21/04/2026
CHIP REVERSE
A enfermeira Adriane Boff afirma que maus tratos nos presídios existem. Ela salienta que não está defendendo criminosos. O que defende é uma privação de liberdade sustentável, de modo que o preso, ao retornar ao convívio social, esteja plenamente apto à convivência, livre de traumas que possam ser expressos de forma violenta e repetitiva na sociedade.
Segundo Adriane, os atores da segurança pública, sendo Estado, apenado e cidadão comum com seu direito de ir e vir, precisam entender que o encarceramento por si só já é punitivo. Dentro da unidade, o detento precisa se aprimorar em desenvolvimento humano, espiritual, profissional e social, mesmo com direitos impossibilitados de serem usufruídos em liberdade plena. Perde-se a liberdade, mas não se perde a dignidade.
Para ela, o modelo não pode ser apenas assistencial e cumprir normativas básicas e urgentes. É preciso pensar em futuro. A cidade de Lages terá um presídio com setecentos presidiários em breve, o que causará impacto no fenômeno da violência que as pessoas ainda não dimensionaram. Se cada detento for maltratado e não tiver como rever condutas e tomar novas decisões sobre convívio social, será a sociedade que absorverá esse impacto diretamente de forma negativa.
Adriane argumenta que o sistema não pode se resumir a hospedagem e encarceramento. Precisa ter funcionalidade e interessar a todos, não só a quem paga e recebe dentro das questões financeiras da segurança pública. Esse modelo tem que valer a pena principalmente para a sociedade, que além da sensação de segurança, precisa da garantia de que o homem, ao receber a liberdade, estará apto para conviver de maneira adequada sem oferecer risco.
Ela conclui que se houver tortura sistemática ou eventual, um caso apenas já é suficiente, porque o efeito é subjetivo. O dano impacta segurança pública, saúde pública e assistência pública. São problemas que demoram para ser resolvidos e que provavelmente levarão o detento a reincidir.
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As grades e o espelho
A enfermeira Adriane Boff não levantou a voz. Não precisava. Falava como quem já viu o depois. E o depois assusta mais que o agora.
Ela começou dizendo o óbvio que dói: maus tratos nos presídios existem. Parou um segundo, como quem espera o incômodo se acomodar na sala. Depois veio o corte: não estou defendendo criminoso. Estou defendendo futuro.
Para Adriane, a cadeia já é o castigo. O cadeado no portão, o nome trocado por número, o dia marcado por sirene. Tirar a liberdade é punir. Tirar a dignidade é multiplicar a dívida.
Ela desenha com palavras o que Lages vai receber em breve: setecentos homens num presídio novo. Setecentas histórias trancadas juntas. Setecentas contas que, cedo ou tarde, voltam para a rua. Se cada um deles for devolvido com mais raiva do que entrou, quem paga a segunda fatura somos nós, no ponto de ônibus, na esquina, na porta da escola.
Não é sobre hotel, ela diz. É sobre oficina. Oficina de gente. Lá dentro, o tempo tem que servir para costurar o humano, o espiritual, o profissional, o social. Mesmo sem chave na mão, o detento precisa sair com alguma coisa no bolso que não seja só o endereço da próxima cela.
Adriane fala de funcionalidade. Palavra fria para uma coisa quente: o sistema tem que funcionar para a cidade, não só para a planilha de gastos. Porque segurança não é só trancar. É garantir que, quando a tranca abrir, o homem que sai saiba atravessar a rua sem atropelar ninguém.
Ela lembra que tortura, sendo sistemática ou um caso só, deixa marca que não aparece no raio X. Aparece no jornal de amanhã, no boletim de ocorrência, na fila do posto de saúde. Um dano que escorre para a segurança, para a saúde, para a assistência. Um ciclo que se alimenta do próprio silêncio.
No fim, Adriane não pediu aplauso. Pediu conta. Pediu que a gente faça as pazes com uma ideia simples: cadeia não é depósito. É espelho. O que a gente enfia lá dentro, volta refletido na calçada.
E se a imagem que voltar for pior do que a que entrou, não adianta reclamar do reflexo.