16/05/2025
Em pleno 2025, com as praias de Balneário Camboriú disputando palmo a palmo a areia com os arranha-céus e os jetskis, eis que ecoa, entre uma sessão e outra da Câmara Municipal, uma pérola de sabedoria histórica vinda diretamente do túnel do tempo (com destino errado): Jair Renan Bolsonaro, vereador e herdeiro do clã que redefiniu o conceito de política familiar, declarou que a ditadura militar foi “a melhor época do Brasil” — ao menos para os mais velhos.
Vejamos, antes de mais nada, que essa afirmação carrega uma sofisticação quase aristotélica. O jovem vereador, conhecido por sua vivência profunda com videogames, lives e, digamos, investigações breves da Polícia Federal, resolveu oferecer uma aula de história com base no testemunho de pessoas mais velhas. Afinal, como sabemos, a verdade histórica no Brasil é melhor obtida no churrasco de domingo com o tio do pavê do que em qualquer biblioteca pública.
Jair Renan, carinhosamente apelidado de 04 — um número que, se fosse um meme, representaria aquele amigo que sempre fala bobagem no grupo do WhatsApp —, acredita piamente que um período de censura, tortura, perseguição política, sumiços misteriosos e presidentes de farda foi, veja bem, uma espécie de “época de ouro”, talvez como aquela fase boa da infância que a gente romantiza porque não pagava boleto.
O mais curioso — ou tragicômico — é que Jair Renan nasceu em 1998, ou seja, 13 anos depois do fim da ditadura. Isso equivale a um vegano nato dizendo que a melhor picanha é a de 1970. Não provou, não cheirou, mas defende com garbo, porque “me contaram que era bom”. Imaginar o 04 falando de 1964 é como ver alguém nascido em Marte opinando sobre a Revolução Francesa com base em TikTok.
É claro que, para quem tem o privilégio de nunca ter sido perseguido, preso, exilado ou calado, a ditadura pode parecer uma época interessante. Havia menos corrupção (só que escondida), menos criminalidade (porque não se podia noticiar), e tudo era mais “organizado” (desde que você obedecesse e se calasse). Era o Brasil onde só podia ser feliz quem não dava trabalho: branco, homem, rico, hétero, de preferência com um crucifixo no peito e um general na sala.
Mas voltemos ao 04, nosso vereador. Não é de se espantar que ele valorize um período autoritário. Afinal, o sonho de consumo de muita gente que cresceu sem limites é justamente um regime onde o limite vem de cima, na base do coturno. É a fantasia de quem nunca levou “não” e agora acha que democracia é sinônimo de bagunça.
E, sejamos justos: Balneário Camboriú é mesmo o cenário perfeito para uma distopia à la anos 70. Prédios gigantescos que fazem sombra no mar (como os generais faziam sombra nas urnas), carros de luxo disputando vagas com ambulantes invisibilizados, e uma elite que suspira pelos "bons tempos" em que pobre era invisível, mulher calada, e política era coisa de farda. Só faltava mesmo um vereador que confundisse regime militar com resort all-inclusive.
O mais triste, porém, não é o vereador em si — ele é só mais um reflexo da política-espetáculo, do mandato-Instagram, da retórica de mesa de bar elevada à tribuna. O problema real é a plateia que aplaude. É a nostalgia pela mordaça, o desejo secreto de que a democracia seja seletiva, para “alguns”, não para “todos”. É o Brasil que prefere a fábula da ordem à realidade do debate, que troca liberdade por conforto, e história por boato.
A fala de Jair Renan deveria causar riso, mas infelizmente causa calafrio. Porque por trás da piada mal contada, há um desejo bem sério: o de reescrever o passado para moldar o futuro — e isso, sim, é perigoso. É o mesmo impulso que leva a tirar livros das escolas, calar professores e transformar torturador em herói nacional. É a versão 5G da ignorância, agora com Wi-Fi e assessor parlamentar.
Enfim, quando o herdeiro do “mito” diz que a ditadura foi “a melhor época”, talvez devêssemos responder com a mesma ironia que a democracia nos permite: claro, foi mesmo ótimo — para quem mandava. Para os outros, houve ap***s silêncio, medo e cova rasa.
Mas, como diria o velho ditado brasileiro: “quem não viveu, que não opine”. E quem vive da política deveria, no mínimo, respeitar quem sofreu com ela.
Ou, no caso de Balneário Camboriú, talvez seja melhor deixar o vereador fazer o que faz de melhor: nada — desde que em silêncio.