31/05/2026
O MOXICO ESTÁ A ESVAZIAR-SE DOS SEUS MELHORES CÉREBROS?
O nosso maior problema começa precisamente aqui: falar dos “melhores” sem definir critérios científicos claros e credíveis para tal.
Antes de mais, cumpre reconhecer o mérito do Doutorando Bendito Guilherme Muhusso. Entre os poucos académicos de facto que desenvolvem pesquisas aplicadas ao nosso contexto, merece justo louvor. Foi o seu estudo sobre a fuga de quadros no Moxico que gerou debate público e, infelizmente, amplas especulações nas redes sociais.
O activista Nelson Mucazo Euclides assumiu a autoria da divulgação científ**a feita no Portal Recurso e na sua página de Facebook. Agradecemos a sua disponibilidade para o debate, que aceitámos de bom grado. A nossa intervenção organiza-se em duas perspectivas:
I. DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
A divulgação recente deste estudo trouxe para a esfera pública uma preocupação legítima sobre o futuro da província. A fuga de quadros é real e afecta sectores vitais como a educação, a saúde, a administração pública e o desenvolvimento económico.
Porém, produzir conhecimento científico é indispensável, mas garantir que a sua difusão respeite rigorosamente os resultados obtidos é igualmente crucial. É aqui que reside o nosso alerta.
Uma coisa é afirmar, com base nos dados do investigador, que o Moxico regista fuga de quadros. Outra, muito diferente, é declarar que o Moxico se está a esvaziar dos seus “melhores cérebros” ou “melhores quadros”. Esta segunda afirmação introduz um juízo de valor que exige critérios objectivos — os quais, pelo que foi tornado público, não decorrem directamente da investigação.
Perguntemos, então:
1. Quem são os “melhores quadros”?
2. Que indicadores os identif**am? Formação académica? Produtividade científ**a? Desempenho profissional? Impacto social? Experiência ou liderança?
3. Qual o procedimento metodológico que sustenta uma classif**ação tão ampla?
Estas questões não são retóricas. São exigências básicas de qualquer investigação séria e de uma comunicação responsável dos seus resultados. O facto de um estudo identif**ar a saída de profissionais qualif**ados de uma região não autoriza, por si só, a conclusão de que os que saíram eram necessariamente os melhores. Essa inferência exigiria evidências específ**as e critérios pré-definidos.
Importa, portanto, distinguir com clareza o que pertence ao investigador e o que pertence ao intérprete. Muitas vezes, os títulos escolhidos por certos portais visam o impacto mediático mediante expressões emocionalmente apelativas. Contudo, quando essas expressões ultrapassam o que os dados demonstram, a divulgação científ**a degrada-se em sensacionalismo informativo.
O primeiro dever da divulgação científ**a é a fidelidade aos resultados, não a procura de manchetes vibrantes.
Ética na divulgação: limites que não podemos ignorar
A investigação científ**a produz conhecimento através de procedimentos rigorosos de recolha, análise e interpretação de dados. Os seus resultados têm limites definidos pela amostra, pelo contexto e pelos instrumentos utilizados.
Quando um meio de comunicação adiciona interpretações que não decorrem directamente desses resultados, induz o público a conclusões que o estudo nunca pretendeu sustentar. Por isso, a divulgação científ**a exige responsabilidade ética. Jornalistas, comentadores e gestores de portais devem esforçar-se por compreender os fundamentos metodológicos das pesquisas que divulgam, evitando extrapolações que distorçam as conclusões dos investigadores.
O respeito pela ciência implica respeitar também os seus limites:
1. Nem toda conclusão desejável é uma conclusão demonstrada.
2. Nem toda percepção social corresponde a uma evidência científ**a.
3. Nem toda interpretação jornalística representa um resultado de investigação.
II. RESULTADOS DA PESQUISA E O VERDADEIRO DESAFIO
Reconhecer os limites de certas interpretações não signif**a negar a existência do problema. A fuga de quadros é, efectivamente, um desafio para o desenvolvimento do Moxico e de outras províncias do interior. Muitos profissionais procuram melhores condições de trabalho, remuneração, habitação, assistência médica, oportunidades de formação e perspectivas de carreira. Trata-se, na maioria dos casos, de uma decisão racional e não de falta de patriotismo.
Do mesmo modo, merece reconhecimento o contributo daqueles que permanecem no Moxico, enfrentando limitações estruturais e construindo soluções a partir do contexto local.
O desenvolvimento de uma província não depende exclusivamente de quem parte nem exclusivamente de quem f**a. Depende, sobretudo, da capacidade do Estado em formular e implementar políticas públicas que criem condições atractivas para viver, trabalhar, investir e desenvolver carreiras.
A retenção de quadros não se alcança com discursos moralistas. Alcança-se com estradas funcionais, habitação acessível, serviços de saúde de qualidade, educação eficiente, oportunidades económicas e uma administração pública moderna e ef**az. Enquanto estas condições não existirem, a mobilidade profissional será uma consequência natural das desigualdades territoriais.
Tô Aqui. E Tu Também.
Por isso, o debate não deve assentar numa falsa dicotomia entre os que saíram e os que f**aram.
Os que partiram não são necessariamente melhores.
Os que permaneceram não são necessariamente piores.
Uns e outros podem contribuir para o desenvolvimento do Moxico.
O que verdadeiramente importa é que o debate público seja conduzido com rigor intelectual, honestidade metodológica e respeito pelos resultados das investigações científ**as.
A ciência deve ajudar-nos a compreender a realidade.
Não a exagerar.
Não a simplif**ar.
E muito menos a substituir por narrativas que os próprios dados não sustentam.
Orloque Já
Docente e Curriculista
LAIA – Linha de Apoio à Investigação Académica
Textos de referência:
Euclides, N. M. (2026). Fuga de Quadro Esvazia Moxico e Trava Desenvolvimento, Alerta Pesquisador.
https://recurso.info/fuga-de-quadros-esvazia
Euclides, N. M. (2026). Juventude Adormecida no Moxico: O Silêncio que Condena.
https://www.facebook.com/share/p/1BHjyyAnRt/