03/01/2025
A situação da Isabel Veloso, pessoalmente, sempre mexeu muito comigo e por isso cheguei a “defender” algumas atitudes meio contraditórias que ela teve até aqui.. Inicialmente me encantei com a força e coragem com que essa “menina” falava do seu diagnóstico e com o brilho no olhar que ela conseguia ter, mesmo passando por uma situação inimaginável. Vocês sabem que tenho pavor de julgamentos, mais ainda quando são direcionados às mães, mas nesse caso específico, me senti no direito e no dever de opinar. Afinal, apesar de cenários diferentes, há pouco tempo, vivi algo que me trouxe “bagagem” suficiente para falar desse contexto tão delicado.
Receber o diagnóstico de uma doença grave e incurável, é despencar em queda livre rumo ao desconhecido e viver um real estado de luto. Daquele momento em diante, a gente começa a ter convicção de que não vivemos direito o passado e iniciamos uma corrida contra o tempo e as circunstâncias, para “acelerar” tudo aquilo que ainda sonhávamos para o futuro que não teremos mais. Assim, atropelar a razão e meter os pés pelas mãos, é perfeitamente justificável. Não adianta, quem não passou por isso jamais será capaz de entender.
Ela conseguiu viajar, tocar o coração das pessoas, ser ajudada emocional e financeiramente, se casar e… Contra todas as recomendações médicas e ciente das possíveis consequências, decidiu engravidar. Nessa hora é importante saber a diferença entre ser mãe e gerar um filho.
Acredito que todas nós concordamos que, pensar na possibilidade de ir embora desse mundo, deixando um bebê, uma criança, um adolescente ou até mesmo um filho adulto que não esteja “encaminhado”!na vida, é aterrorizante. É muito pior que a morte propriamente dita. Morrer deixando alguém dependente de você é quase que uma “irresponsabilidade” e deveria no mínimo, ser algo proibido. Mas obviamente, na maioria dos casos, isso acontece sem “aviso prévio” e independente de tudo o que fizemos para nos resguardar.
Em um trecho da sua última entrevista, Isabel fala que se culpou muito pelo bebê ter nascido prematuramente, mas que não foi culpa dela… Eu sei, a palavra culpa é pesada e quando se trata de uma situação tão atípica como essa, ela consegue ser ainda mais cruel. Porém, é impossível não falar em auto responsabilidade…
A partir do momento em que, ciente de todos os riscos e possibilidades, decidimos colocar um filho no mundo, nos tornaremos mães e isso vem com uma carga enorme de responsabilidade. Dali em diante, é nosso papel, garantir a saúde física e emocional desse bebê e para que isso seja possível, precisamos estar minimamente saudáveis, embora nunca estejamos de fato “preparadas”.
Não consegui assistir à essa situação sem fazer um paralelo com o que passamos por aqui. Quando meu pai adoeceu e soubemos que não tinha cura, embora eu nunca tivesse perdido as esperanças, nos mobilizamos para fazer tudo que estivesse ao nosso alcance para ter bons momentos juntos, acontecimentos felizes, planos concretizados.. E nos 365 dias anteriores à sua partida, vivemos para gerenciar riscos e fazer escolhas difíceis, TODOS os DIAS.
A única possibilidade dele ter alguns anos de vida, com qualidade, era o auto transplante de medula, mas antes disso, ele passaria 4 meses sendo submetido a uma quimioterapia agressiva e intensa e estaria isolado de tudo e todos, impossibilitado de fazer as coisas que mais gostava na vida. Assumimos o risco.
Meu pai tinha uma vontade enorme de rever os pacientes que atendia na hemodiálise e os colegas de trabalho no hospital, já que ele precisou largar tudo do dia para a noite, sem preparo ou despedidas.. Por livre e espontânea vontade eu quis comprar essa “briga”, mesmo sendo desencorajada pelos médicos e sabendo que eu poderia me culpar pelo resto da vida, com a imunidade tão baixa, visitar um hospital em tempos de COVID, poderia levar ele embora em um estalar de dedos. Nunca me esqueço do médico me dizendo: “Não queira saber o prognóstico dos pacientes oncológicos com COVID…”
Algo me dizia que ele merecia essa felicidade, apesar de tudo e todos. A razão dizia que eu era louca, mas meu coração insistia... Combinei com ele todo um protocolo de segurança, não tirar a máscara, álcool na mão o tempo todo, não abraçar.. Chegando lá, ele fez absolutamente tudo ao contrário, entrou no salão lotado da hemodiálise, abraçou os “velhinhos” dele, abaixou a máscara várias vezes pra conversar, uma choradeira danada, beijou, apertou dezenas de mãos, largou mão do álcool, enquanto todos os músculos do meu corpo se contraiam com o tamanho da minha IRresponsabilidade. E depois de tomar um café com os colegas, ainda levou um tombo antes de entrar no carro!
Éramos dois adultos e apesar de estarmos em uma situação vulnerável, tínhamos consciência das possíveis consequências daquela escolha. Embora eu nunca tenha contado para ele, exatamente o que o médico havia me dito… A responsabilidade por tudo o que pudesse acontecer nos próximos dias, era minha, eu sabia que ele queria muito, mas ele nunca pediu pra ir imediatamente, sempre foi um paciente comprometido e “obediente”.. Eu apoiei e incentivei, mesmo sabendo que poderia sentir culpa pelo resto da vida se desse errado.
Uma semana depois, após o primeiro ciclo de químio, ele teve uma complicação grave, foi entubado, ficou internado por quase 4 meses e mesmo depois da alta, eu nunca mais veria a alegria e o brilho nos olhos daquele dia, assim como ele, nunca mais veria aquelas pessoas. Desde então, tive a certeza de que aquele dia, foi uma das experiências mais marcantes que eu poderia ter proporcionado a ele..
Eu relatei apenas um dos muitos desafios que enfrentamos nesse período. Mas o tamanho do sofrimento e responsabilidade que esse contexto carrega, já é suficiente para que eu tenha a convicção de que não é justo, trazer um filho ao mundo, por livre e espontânea vontade, nessas circunstâncias. Ainda que seja um sonho dela, nao é papel dos filhos, realizar os sonhos dos pais. Romantizar o ocorrido e vê-la como um exemplo de força e determinação, pode encorajar outras mulheres a fazerem o mesmo, o que definitivamente não é bom para ninguém.
Existem três desfechos possíveis para este caso. Ela ir embora antes que ele possa ter qualquer recordação da mãe… Ela conseguir uma sobrevida maior e colocá-lo dentro de um “cenário de guerra” para uma criança, sofrimento, dores, internações e perda.. E o terceiro deles, para o qual eu torço de todo o coração, um milagre que seja capaz de trazer a cura e fazer deles uma família saudável e feliz. Que assim seja 🙏🏻❤️