14/11/2025
🌑 A CURVA DO KM-23
Os caminhoneiros sempre contaram histórias sobre a curva do KM-23. Diziam que, à noite, a neblina ali era tão espessa que parecia viva, e que quem diminuísse demais a velocidade acabava ouvindo alguém chamando pelo nome.
Naquela madrugada gelada, o motorista Joel seguia sozinho pela estrada deserta. O rádio chiava, falhando como se tivesse algo tentando entrar na frequência. Ele ignorou… até ouvir nitidamente:
— Joel…
A voz era feminina. Baixa. Quase sussurrada.
Ele desligou o rádio, mas o sussurro continuou — agora dentro da cabine.
A névoa se adensou de repente, cobrindo tudo. Joel mal via um palmo à frente. Foi quando ele notou um vulto parado no acostamento. Uma mulher, magra demais, de vestido branco encharcado. O cabelo caía na frente do rosto.
Ela levantou a mão, pedindo carona.
Joel acelerou. Seu coração parecia martelar no peito. Pelo retrovisor, ele viu a mulher sumindo na névoa… até reaparecer na pista, bem à sua frente.
Ele freou com tudo.
O caminhão derrapou, girou e quase tombou, mas parou a centímetros dela.
A mulher lentamente levantou a cabeça. E Joel percebeu que aquele rosto… não tinha olhos. Apenas buracos escuros, profundos, brilhando como algo vivo dentro deles.
— Você voltou pra me buscar, né, Joel?
A voz veio de todos os lugares ao mesmo tempo — do rádio desligado, da cabine, de dentro do peito dele.
Ele tentou engatar a marcha, mas a porta do carona abriu sozinha, com um estalo seco.
A mulher entrou.
Sentou ao lado dele como se fosse dona do lugar.
Joel gelou. O ar ficou tão frio que sua respiração virou fumaça.
— Leve-me de volta pra casa… — ela sussurrou. — Você sabe onde f**a.
Ele não sabia. Mas sua mão começou a virar o volante sozinha, como se estivesse sendo guiada por algo preso aos seus ossos.
A cada quilômetro, o cheiro de terra molhada dentro da cabine aumentava. Umidade, podridão… como se alguém tivesse arrancado um corpo debaixo do chão.
Quando passaram novamente pela curva do KM-23, Joel percebeu que não estava sozinho no banco. A mulher agora segurava sua mão. E algo frio escorria pelos dedos dele… algo espesso, escuro.
Sangue.
Ele olhou para o banco.
Ela não estava mais lá.
Mas a mão dela continuava segurando a dele.
Grudada. Sem corpo.
Aquele foi o último registro do caminhão, captado pela câmera de uma guarita abandonada: o veículo entrando na neblina e sumindo para sempre.
Até hoje, quem passa pelo KM-23 diz que vê uma mulher na beira da estrada, pedindo carona…
E que, se você frear, ela agradece.
Mas, se acelerar…
Ela entra mesmo assim.