26/04/2019
Amanhã, a partir das 19h, na Blooks Livraria, Marcus André Vieira conversa com o escritor Caio Meira e com a Diretora de Biblioteca da Escola Brasileira de Psicanálise, Andrea Vilanova, sobre seu livro recém lançado, “A escrita do silêncio (voz e letra em uma análise)”. Para aquecer, deixamos aqui um pequeno trecho do livro. Nos vemos lá!
“Para fazer a parede do recalque falar, é preciso alguém – o analista – que já teve a experiência do encontro com seu próprio recalcado, para sustentar a aposta de que as paredes falam. É preciso ter sido ou ainda ser analisante para poder, para outros, ser analista; para apostar nos sons que não ouvimos, até que se ouçam.
Parece coisa mágica, mas não é. Como primeira aproximação, talvez ajude o modo como Chico Buarque encontra mensagens sonoras em meio ao silêncio de uma montanha, Morro Dois Irmãos:
'Dois Irmãos, quando vai alta a madrugada e a teus pés vêm se encostar os instrumentos...
Aprendi a respeitar tua prumada e desconfiar do teu silêncio'.
Sim, quando se frequentou bastante o silêncio da pedra, pode-se ouvi-lo falar. Nesse caso, a experiência muito carioca, da zona sul, a de viver ao pé de uma montanha rochosa, conta. Imagino Chico chegando em casa, tarde da noite, e, da janela, perdendo seu olhar no enorme paredão rochoso à sua frente, ainda mais enorme no silêncio da madrugada, que transporta magnif**amente para seus versos:
'Penso ouvir a pulsação atravessada / Do que foi e o que será noutra existência / É assim como se o ritmo do nada / Fosse, sim, todos os ritmos por dentro / Ou, então, como uma música parada / Sobre uma montanha em movimento'.
A diferença entre Chico Buarque e o analista é que este não será um cantador do silêncio de nosso recalque. Será, ele próprio, a montanha. Terá que aceitar, para começar, esse papel, o de um Outro que nada quer especif**amente, a não ser estar ali.
É uma forma de alteridade muito especial, dessa apenas-presença, sem corpo, que se apresenta em análise. Não é coisa de outro mundo. Já se insinua, por exemplo, na presença silenciosa do companheiro desconhecido no elevador. Não há ninguém, mas há. Lacan a chamou de “a presença do Outro”, definindo-a como “anterior a tudo que possa elaborar ou compreender”. É o Outro-montanha, em seu aspecto mais esvaziado de sentido, mas, por isso mesmo, mais intenso em sua insondável realidade.
Nada mostra como essa montanha nos fará ouvir os sons do recalque. É porque parece, ainda, que o recalque é coisa de mesa de edição, e que o recalcado é uma invenção poética. O recalque, como ponto de surdez necessário para que se possa ouvir, na polifonia do mundo, alguma melodia, inscreve-se no corpo, nos acidentes da vida, coisas acontecidas e não de outro mundo”.
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