15/12/2025
Clare Donovan tentou a ignição pela quarta vez. O resultado foi o mesmo: silêncio. Nem um engasgo, apenas o estalo morto de metal caro recusando-se a cooperar. Ela soltou um suspiro frustrado e saiu do carro, seus saltos agulha esmagando o cascalho no acostamento. A estrada na montanha se estendia infinitamente em ambas as direções — majestosa, isolada e, naquele momento, completamente inútil.
Ela verificou o celular. Uma barra de sinal, depois nenhuma, depois uma novamente. Uma provocação cruel.
— É claro — sussurrou ela para o vento frio. — De todos os dias, tinha que ser hoje.
A ironia não lhe escapou. Naquela manhã, ela havia ficado diante de quarenta executivos céticos e fechado um acordo de fusão multimilionário. Ela comandou aquela sala com confiança, precisão e autoridade inabalável. E agora? Agora ela era apenas uma mulher parada ao lado de um sedã de luxo que se recusava a ligar, no meio do nada.
Foi quando ela ouviu o ronco de um motor. Uma caminhonete antiga, com a pintura azul desbotada por anos de sol e trabalho pesado, encostou atrás do carro dela. A porta rangeu ao abrir e um homem desceu. Ele era alto, de ombros largos, vestindo uma camisa de flanela com as mangas dobradas revelando manchas de graxa e calças jeans que já tinham visto dias melhores. Seu rosto era curtido pelo tempo, mas havia uma gentileza nas linhas ao redor de seus olhos que sugeria que ele sorria com frequência.
Ele olhou para o carro dela, depois para ela, e inclinou a cabeça levemente.
— Problemas com o motor? — perguntou ele. A voz era grave e rouca.
Clare sentiu uma pontada no peito. Alívio, talvez, misturado com a cautela habitual de uma mulher sozinha na estrada.
— Não liga. Não faço ideia do que há de errado — respondeu ela, cruzando os braços para se proteger do frio.
— Se importa se eu der uma olhada?
Ela hesitou por apenas um segundo.
— Por favor.
Ele caminhou até o carro, movendo-se com a confiança tranquila de alguém que passou a vida trabalhando com as mãos. Ele abriu o capô sem perguntar, inclinando-se para inspecionar o motor. Clare recuou um passo, observando-o trabalhar.
Foi então que começou. Aquela sensação estranha e persistente no fundo de sua mente. Havia algo nele. Algo na curvatura dos ombros, na maneira como ele se concentrava. Parecia familiar.
— Quando foi a última vez que você verificou a bateria? — perguntou ele, sem levantar os olhos.
— Eu... não tenho certeza. Comprei este carro há apenas seis meses.
— Pode ser um terminal solto. Deixe-me ver se tenho algo na caminhonete.
Ele voltou ao veículo dele, vasculhou uma caixa de ferramentas na caçamba e retornou com uma chave inglesa. Clare observou suas mãos enquanto ele trabalhava: firmes, capazes, seguras de cada movimento. Havia algo na maneira como ele se portava que puxava uma memória que ela não conseguia alcançar.
— Sou Clare, a propósito — disse ela.
Ele olhou brevemente para cima, oferecendo um pequeno sorriso.
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