29/08/2026
O silêncio da minha casa é tão profundo que, juro, acabei de ouvir a gata bocejar, mesmo ela estando dormindo profundamente no deque.
Estar sozinha e com tédio transforma qualquer pessoa sã em uma investigadora do nada.
Primeiro, tentei a clássica autossabotagem de abrir o armário de cinco em cinco minutos. É uma esperança mística, como se no intervalo entre uma checada e outra ele tivesse se autoabastecido com uma caixa de chocolate. Nada. Apenas a metade de um pacote de bolacha e outros alimentos que exigem uma chama do fogão acesa. Todos me encarando com a mesma melancolia que sinto na alma.
Resolvi, então, maratonar os cômodos. Descobri que a varanda está repleta de folhas e pó devido esse vento disgramado de agosto. Que raiva, tudo estava limpo pela manhã.
Estou assando, literalmente, aqui dentro, pois se eu abrir as portas e janelas, as ingratas folhas vão invadir o que resta de limpo. Que belo entretenimento eu tenho para um sábado, à tarde.
Para tentar mudar o clima, abri as redes sociais. Grande erro. Só aparecem vídeos de tragédias e eu estou de "s**o cheio" de bloquear. Enquanto isso, eu estou aqui, de pijama furado, cogitando seriamente dar um nome à uma planta só para ter com quem conversar. Acho que vai ser "Gisela". Gisela parece uma boa ouvinte.
O tédio tem dessas coisas: ele te faz lembrar de coisas que você não quer, uma delas é saber que não consigo gravar as letras das músicas, muito menos o nome delas.
Olho para o relógio. Passaram-se apenas sete minutos desde a última vez que olhei. Bom, Gisela, parece que a tarde vai ser longa.
do dia 29/08/26
Jele Cabral Jele Cabral II