quando a vitória parecia à vista, o laptop de Faradai — o motor das 'sessions' — foi à vida. Não bastavam os chefes, não bastava a política do partideco, o laptop... tinha de ser o laptop.

Mas a jam seguiu com instrumentos vivos, e a rua fez o que sabe fazer de melhor: 'reinventar'.
Um irmão, um tropa mandou beatbox do peito pra fora, enquanto um rap cru vinha do fundo na voz de A.L. puxando a língua afiada enquanto cuspia rimas. Entrou um, entrou outro, e seguiu-se. Teve kuduro cru — e uma chamada de atenção a uma criança que tentava trazer rimas de promiscuidade; teve um soul rasgado, de um artista que parecia emprestado de outro mundo, que soltou um R&B tão íntimo que parecia cantar do espelho.

Até que o laptop de Faradai voltou, os kits explodiram de novo combinados ao som orgânico do Tubo du Ensaio nas colunas de madeira e borracha, e o Bungula mostrou a sua real face.

O Bungula Street Sessions aconteceu, chegámos tarde, saímos mais cedo, mas deu para presenciar todos estes momentos e registá-los. Não foi fácil, não foi limpo. Foi real. E por isso, foi gigante. Cada sessão é uma só: se viste, viste; se perdeste, não vais ver igual. A rua não se repete. Ela se reinventa.

A próxima sessão será outra, será única, será singular. E estamos todos convidados.




COM QUANTAS RIMAS SE FAZ UM CLÁSSICO?Porque clássico não é sinónimo de antigo — é sinónimo de eterno.Nesta rubrica mergu...
18/09/2025

COM QUANTAS RIMAS SE FAZ UM CLÁSSICO?

Porque clássico não é sinónimo de antigo — é sinónimo de eterno.

Nesta rubrica mergulhamos nas palavras, nos beats e nas imagens que fazem do rap muito mais do que música. Investigamos as obras que nascem já com o peso da posteridade, que respiram identidade e falam com o agora sem perder de vista o antes e o depois. Obras que, mesmo recém-chegadas, carregam alma de clássico.

“Na Guerra ou no Amor”, o primeiro single do segundo EP de Hidrogénio & DJ Mamen, lançado em 2023. A canção não só confirma o estatuto da dupla como referência maior do hip-hop angolano contemporâneo, como também eleva a fasquia do que se entende por consistência e visão artística dentro do género.

Hidrogénio segue a linha que vem traçando há anos — a de um dos letristas mais sofisticados da música angolana. No campo específico do rap, é difícil não o colocar entre os dez melhores. Se formos honestos, talvez até entre os cinco. A sua escrita é uma alquimia entre o existencial, o espiritual e o político. Cada verso é meticulosamente construído, e cada linha parece ter atravessado camadas de reflexão, vivência e dor. É filosofia de rua, dita com o peso de quem viu o mundo de perto — e sobreviveu para rimá-lo. A maturidade aqui não é pose: é cicatriz, é legado, é consciência.

DJ Mamen, por sua vez, assume a arte da subtileza com mestria. É mestre do espaço e do tempo: sabe quando calar o beat, sabe onde cortar o silêncio. Os seus scratches não são apenas adorno técnico, mas acenos respeitosos à linhagem do rap lusófono — com referências discretas, mas impactantes, a nomes como Fusível, Boss AC e Kalibrados (Kadaff). Mamen transforma cada faixa num espaço de continuidade, onde passado e presente se encontram com elegância e reverência.

O instrumental, assinado por Blaq Caff, é um boombap limpo e elegante, com o mesmo perfume dos clássicos de Apollo Brown, mas com um ADN marcadamente angolano. Uma produção que respeita a tradição do género, mas não se limita a ela. Blaq Caff entrega um instrumental que serve a caneta de Hidrogénio com generosidade e precisão, oferecendo também a base perfeita para que cada corte e risco de DJ Mamen respire, pese e reverbere. Uma batida sem ruído desnecessário, sem excessos, só o necessário para que o essencial se imponha.

O videoclipe, realizado por Relatório Autónomo (Ubuntu Media), amplia ainda mais o alcance simbólico da faixa. O ponto de partida é o quartel do Movimento Ubuntu, mas a narrativa visual desloca-se por Luanda (talvez) e pelo tempo, costurando referências históricas e culturais que ancoram a canção num lugar de memória e resistência. As imagens evocam figuras como Rainha Ginga, Thomas Sankara, Amílcar Cabral e Muhammad Ali, inserindo a luta quotidiana angolana numa constelação pan-africanista maior. A presença de Azagaia — ainda que em graffiti — é outro gesto de homenagem que diz tudo, sem precisar explicar nada. É um clipe que não ilustra a música, mas a expande, traduzindo em imagem a força simbólica que a letra já carrega.

“Na Guerra ou no Amor” é mais do que um single. É um acto de fé no poder da palavra. Um compromisso com a herança do rap como ferramenta de lucidez, resistência e afecto. Um lembrete de que fazer música não é apenas entreter — é dizer, é convocar, é marcar lugar na história.

E então, COM QUANTAS RIMAS SE FAZ UM CLÁSSICO?

Link do vídeo nos comentários.




E ANTES QUE o dia termine, felicitações à Aṣa, uma voz que transcende fronteiras — tanto da carne quanto da alma.Hoje ce...
17/09/2025

E ANTES QUE o dia termine, felicitações à Aṣa, uma voz que transcende fronteiras — tanto da carne quanto da alma.

Hoje celebramos o aniversário de uma das artistas mais genuínas e poderosas da música contemporânea: Bukola Elemide, a nossa Aṣa. Uma artista que, desde o seu primeiro acorde, ofereceu-nos uma voz que ecoa a fusão entre a tradição e o contemporâneo, entre a saudade e a esperança.

Aṣa, com a sua sonoridade ímpar — que mistura soul, jazz e músicas africanas com toques de pop e indie — continua a desafiar-nos e a emocionar-nos. Cada nota sua é um convite à reflexão sobre as subtilezas da vida, do amor e das nossas raízes.

A sua arte não é apenas uma estética sonora; é uma viagem introspectiva que, de alguma forma, nos conecta a algo maior.

Para nós, Aṣa é a representação perfeita da arte que ousa desprender-se das normas e transcende rótulos, quebrando barreiras e, ao mesmo tempo, mantendo viva a raiz de onde tudo vem.

Feliz aniversário, Aṣa!




FELIZ DIA DO HERÓI NACIONALQuando os grupos Terceira Divisão, Tiranicídos Verbais e MP Crew se unem, formam a SOCIEDADE ...
16/09/2025

FELIZ DIA DO HERÓI NACIONAL

Quando os grupos Terceira Divisão, Tiranicídos Verbais e MP Crew se unem, formam a SOCIEDADE ABERTA — um colectivo de rap hardcore que só pode ser encontrado nos becos mais distantes da elite musical angolana.

Em "Mais Um Dia Pra Ser Herói" ou "Na Surdina do Estardalhaço", nas vozes de J.A.Z.I.G.O., Lunceva Nkweno, Mordomo Templário, A.L. e Systema Preto, o colectivo apresenta, de um lado, o heroísmo silencioso do cidadão comum, aquele que luta todos os dias sem condecorações, sem medalhas, nem manchetes; do outro, o estardalhaço, o barulho da fama, das redes, da ostentação, e o silêncio cúmplice de quem tem voz mas não a usa em defesa dos menos fortes.

A música tem a assinatura instrumental de Todos Os Sonhos e engenharia de C.O pela Músic'Arte.

Se isso der certo, de tempos a tempos traremos outras produções que temos arquivadas conosco, de uma era em que éramos 'Central BoomBap'.




De um lado, o heroísmo silencioso do cidadão comum, aquele que luta todos os dias sem condecorações, sem medalhas, nem manchetes; do outro, o estardalhaço, o...

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