29/05/2026
Estive quase dois anos a poupar cinquenta euros por mês para fazer a dentadura. Sem casaco novo, sem sapatos, a comer sempre do lado esquerdo. Quando o meu filho soube que não lhe daria esse dinheiro para remodelar a cozinha, perguntou-me: «Precisas mesmo mais do que nós?» E nesse momento percebi há quanto tempo a dor dos outros era mais importante do que a minha...
Há anos que como do lado esquerdo.
Não sei se quem nunca viveu isso pode perceber o que isso significa no dia a dia. Significa que há coisas que não se pedem nos restaurantes porque não se consegue mastigar. Significa que nas refeições em família se come devagar e com cuidado e se reza para que ninguém repare. Significa que numa fotografia se tenta não abrir muito a boca. Significa que há uma parte de si que anda há anos um pouco escondida.
Os problemas com os dentes vêm de longe. De quando não havia dinheiro para dentistas e os arranjos se faziam a meias ou não se faziam. De anos a tapar com o que se podia. Até chegar a um ponto em que já não havia mais nada a tapar.
O dentista disse-me com clareza há quase três anos: ou fazemos isto bem ou não fazemos. E fazer bem tinha um preço que eu não tinha.
Então comecei a guardar.
Vivo em Coimbra, no apartamento onde criei os meus dois filhos. Tenho sessenta e seis anos, uma reforma que não dá para muitos luxos e uma caderneta de poupança onde depositava o que conseguia cada mês. Cinquenta euros nos meses bons. Trinta quando havia alguma despesa. Algum mês nada.
Também deixei de me comprar coisas. Não é que me comprasse muito antes, mas o pouco que me comprava fui cortando. O casaco que precisava fui adiando. Os sapatos novos, igual. Uma amiga deu-me uma camisola no aniversário e lavei-a tão devagar e com tanto cuidado que parece nova ainda.
Assim estive quase dois anos.
O meu filho Rui tem quarenta e um anos. Vive com a mulher e os dois filhos no Porto. É bom filho em muitas coisas. Telefona aos domingos. Vem ao Natal. Lembra-se do meu aniversário. Mas passa a vida inteira a dar como certo que quando há um problema, eu tenho uma solução.
Em outubro telefonou-me para me contar sobre a cozinha. Que estava muito deteriorada, que havia muito que queriam remodelar, que tinham pedido orçamento e que estava um bocado a descoberto.
— Quanto te falta? — perguntei-lhe.
Disse-me o valor.
Era exactamente o que eu tinha poupado.
Houve um silêncio. Não disse nada durante uns segundos e suponho que ele interpretou esse silêncio como que estava a pensar em como lho dar.
— É que tenho esse dinheiro guardado para outra coisa — disse por fim.
— Para quê?
— Para o dentista. Estou quase dois anos a poupar para fazer a boca.
Outro silêncio. Este diferente.
— E não pode esperar?
— Rui, há anos que estou à espera.
— Pois, mas uma cozinha também é necessária. Os miúdos comem lá todos os dias.
Não soube o que responder. Ou soube mas não disse.
— Olha, mãe, não te estou a pedir para mo oferecer. Devolveria assim que pudéssemos.
— Eu sei.
— É que me parece que uma cozinha em condições para uma família é mais urgente do que...
Fez uma pausa.
— Precisas mesmo mais do que nós?
Fiquei calada.
Essa pergunta ficou dentro de mim de uma forma que não sei explicar bem. Não foi só a pergunta. Foi o tom. Como quem pergunta algo evidente. Como se a resposta fosse óbvia e eu fosse aquela que não estava a ver as coisas com clareza.
Pensei nos dois anos de cinquenta euros mensais. No casaco que não me comprei. Nos sapatos. Em comer sempre do lado esquerdo. Nas fotos de boca fechada. Em quantas vezes tinha dito que sim quando devia ter dito que tinha de pensar.
— Sim — disse-lhe —. Preciso mais eu.
Fez-se um silêncio longo. Depois disse que percebia, num tom que dizia o contrário. Que falaria com a mulher para ver se encontravam outra solução. E desligou.
Não telefonou no domingo seguinte.
Telefonou passados dez dias, como se nada. Falámos dos miúdos, do tempo, de uma série que estava a ver. Não mencionou a cozinha. Eu também não.
Mas eu continuava a pensar nessa pergunta.
Precisas mesmo mais do que nós?
Comecei a rever para trás. O ano em que não fui ao médico a tempo porque o Rui tinha uma complicação e eu estava a tratar. As férias que não fiz porque faziam falta noutro sítio. O aquecimento que pus mais baixo do que precisava para poupar. O por se acaso que era sempre para outra pessoa.
O meu filho não é má pessoa. Não é. É que aprendeu desde pequeno que as minhas necessidades podiam ser adiadas. E fui eu quem lho ensinei, sem dar por isso, dizendo-lhe sempre que sim, estando sempre disponível, nunca me pondo eu em primeiro lugar.
Fui ao dentista em Janeiro.
Sentei-me naquela cadeira e pensei nos dois anos de caderneta. Em cada um daqueles cinquenta euros. No casaco e nos sapatos e nas fotos de boca fechada.
Quando saí da clínica parei um momento no passeio. Estava frio. Levantei a gola do casaco, esse que por fim me tinha comprado nos saldos, e fiquei ali um momento sem fazer nada.
Pela primeira vez em muito tempo, senti que tinha feito algo por mim.
Não foi euforia. Não foi nada grande. Foi apenas uma sensação tranquila e sólida de ter estado, por uma vez, no primeiro lugar da minha própria lista.
O Rui nunca me perguntou como tinha corrido no dentista.
Eu também não lhe contei.
Há coisas que já não preciso de partilhar com quem não soube perguntar.
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