24/08/2026
Talvez a gente tenha se acostumado demais com a ideia de que tudo aquilo que é profundo precisa ser sério. Como se consciência viesse sempre acompanhada de alguma solenidade, como se amadurecer espiritualmente signif**asse abandonar a espontaneidade, o prazer, a curiosidade, a brincadeira e até uma certa capacidade de não levar a nós mesmos tão a sério o tempo inteiro.
Mas basta observar a própria vida para perceber o quanto ela acontece também pelo jogo. A criança aprende brincando, experimentando, inventando possibilidades. O adulto continua fazendo isso, embora dê outros nomes. A gente testa caminhos, cria hipóteses, muda de ideia, improvisa diante do que não saiu como esperado, conhece pessoas que alteram completamente o rumo da história e toma decisões sem ter qualquer garantia de onde elas vão dar. Existe muito mais improviso na nossa existência do que gostamos de admitir.
Talvez por isso eu goste tanto de pensar a espiritualidade também como uma experiência lúdica. Não no sentido de banalizá-la ou transformar tudo em brincadeira, mas de recuperar a liberdade de experimentar nossa relação com o sagrado. Acender uma vela porque deu vontade, conversar com um guia no meio do trânsito, tirar uma carta e f**ar pensando nela enquanto faz café, dançar durante um ritual, rir de alguma situação enquanto conversa com Deus. Criar seus próprios gestos de fé, fazer perguntas estranhas, mudar de interpretação, descobrir que uma prática que fazia sentido há cinco anos já não diz muita coisa hoje.
Existe uma liberdade enorme quando a espiritualidade deixa de ser uma prova que precisamos acertar.