16/10/2025
HÁ UMA ESTRANHA mania a florescer entre artistas de todos os calibres. Transformar o que já foi dito, gravado, performado, e por vezes esgotado, em livro. Não um livro com contexto, análise, bastidores ou costuras críticas entre os versos. Não. Apenas livro. Como se o papel conferisse uma nobreza que o microfone não tem. Como se o papel fosse redenção. Como se o livro fosse um túmulo sagrado onde os versos vão descansar em paz, longe das ruas, das bocas e das batalhas.
Essa tendência não é nova, mas tem piorado. Vira e mexe alguém lança um "livro de letras". O que no fundo é só uma colectânea de coisas que já ouvimos, já entendemos (ou não), já decorámos, já citámos, já vivemos. A diferença? Agora podemos pagar para ver as mesmas palavras impressas em papel couchê, com capa dura e prefácio pretensioso. A pergunta é: por quê?
É o fetiche do livro como símbolo de erudição. Mesmo que o conteúdo não precise, e muitas vezes não suporte, esse tipo de elevação. Existe aí uma ansiedade de validação. Como se, para ser levado a sério, o artista tivesse que deixar de ser voz e virar objecto. Como se a palavra só valesse se ganhasse ISBN.
E então chegamos ao caso do rapper Kid Mc, que anuncia o lançamento de um livro com todas as suas letras já gravadas. Não. Não é um livro com ensaios sobre a sua lírica. Nem uma análise cultural do seu impacto no rap angolano. É um livro de letras. Letra por letra. Faixa por faixa. Aquilo que já ouvimos dezenas de vezes. Está no YouTube, Spotify, discos, pen drives, de tudo e mais alguma coisa que compramos na praça da independência. Agora podemos comprar impresso.
Temos que dizer com todas as letras. Isso é um delírio editorial. Ainda mais vindo de um rapper. Um rapper. Um cronista da rua. Um artesão da oralidade. Alguém que sempre teve no improviso, na vivência e na circulação a sua força. Ao lançar um livro de letras, Kid MC abandona o palco da palavra viva para vender souvenir de si mesmo.
Se o interesse fosse realmente partilhar as letras com o público, que colocasse no Genius.com. No Letras.mus.br. Tem centenas de sites e banco de dados disponíveis para catalogar letras de música. Se a preocupação é com o arquivo, então vamos digitalizar, contextualizar, abrir para o debate, explicar gírias, revelar intenções por trás das barras. Se for por isso, a CAL E CARVÃO se oferece. Com gosto. Para transcrever cada verso. Organizar por álbum, faixa, ano e tema. E colocar em todas as plataformas com as devidas explicações de cada rima.
Mas não. É um livro. Um livro que custa. Que se compra. Que gera lucro. Que confunde legado com faturamento.
A arte da palavra não precisa ser empacotada em papel para ter valor. E se o rapper quer mesmo deixar algo impresso, que seja na memória colectiva. Não nas gôndolas da livraria, como se fosse autoajuda em verso.
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