02/05/2025
Título: Máfia Vampira
Categoria: Romance - Ficção - Ação
Capítulo 1: Sangue na Escuridão
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A noite caiu sobre a cidade com a delicadeza de um funeral. As nuvens espessas cobriam a lua como um sudário, sufocando qualquer traço de luz. Nos becos do bairro antigo, o ar era denso, úmido, carregado do cheiro de metal oxidado, como se o concreto exalasse o próprio sangue. Era um pedaço da cidade que o tempo havia esquecido — e que a polícia evitava lembrar.
Elena Russo caminhava com pressa, os passos firmes mas silenciosos sobre o asfalto rachado. Cada sombra parecia crescer à medida que ela avançava, cada ruído ecoava mais alto do que devia. O couro da bolsa rangia sob seu braço, os dedos apertados ao redor da alça como se ela fosse sua última âncora com o mundo real.
Ela estava ali por Clara.
Três dias. Era esse o tempo desde que sua melhor amiga desaparecera sem deixar rastros — nenhum bilhete, nenhuma mensagem, nenhum pedido de ajuda. Apenas silêncio. A investigação da polícia estagnara rápido demais, com sorrisos vazios e promessas protocolares. Mas Elena não era de esperar. Seguiu os rastros por conta própria — mensagens criptografadas, contas falsas, nomes sussurrados em fóruns obscuros — e todas as trilhas apontavam para aquele bairro ma***to.
Ela sabia que Clara andava com pessoas perigosas. Que brincava nas bordas de um mundo que Elena sempre se recusara a aceitar como real. Mas nada a preparara para o que viria.
O som de passos atrás dela interrompeu os pensamentos.
Ela parou de súbito, os pulmões suspensos, os ouvidos atentos. O silêncio devolveu apenas o zumbido abafado da cidade ao longe. Lentamente, virou-se para trás. A rua estava vazia. Nenhuma alma à vista. Mas o frio que subia por sua espinha não vinha do vento.
Era como se algo — ou alguém — a observasse com olhos invisíveis.
Ela respirou fundo e continuou, agora mais rápido. As fachadas abandonadas pareciam olhar de volta, janelas negras como órbitas vazias. Passou por um beco onde um gato faminto a fitou com olhos arregalados antes de sumir como fumaça. Finalmente, chegou a uma porta discreta, semioculta sob uma escada metálica enferrujada. Acima dela, um letreiro quebrado piscava intermitente: **"Crimson Veil"**.
Era o lugar.
Ela hesitou. O ar parecia mais pesado diante da porta. Como se aquilo não fosse apenas uma entrada, mas uma passagem. Quando empurrou a madeira escura, foi como atravessar a superfície de um lago gelado.
Lá dentro, o mundo era outro.
Luz vermelha filtrava-se pelas lâmpadas penduradas como sangue filtrando pelas frestas de um caixão. A música eletrônica reverberava como um coração moribundo. Havia corpos dançando em um transe lento, quase animalesco. Outros apenas observavam, imóveis, como sombras à espera do movimento certo. Um cheiro forte de cigarro, bebida barata e... algo mais. Algo metálico. Sangue.
Elena sentiu o estômago revirar, mas manteve-se firme.
Atravessou o salão, cada passo sentido, cada olhar cravado nela como uma lâmina oculta. No balcão, um homem limpava um copo com a indiferença dos mortos. Seus olhos eram opacos, como vidro sujo.
— Posso ajudar? — disse, sem emoção.
— Estou procurando alguém — respondeu Elena. Sua voz saiu mais firme do que se sentia. — Clara Valenti. Ela esteve aqui?
Por um instante, algo vacilou no rosto dele. Um breve estremecer de reconhecimento. Mas logo voltou à neutralidade.
— Nunca ouvi esse nome. Vai querer alguma coisa ou vai só ficar aí parada?
Ela não respondeu. Algo no modo como ele evitava seu olhar dizia que ele sabia. Que todos ali sabiam.
E foi então que ouviu a risada.
Baixa. Distante. Refinada.
Vinha de trás.
Ela se virou — e ele estava lá.
Alto, pálido, com um terno escuro que parecia ter sido cortado sob medida no próprio inferno. Os cabelos eram negros como tinta derramada, e os olhos... os olhos ardiam, não com luz, mas com densidade. Como brasas vivas sufocadas por gelo.
— Clara, você disse? — perguntou, sorrindo. Sua voz era como uma promessa perigosa.
Elena recuou um passo, instintivamente.
— Quem é você?
— Lucian Moretti — respondeu, inclinando-se com elegância cruel. — E você, sem dúvida, é Elena. Clara falou bastante de você.
Ela estremeceu.
— Você sabe onde ela está?
— Está segura — respondeu Lucian, com uma pausa sinistra. — Por enquanto. Mas você não deveria ter vindo. Esse lugar... não foi feito para você.
E então, como um estalo de pesadelo, um grito irrompeu do fundo do clube.
Agudo. Desesperado. Feminino.
Elena gelou. O som partiu suas entranhas antes de alcançar seus ouvidos. Aquela voz era inconfundível.
— Clara — sussurrou. E correu.
O corredor era estreito, mal iluminado, com portas fechadas dos dois lados como fileiras de dentes esperando para morder. O grito veio de novo, mais fraco, como se afundasse em água.
Ela chegou à última porta e a empurrou com força.
O mundo parou.
Clara estava ali, caída no chão, os olhos semicerrados, pálida como a lua. No pescoço, duas marcas escuras vertiam sangue lentamente. A seu lado, um homem ajoelhado — o rosto estreito, as feições duras, os olhos brilhando com voracidade.
Ele se virou.
— Outra humana? — disse com escárnio, levantando-se. — Que banquete.
Elena recuou. Mas antes que ele pudesse dar um passo, Lucian entrou.
A velocidade com que ele se moveu era inumana. Num segundo estava à porta, no outro, agarrava o pescoço do agressor com uma só mão, erguendo-o do chão como um boneco.
— Viktor — disse, em tom gélido. — Você conhece as regras.
— Regras? — arquejou o homem. — Desde quando você se importa, Lucian?
A resposta veio com um estalo seco. Ossos quebrados. Viktor caiu como um fardo.
Elena mal conseguia respirar.
— Você o matou... — murmurou.
Lucian virou-se lentamente, seus olhos ainda brilhando.
— E você será a próxima, se continuar fazendo perguntas erradas.
— Eu só quero Clara. Só quero ir embora.
Ele se aproximou, seus passos quase sem som.
— É tarde demais, Elena. Você já cruzou a linha. Agora, faz parte disso. Mesmo que não queira.
Ela tentou recuar, mas já estava encostada na parede. Os olhos dele a prendiam como garras.
— Tem duas opções — disse ele, com calma cirúrgica. — Vem comigo por vontade própria... ou eu levo você à força. Decida.
Ela olhou Clara, ainda viva, mas frágil como vidro rachado. E então olhou para Lucian. Aquilo não era um humano. Era algo muito mais antigo. Muito mais perigoso.
Mas a escolha era uma ilusão.
— Eu vou com você — disse, quase sem voz.
Lucian sorriu, satisfeito. Pegou Clara nos braços com facilidade.
— Boa garota. Vamos. A noite apenas começou.
Elena o seguiu, sem olhar para trás. Cada passo a afastava do mundo que conhecia. Cada passo a mergulhava mais fundo em algo que não tinha nome. Um mundo de sombras, sangue e promessas quebradas.
No centro, caminhava Lucian Moretti. Uma criatura coberta de pele e charme. E atrás de seus olhos, havia séculos de escuridão à espreita.
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A porta dos fundos do Crimson Veil rangia como um túmulo se abrindo. Do lado de fora, a noite era ainda mais densa, como se o próprio ar soubesse que algo profano havia sido arrancado das entranhas do clube.
Um Cadillac preto aguardava à beira da calçada, reluzindo sob a pouca luz como um predador à espreita. Atrás dele, dois outros veículos de vidros escurecidos estacionavam em silêncio absoluto. Nenhum ronco de motor. Nenhum sinal de vida. Apenas presença. E ameaça.
Lucian caminhava com passos largos e imponentes, Clara nos braços como se carregasse uma boneca adormecida. Elena o seguia, hesitante, o coração trovejando no peito. Não havia gritos, não havia luta — só uma obediência que nascia do medo. Não do que Lucian fizera, mas do que ele ainda podia fazer.
Um dos homens que aguardava ao lado do Cadillac abriu a porta com reverência. Era alto, de terno cinza escuro, pele acinzentada e olhos de um âmbar opaco. Seus movimentos tinham a rigidez de um lacaio que já não precisava parecer humano.
— Direto para casa — disse Lucian, sem sequer olhar para ele. — E sem desvios.
— Sim, senhor.
Elena entrou no banco traseiro, e Lucian sentou-se ao lado, posicionando Clara entre os dois, com cuidado. Como se o gesto fosse gentil. Como se ele fosse capaz de gentileza.
O carro deslizou pela rua com a suavidade de um espectro. Nenhum som, nenhuma vibração. Como se não tocasse o chão.
Por alguns minutos, o silêncio foi quase suportável. Elena observava o reflexo das luzes nas janelas, tentando conter as perguntas que latejavam em sua mente como feridas abertas. Mas Lucian não era de permitir silêncio por muito tempo.
— Você tem sorte de ser bonita, Elena — disse ele de repente, como se continuasse uma conversa que nunca começou. — Isso costuma fazer as pessoas viverem mais tempo neste mundo.
Ela o encarou, tentando medir o quanto daquilo era provocação e o quanto era ameaça.
— Se está tentando me tranquilizar, está fazendo um péssimo trabalho.
Lucian riu, um som rouco e indulgente.
— Tranquilizar você? Oh, querida, não seja tola. Eu só gosto de conversar com pessoas interessantes. E você... tem uma curiosidade perigosa. Isso me diverte.
— E você tem o ego do tamanho do inferno.
Ele arqueou uma sobrancelha, satisfeito.
— Gosto de você. Tem coragem. Isso é raro. Nos tempos antigos, mulheres como você viravam rainhas ou mártires. Mas hoje... morrem esquecidas em calçadas sujas.
Ela desviou o olhar. O cheiro de Clara ainda emanava sangue fresco, e o perfume do interior do carro, uma mistura de couro caro e algo antigo — madeira velha, incenso, talvez cripta — começava a sufocá-la.
— Para onde estamos indo? — perguntou, sem esperanças de resposta sincera.
Lucian pousou os olhos nela como se avaliasse uma joia trincada.
— Minha casa. Vamos conversar em particular, longe de olhares indesejados. E Clara precisa de... cuidados especiais.
— Você quer dizer, mais sangue?
— Não — respondeu, firme. — Eu não sou um selvagem. Nem todos os meus... pares compartilham da minha contenção. Viktor, por exemplo, era um cão. Eu prefiro pensar em mim como um colecionador. De histórias, de experiências... de pessoas raras.
Ele se inclinou um pouco, os olhos mergulhando nos dela.
— E você, Elena Russo, é rara.
Ela sentiu um arrepio, não pelo elogio, mas pela certeza de que ele acreditava em cada palavra. Como um artista que encontra uma tela perfeita — para destruir, se necessário, desde que seja belo.
— Se me quiser como prisioneira, vai precisar de mais do que bajulação.
— Prisioneira? — Ele riu. — Oh, não. Não me entenda mal. Eu não forço ninguém a nada. Eu apenas ofereço escolhas... que ninguém nunca recusa.
O Cadillac virou para uma estrada mais estreita, ladeada por árvores antigas que se inclinavam sobre o caminho como sentinelas. Ao fundo, entre as sombras, um portão de ferro surgiu. A mansão além dele parecia arrancada de outra época — colunas góticas, janelas estreitas, vitrais escurecidos. Tudo ali gritava poder e segredo.
— Bem-vinda ao meu pequeno refúgio — disse Lucian com falsa modéstia. — Onde as histórias vêm para viver... ou morrer.
Os portões se abriram sem som. O carro avançou lentamente pela alameda coberta de folhas mortas. Atrás, os dois veículos seguiram como caçadores silenciosos.
Elena olhou Clara. Ela ainda respirava, mas fraca, frágil, como se uma parte dela já tivesse sido tomada.
— Se ela morrer — disse Elena, com firmeza — eu juro que arranco seu coração com minhas próprias mãos.
Lucian a encarou. Por um momento, algo em seus olhos vacilou. Algo que lembrava... respeito?
— Se ela morrer — respondeu, sério — este mundo perderá um dos últimos vestígios de beleza verdadeira. Eu não permitirei.
O carro parou.
Lucian abriu a porta e saiu com Clara nos braços.
— Venha — disse a Elena, olhando por cima do ombro. — Ainda há tempo para você decidir o que quer ser neste novo mundo. Uma sombra a mais... ou uma chama difícil de apagar.
Elena hesitou. E então saiu.
O ar ao redor da mansão parecia mais frio, mais antigo. Como se o tempo tivesse medo de passar ali.
Ela sabia que, ao cruzar aquelas portas, deixaria para trás tudo o que conhecia — e que, seja o que fosse Lucian Moretti, ele não era apenas um predador.
Ele era o convite.
E ela, talvez, a última a dizer sim.