26/09/2025
Vocês já ouviram falar sobre "anacronismo hermenêutico" e "falácia genética" - com relação ao vocábulo "satan"?
O leitor moderno, ao ler na Biblia o termo “Satanás”, não pensa em um "opositor" ou "acusador", como no texto original - e tenta compreendê-lo dentro da própria narrativa -, mas imediatamente em um ente cósmico de poder maligno, um anjo rebelde que caiu do céu. Trata-se de um claro exemplo do que eu chamo de anacronismo hermenêutico: aplicar ao texto antigo conceitos que nasceram séculos depois.
De forma oposta, o renomado historiador americano chamado Jeffrey Burton Russell (1991, p. 35), sobre como entender melhor a origem dos conceitos, observa:
“Acredito que um conceito não é melhor compreendido à luz de suas origens, mas sim à luz da direção na qual a tradição se move (...) Essa abordagem é uma inversão do pressuposto que dominou a erudição religiosa cristã, e muitas outras, por longo tempo, caracterizado pela ‘falácia genética’ de que o verdadeiro significado de uma palavra – ou de uma ideia – está em seu estado original”. (aspas do autor).
À primeira vista, pode parecer um argumento neutro, mas, aplicado à interpretação bíblica, revela-se perigoso. Se aceitarmos que o sentido de um termo — como Satan — deve ser definido apenas pelo desenvolvimento da tradição e não por seu significado original no hebraico, abrimos espaço para uma deturpação sistemática: o que era originalmente um simples “adversário” ou “acusador” torna-se uma entidade cósmica do mal, legitimada apenas porque a tradição que se moveu na história o consolidou dessa forma.
Assim, Russel, sem perceber, justifica o que chamei acima de anacronismo hermenêutico: aplicar conceitos posteriores a textos antigos e apresentar essa leitura como se fosse autoritativa e de acordo com uma tradição.
O resultado é sem dúvidas, uma tradição que se perpetua sobre bases frágeis, criando dogmas a partir de equívocos linguísticos e históricos. Este tipo de acusação – de que se estaria incorrendo em uma “falácia genética” – é o que, demonstramos ser exatamente o contrário.
Para Russell (1991, p. 173): “O fato de não estar o Diabo plenamente desenvolvido no Velho Testamento não é motivo para a rejeição de sua existência na moderna teologia judaica ou cristã”.
Digo o contrário: justamente o fato de “o Diabo” (com letra maiúscula, como Russell grafou) não estar plenamente desenvolvido nas Escrituras hebraicas é o motivo central para a rejeição de sua existência como ser pessoal.
O que encontramos – reitero - é apenas um termo funcional (satan), aplicado a diversas classes de seres, que designa um papel ou função momentânea, e não uma entidade metafísica.
Obs.:
*** A imagem 1, mostra uma mulher que viveu em 1665 segurando uma camera fotografica, como exemplo classico de "anacronismo".
*** A imagem 2 representa de forma simbólica o anacronismo hermenêutico no texto.
O livro aberto simboliza o texto, o relógio remete ao tempo histórico em que o texto foi escrito e o ponto de interrogação mostra a dúvida ou problema interpretativo que surge quando se tenta compreender aquele texto. A combinação desses elementos sugere que, quando interpretamos um texto fora do seu contexto temporal (trazendo ideias modernas para dentro de uma escrita antiga, por exemplo), corremos o risco de produzir anacronismo — isto é, forçar sentidos que o autor original não poderia ter tido em mente.
👉 Este é um trecho da obra que será publicada em breve sobre a não existencia de Satanás como ser pessoal!
Teologia Radical