João Vanderlei De Moraes Filho

João Vanderlei De Moraes Filho Poeta, pesquisador, encantado por Poéticas Emancipatórias. Editor .atelier.editorial Dir. Executivo Doutorando

ENTRE A RODA, O LIVRO E A MEMÓRIANo último sábado, 26 de setembro, estive em Amargosa para o 16º Encontro Nacional de Ca...
28/09/2026

ENTRE A RODA, O LIVRO E A MEMÓRIA

No último sábado, 26 de setembro, estive em Amargosa para o 16º Encontro Nacional de Capoeira, realizado no Espaço Mestre Paulo dos Anjos pelo Grupo Anjos de Angola, sob coordenação do Mestre Gilson, com apoio da A.C.E.R.B.A. – Identidade, Raízes e Memórias.

Fui recebido pelo Mestre Gilson e pela Professora Chorona, a quem entreguei, em nome da Casa Amefricana da Poesia – Quilombo da Palavra, dois livros como contribuição à salvaguarda de saberes e práticas culturais.

Um deles, Vozes Sagradas do Recôncavo, projeto editorial que idealizei a partir dos terreiros reconhecidos como patrimônio cultural da Bahia. O outro, o Catálogo do Instituto Neoenergia, no qual atuei como conteudista, ao lado da antropóloga Adriana Cerqueira, reunindo os cinco projetos premiados na chamada pública realizada no Recôncavo.

São trabalhos que atravessam minha trajetória editorial: como fazer o livro dialogar com culturas que não têm na escrita seu principal modo de transmissão?

Há saberes que se escrevem no corpo, na oralidade, no canto, no rito, na dança, na roda, no território. O livro, nesse caso, não substitui essas formas de conhecimento: escuta, registra, faz circular e ajuda a salvaguardá-los.

Foi especialmente significativo encontrar uma mesa de conversa protagonizada por mulheres sobre a violência contra as mulheres. A cultura também é espaço de enfrentamento, educação, cuidado e transformação. Gracias a Prof. Fernanda Souza pelo convite.

No caminho, encontrei Carolina Maria de Jesus inscrita na arquitetura da UFRB e conheci a Loja Luz e Fraternidade Amargoense nº 58, da GLEB.

Volto com a certeza de que há muitas maneiras de escrever um povo. Algumas usam papel. Outras usam o corpo. Outras, a roda.

É nesse entre-lugar que sigo fazendo o que amo: entre a palavra escrita e a palavra vivida, entre o livro e a ancestralidade, entre a memória e sua circulação.

Que Vozes Sagradas do Recôncavo encontre novas rodas. E que as rodas continuem produzindo novas vozes.

Casa Amefricana da Poesia – Quilombo da Palavra
Portuário Atelier Editorial

Sob o Atinsá do AmorDomingo estive entre os meus.Entre minhas irmãs — aquelas que a vida e a família me deram, e que o t...
23/09/2026

Sob o Atinsá do Amor

Domingo estive entre os meus.

Entre minhas irmãs — aquelas que a vida e a família me deram, e que o tempo, em vez de separar, ensinou-nos a escolher novamente.

Na fotografia, Cândida, Luciana, eu e Jaqueline.
Três irmãs que, de algum modo, também são parte da minha história. Cândida e Jaqueline, filhas do meu tio Zeca; Luciana, filha da minha tia Irene — aquela que, antes mesmo que eu pudesse reconhecer em mim o que havia de poeta, soube enxergar a poesia que me habitava, quando ainda me estranhava dos demais.

Talvez a ancestralidade seja isso: uma árvore que não termina em suas raízes, mas continua naqueles que aprendem a dar sombra uns aos outros.

No quintal de minha tia, havia um abacateiro.
E sob ele, assentado o Atinsá do Amor, a vida parecia guardar uma ciência que só o tempo nos revela: somos feitos também dos encontros, dos afetos, dos gestos de acolhimento e daqueles que nos reconhecem quando ainda não sabemos quem somos.

Foi ali, sob aquela sombra, que muitos acordes de nossa poética encontraram lugar.

Ali também se assentou uma espécie de raio de esperança — talvez aquele mesmo que Irene semeou em mim quando me ensinou a reconhecer a poesia que já morava no meu corpo.
Meu tio Zeca, por sua vez, me ensinou outra arte: observar de longe para enxergar de perto.

Aprendi que há coisas que só podem ser vistas quando nos afastamos um pouco; e que há pessoas de quem jamais devemos nos afastar por dentro.

Hoje compreendo que família também é esse movimento: aproximar-se, reconhecer-se, escolher-se, abraçar-se e acolher-se.

O sangue nos aproxima.
A memória nos reúne.
A ancestralidade nos sustenta.
Mas é o amor que nos faz irmãos.

E assim seguimos: quatro corpos diante da câmera, muitas histórias atrás de nós,
ancestrais soprando sobre nossos ombros,
e uma árvore invisível nos abrigando.
Sob o Atinsá do Amor, somos continuidade.

Somos família.

Somos memória que se abraça.
Somos poesia que não se perdeu

Dia dos PaisOntem foi dia de celebrar a paternidade — essa experiência bonita e exigente de aprender a ser enquanto outr...
10/08/2026

Dia dos Pais

Ontem foi dia de celebrar a paternidade — essa experiência bonita e exigente de aprender a ser enquanto outro ser também aprende a existir.

Meu pai partiu em 18 de setembro de 23. Em novembro, minha Gayaku também atravessou o portal da vida. E há pessoas que, mesmo quando já não estão em presença, continuam nos formando. Permanecem naquilo que pensamos, na maneira como tocamos a vida, nas palavras que escolhemos e até nos silêncios que aprendemos a respeitar.

Meu pai me ensinou também pela possibilidade de concordar e discordar. Houve confronto, afeto, distância, aproximação, palavra e silêncio. Houve a vida acontecendo entre pai e filho — sem a obrigação de ser perfeita.

O que guardo dele, à flor da pele, é uma sabedoria simples e imensa: nascemos para ser felizes. E não é a ilusão do outro que deve nos cegar para aquilo que somos.

Talvez ser pai seja isso: aprender que autoridade não é autoritarismo; que presença não é controle; que palavra também é impressão do sentir; e que educar uma filha ou um filho é, muitas vezes, aceitar que eles nos ensinem a nascer de novo.

Tenho aprendido que a criança que fomos não precisa desaparecer para que o ser que somos exista. Pelo contrário: quando fazemos amizade com nossa criança interior, talvez consigamos brincar melhor com nossas filhas e nossos filhos, escutá-los sem medo e acompanhá-los sem querer determinar quem serão.

Ser pai não é fabricar caminhos para os filhos. É oferecer raízes, presença e confiança para que eles possam inventar os próprios.

Aos pais que têm a oportunidade de estar ao lado de suas crias: feliz Dia dos Pais.

Aos que estão aprendendo a ser pais, que nunca lhes falte coragem para pedir desculpas, ternura para escutar e firmeza para proteger sem aprisionar.

Aos filhos e filhas que também aprendem a ser, que possam reconhecer em seus pais aquilo que foi possível, aquilo que é bonito e também aquilo que precisou ser transformado.

Eu amei meu pai.
Eu o amo.
E reverencio o aprendizado de ter sido filho — para poder ser o pai que sou hoje.

Que a paternidade nos faça homens mais inteiros, mais presentes e mais capazes de amar.

Feliz Dia dos Pais.

08/08/2026
08/08/2026
A palavra continua fazendo seus caminhos.Ontem tive a alegria de participar da programação da FLIPELÔ, no encontro "O de...
07/08/2026

A palavra continua fazendo seus caminhos.

Ontem tive a alegria de participar da programação da FLIPELÔ, no encontro "O desafio do primeiro livro: uma conversa entre autores premiados".

Compartilhar essa mesa com Álex Leilla, Rita Santana e Victor Mascarenhas, sob a mediação sensível de Marcus Vinicius Rodrigues, foi uma oportunidade de recordar que todo primeiro livro nasce muito antes de sua publicação. Ele começa nas leituras que nos atravessam, nas escutas que nos formam, nos territórios que habitamos e nas pessoas que acreditam na força da palavra.

Mais do que falar sobre estreias, conversamos sobre permanência: sobre escrever, editar, insistir e construir caminhos para que novos livros encontrem seus leitores.

Saio desse encontro com a convicção de que a literatura continua sendo um dos mais belos modos de criar comunidade.

Minha gratidão à FLIPELÔ pelo convite, aos companheiros e companheiras de mesa pela generosidade do diálogo e ao público que compartilhou conosco esse momento.

A literatura não se faz apenas no ato da escrita. Ela se completa no encontro entre autoras, autores, leitores e territórios. É nesse espaço de circulação que a palavra continua viva.

Ontem, o mato abriu passagem.Sob a licença de Oxóssi do Mato, na força do Caboclo Sete Flechas, reencontramos mais do qu...
26/07/2026

Ontem, o mato abriu passagem.

Sob a licença de Oxóssi do Mato, na força do Caboclo Sete Flechas, reencontramos mais do que pessoas: reencontramos caminhos.

Caminhos tecidos ao longo de mais de trinta anos de convivência, afeto, resistência e axé.

Há amizades que não se explicam apenas pelo olhar. Elas são reconhecidas porque a pele sente, a voz atravessa o peito e o arrepio anuncia a presença do sagrado.

São vínculos que o tempo não desgasta; ao contrário, amadurece.

Minha profunda gratidão aos meus mais velhos e às minhas mais velhas, guardiões da palavra, da memória e dos gestos que me ensinaram a caminhar.

A cada pessoa que esteve presente, meu muito obrigado. Cada presença tornou a roda mais inteira.

reverência ao homenageado da noite, Caboclo Sete Flechas, senhor das matas, da mira certeira e dos caminhos abertos.

Que sua flecha continue apontando para a justiça, para a coragem e para a dignidade de seguir.

Na tradição de nossos encantados, ninguém caminha sozinho. Somos feitos das mãos que nos levantaram, das vozes que nos chamaram pelo nome e das presenças que permanecem, mesmo quando o tempo insiste em seguir adiante.

Axé aos que vieram antes. Axé aos que permanecem. Axé aos que ainda chegarão

Há encontros que nos devolvem ao tempo.Ontem participei da mesa "Reflexões para uma política para o livro e leitura na B...
10/07/2026

Há encontros que nos devolvem ao tempo.

Ontem participei da mesa "Reflexões para uma política para o livro e leitura na Bahia", no Congresso UFBA 80 anos.

Uma alegria compartilhar esse diálogo ao lado do meu orientador, Prof. Dr. Albino Rubim, dos professorxs Dr. Adriano Sampaio, Dra. Flávia Rosa, da colega Carolina Dantas e do Sandro Magalhães, presidente da Fundação Pedro Calmon.

Enquanto falava, uma lembrança permanecia acesa: em março de 2007, eu estava sentado naquele mesmo auditório da FACOM/UFBA, ouvindo a equipe que apresentava as novas diretrizes das políticas culturais da Bahia, em diálogo com o Ministério da Cultura.

Ontem, quase vinte anos depois, retornei ao mesmo lugar como pesquisador, doutorando do Pós-Cultura e ex-diretor do Livro e Leitura da Fundação Pedro Calmon.

Minha pesquisa busca compreender como o Plano Ibero-Americano de Leitura (ILIMITA) e o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) encontraram, na Bahia, uma tradução própria. Mais do que reproduzir modelos, nossas políticas se nutriram de poéticas emancipatórias, fortalecendo bibliotecas, editoras, coletivos, autores e uma extraordinária rede de festas literárias espalhadas pelo estado. Mesmo assim, ainda temos muitos desafios.

Foi emocionante reencontrar tantos amigos e companheiros de caminhada. Douglas Almeida, Jansen, Bruna, Radi, Nelma, D. Z**i, Seu Pedro, Joana Sena, Seu José, D. Cândida.

E, intimamente, este momento também me ressignificou.

Há cerca de um ano e meio, o luto me conduziu ao recolhimento e ao desencanto. Ontem lembrei que há encontros que devolvem o fôlego. Não porque a dor desapareça, mas porque a vida insiste em florescer quando seguimos cultivando conhecimento, afeto e compromisso com o comum.

Saio profundamente agradecido.
Seguimos.

O registro foi da filósofa querida, Itana Sophia.

27/06/2026

Nossos caminhos sempre tem uma música, um agô, um sorriso compartilhado com a sabedoria de ser e estar sob encantamento.





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