06/06/2026
Há seis anos, o Brasil assistia a um crime que continua a ecoar como símbolo da desigualdade e da ausência de justiça.
Em Recife, Mirtes Renata saiu para trabalhar e passear com o cachorro da patroa. Seu filho, Miguel, de apenas seis anos, ficou sob os cuidados da dona da casa. Abandonado por quem tinha a responsabilidade de protegê-lo, o menino procurou pela mãe e caiu do nono andar de um edifício de luxo.
Era o auge da pandemia. Enquanto escrevia os capítulos finais de Amor de Mãe, interrompida pela Covid-19, uma dor maior tomava conta de mim. Como dramaturga, como mãe e como brasileira, eu não conseguia pensar em outra coisa além de Miguel e de Mirtes.
Foi dessa indignação que nasceu o Falas Negras. Mais do que um programa, ele se tornou um espaço de memória e resistência. Não posso dizer que escrevi aquelas palavras, porque elas pertencem à História. O texto reuniu vozes negras que jamais se calaram: de Rainha Nzinga Mbande a Lélia Gonzalez, de Martin Luther King a Mirtes Renata.
Com direção de Lázaro Ramos, o projeto também abriu espaço para mais de 40 profissionais negros, entre atores, editores, figurinistas e cenógrafos. E foi impossível não se emocionar com a interpretação magistral de Tatiana Tiburcio ao dar voz a Mirtes e a tantas outras histórias.
Seis anos depois, Miguel não pode ser esquecido.
Porque lembrar é também um ato de resistência.
Porque é preciso seguir indignados.