06/08/2026
O caso do ator, que teria sido flagrado pela mãe enquanto uma criança era abusada, nos obriga a fazer uma pergunta que causa desconforto: e se ninguém tivesse entrado naquele quarto?
A alegação de que ele estaria bêbado e teria confundido a criança com a namorada será analisada pela Justiça. Mas, independentemente do desfecho, esse caso expõe uma realidade que milhares de crianças vivem todos os dias.
A maioria dos abusos se***is contra crianças não acontece por desconhecidos. Acontece dentro de casa ou é praticada por alguém de confiança da família.
O que salvou essa criança, segundo as informações divulgadas, não foi ela conseguir pedir ajuda. Foi alguém abrir a porta.
Muitas vítimas nunca conseguem contar o que viveram. Sentem medo, vergonha, são ameaçadas ou nem compreendem que estão sendo abusadas. Crianças com autismo podem encontrar ainda mais dificuldades para comunicar o que aconteceu.
Infelizmente, muitos casos nunca chegam à polícia. Quando o agressor faz parte da família, o silêncio costuma falar mais alto. Há quem não denuncie por medo, culpa, vergonha ou para “não destruir a família”.
Mas o silêncio não protege a família. O silêncio protege o agressor.
E enquanto ele permanece sem ser responsabilizado, outras crianças podem continuar sendo vítimas.
Como terapeuta, já acompanhei adultos que carregam por décadas as consequências de um abuso sofrido na infância: ansiedade, depressão, crises de pânico, culpa, dificuldade de confiar, baixa autoestima e relacionamentos marcados pelo trauma.
Por isso, quando uma criança fala, ela precisa ser ouvida. E quando não consegue falar, os adultos precisam estar atentos aos sinais. A responsabilidade nunca é da criança.
Se você passou por um abuso na infância, saiba que a culpa nunca foi sua. O que fizeram com você não define quem você é. As marcas do trauma podem ser cuidadas. A terapia oferece um espaço seguro para acolher essa dor, ressignificar essa história e recuperar a autoestima, a segurança e a liberdade emocional.
Você não pode mudar o que aconteceu. Mas pode impedir que essa dor continue definindo a sua vida.
Advogada: leticiacamposvale