17/08/2026
A história da Igreja de São Benedito: de um ex-escravizado devoto ao patrimônio tombado de Poços de Caldas
A Igreja de São Benedito, em Poços de Caldas, é hoje reconhecida como patrimônio histórico e cultural do município. Mas antes de se tornar um bem tombado, sua história começou de um jeito muito mais simples — e muito mais humano: com a fé de um homem que havia sido escravizado e que atribuía a São Benedito a própria liberdade.
Uma devoção nascida na Fazenda Barreiro
Registros indicam que a Festa de São Benedito é celebrada desde 1904, quando a cidade ainda se chamava Freguesia da Nossa Senhora da Saúde das Águas de Caldas. Mas, segundo relatos de Caio Augusto Faria Lobato — bisneto do Coronel Agostinho Junqueira, falecido em 2016 —, as celebrações em honra ao santo já aconteciam antes disso, na Fazenda Barreiro.
No centro dessa história está Herculano Cintra, um homem escravizado que, como era comum na época, recebeu o sobrenome de seu proprietário. Devoto de São Benedito, Herculano atribuía ao santo sua alforria — a conquista da própria liberdade. Foi ele quem trouxe de Amparo, no interior de São Paulo, a primeira imagem do santo para a região que viria a se tornar Poços de Caldas.
Depois de alforriado, Herculano Cintra comprou uma chácara e, nessa nova fase de vida, conheceu Raimundo Mourão, outro homem que também havia sido escravizado. Juntos, buscaram apoio da família do Dr. Mário Mourão para viabilizar a realização da festa em honra ao santo — um gesto que uniria, décadas mais tarde, a devoção popular à estrutura de uma igreja construída pela comunidade.
A primeira capela e o crescimento da devoção
Em 1905, Herculano Cintra ergueu a primeira capela de São Benedito, com o auxílio de D. Herculana Mourão, mãe do Dr. Mário Mourão. Era uma construção pequena, pensada para atender a um grupo ainda reduzido de fiéis.
Com o passar dos anos, porém, a população devota cresceu — e a minúscula capela deixou de comportar as celebrações. Foi preciso pensar em uma construção maior. Com a aprovação de Dom Ranulfo da Silva Farias, então Bispo de Guaxupé, o Dr. Mário Mourão passou a coordenar as obras de uma nova igreja, sustentadas por doações dos fiéis de São Benedito e de famílias católicas da região.
O terreno onde a nova igreja seria erguida foi doado pelo Coronel Agostinho Junqueira, também devoto do santo. A construção contou com a colaboração de voluntários católicos, e foi concluída em 1926 — a igreja que existe até hoje.
Um símbolo para os Ternos de Congo e Caiapós
Mais do que um templo religioso, a Igreja de São Benedito se tornou, ao longo do século XX, um ponto de referência para manifestações culturais afro-brasileiras da cidade, com destaque para os Ternos de Congo e Caiapós, grupos que participam das celebrações em honra ao santo. A igreja também é ligada à Irmandade de São Benedito, fundada em 1914, e reúne forte valor afetivo tanto para a comunidade de devotos quanto para a comunidade católica de Poços de Caldas como um todo.
O reconhecimento oficial: bem imaterial e tombamento
Esse conjunto de fatores — a fé de um homem alforriado, a construção coletiva de uma igreja e mais de um século de celebrações ininterruptas — levou o poder público a reconhecer formalmente a importância histórica da tradição.
Em outubro de 2020, a Festa de São Benedito foi registrada pela Prefeitura de Poços de Caldas como bem imaterial do município. Pouco depois, em maio de 2021, a própria Igreja de São Benedito foi tombada pelo Patrimônio Histórico e Cultural da cidade — decisão que, segundo a administração municipal, reforça a preservação da festa, já que é dentro da igreja que suas principais manifestações culturais acontecem.
Com o tombamento, qualquer intervenção física no imóvel passou a depender de análise e aprovação do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Turístico de Poços de Caldas — uma garantia formal de que a construção erguida havia quase um século, a partir da fé de ex-escravizados e do apoio de famílias locais, seguirá de pé para as próximas gerações.
Nota para revisão editorial: os relatos sobre a origem da devoção (Herculano Cintra, Raimundo Mourão, celebrações na Fazenda Barreiro anteriores a 1904) baseiam-se em depoimento de descendente da família Junqueira e merecem, se possível, checagem complementar em fontes documentais ou junto à Irmandade de São Benedito antes da publicação final. As informações sobre o tombamento em si têm como base reportagem do G1 Sul de Minas (26/05/2021).