28/03/2025
OS MALÊS E A UTÓPICA MONARQUIA ISLÂMICA NA BAHIA
No início do século XIX, mais precisamente no ano cristão de 1804, em Mali, região ocidental da África, o líder muçulmano da etnia Fulani, Usman Dan Fodio, decretou a Jihad em seu país e perseguiu a etnia Hauçá que também era da fé islâmica, porém de outra ramif**ação denominativa. No Islão, sunitas e xiitas são inimigos mortais.
Derrotados, os Hauçá foram vendidos para os europeus, principalmente aos portugueses, que tinham o Brasil como destino para esses prisioneiros de guerra que aqui chegando, foram escravizados e enviados para os engenhos de açúcar.
Nessa época, o Brasil era um império e era governado por uma Regência até a maioridade do seu monarca Dom Pedro II, que era ap***s uma criança, depois da abdicação do seu pai.
Aqui chegando, esses escravos muçulmanos f**aram conhecidos como Malês, proveniente do idioma hauçá málami que em português signif**a "professor", "senhor".
Os outros escravos de outras etnias os chamavam de Nagôs, que em iorubá quer dizer "muçulmanos". Ou seja, negros africanos que sabiam ler e escrever na língua árabe.
Sim. Os Malês ou Nagôs eram negros instruídos e intelectuais que quando aqui chegaram para trabalhar no regime da escravidão, eram muito mais instruídos que seus donos!
Vale a pena ressaltar que os portugueses eram católicos fervorosos e o islamismo já estava dominando o continente africano há mais de mil e duzentos anos.
Os Malês, ou mussurumins foram levados para Alagoas, Pernambuco, Rio de Janeiro e na sua grande parte para a então província da Bahia, que tinha por capital a importante cidade de São Salvador.
O Brasil já usava o trabalho escravo desde os tempos da Colônia em 1580. E até o século XIX, não havia liberdade religiosa e os escravos eram obrigados a se converteram ao cristianismo e até trocarem os seus nomes muçulmanos para nomes cristãos, impostos pelos reis e imperadores europeus. Muitos africanos fingiam professar a religião católica para não serem castigados ou mortos. No entanto, por trás, praticavam o islamismo escondido e assim permaneceram até o dia da Grande Revolta.
A REVOLTA DOS MALÊS
Inconformados pela proibição severa da sua religião maometana, os Malês sofriam muito. Faziam questão de permaneceram separados até mesmo dos outros negros escravizados. Os outros escravos já estavam servindo aos luso-brasileiros há quase trezentos anos e eram analfabetos e fáceis de serem submetidos. Pertenciam a outra classe. Uma classe inferior, segundo os escravos Malês, que se achavam infinitamente superiores. Os Malês se comunicavam dentro de Salvador através da língua árabe escrita e transmitida de fazenda em fazenda, de engenho em engenho.
E no mês de Ramadã, nos dias 24 e 25 de fevereiro de 1835, os Malês e Nagôs se revoltaram.
Através dos líderes negros Ahuana, Licutan, Nicolé, Dessalu, e Gustard, que eram escravos, juntaram-se com o liberto Manuel Calafate e mais os bravos Sanin e Elasbão elaboraram o plano de conquista da cidade baiana. Eles tinham trazido muita experiência adquirida nos combates em sua terra natal, a África.
A intenção desses homens era libertar os escravos muçulmanos; extinguir o catolicismo; confiscar os bens dos brancos e mulatos; escravizar os não muçulmanos (dentre os quais brancos, mulatos e negros) e implantar uma monarquia islâmica na província da Bahia. Esse era o plano idealizado por um dos líderes, o Abubaker.
Eles sairiam da Vitória (atual bairro da Barra) e reuniram as forças em Salvador, mais precisamente no península de Itapagipe. Depois, invadiram os engenhos e libertaram os escravos.
RETALIAÇÃO E CASTIGO
Todavia, os rebeldes africanos não contavam com a astúcia e a perspicácia do Governo baiano. Não obstante, como toda revolta e insurreição, sempre existe algumas falhas ou traições.
O governo repeliu a rebelião fortemente e surpreendeu o ataque nos quartéis de Água de Meninos. Obviamente, as autoridades baianas estavam mais preparadas e mais armadas e mataram mais 70 dos guerreiros Malês numa só noite! Por outro lado, perderam sete oficiais.
Os sobreviventes, mais de 280 foram presos e levados para o Forte do Mar (Atual São Marcelo), na Baía de Todos os Santos. Quatro dos principais líderes foram condenados à pena de morte. Muitos a trabalhos forçados e outros tantos foram degredados e deportados para a localidade de Ajudá, na África, atual Benin.
Nessa revolta, os negros nascidos no Brasil não participaram.
Após o acontecido, o Império proibiu a circulação dos negros durante a noite e punia severamente quem praticasse o islamismo no país. E lá na Vitória, todas as noites se ouviam os gritos e berros dos negros sofrendo com as torturas impostas pelos seus algozes.
Com o passar dos anos, alguns ainda praticavam escondido a sua religião, mas aos poucos, se tornava mais fraca a continuidade. Até quando as outras religiões engoliram definitivamente a crença criada por Maomé e o muçulmanismo aqui no Brasil foi esquecido.