24/06/2025
Muito mais do que um artista exótico ou um dândi, Ney Matogrosso é uma das figuras mais singulares da música e da cultura brasileiras. Ícone de transgressão estética e afetiva, Ney construiu uma trajetória que rompeu com padrões de masculinidade, de gênero, de performance e de linguagem artística. O filme Homem com H, dirigido por Esmir Filho, se propõe a investigar não apenas a figura pública, mas os bastidores subjetivos da construção desse artista que ainda hoje desafia rótulos.
A obra aborda a juventude e os bastidores da formação do artista que revolucionou os palcos brasileiros, mas não se limita ao espetáculo. O filme mergulha em sua intimidade: os afetos, as feridas, os desejos e as dores que o moldaram. Jesuíta Barbosa interpreta Ney com intensidade e entrega, sem recorrer à imitação. Em vez disso, constrói uma presença que reverbera a essência do artista, num registro que alterna força e vulnerabilidade.
O filme mostra um Ney que não se submete à lógica da posse. Em um de seus momentos marcantes, o cantor afirma que Cazuza nunca foi seu ex porque nunca foi seu, porque o amor, para ele, não é posse. Essa frase ecoa a liberdade com que viveu suas relações, inclusive com o próprio Cazuza, com quem teve uma conexão amorosa e artística intensa, embora conturbada. O filme não romantiza: mostra o rompimento causado pelo envolvimento de Cazuza com as dr**as e as cicatrizes e vínculos que ficaram.
Outro núcleo sensível da narrativa envolve o companheiro de Ney nos anos 1990, que viveu ao seu lado até ser levado pela AIDS. A relação é mostrada com delicadeza, em contraste com a explosividade da vivência com Cazuza. Em ambos os casos, o amor é apresentado em sua dimensão humana, generosa e real.O filme trata esse processo com dignidade, mostrando, novamente, uma relação amorosa sem aprisionamento, mas com responsabilidade afetiva.
"Homem com H" é um retrato da formação de um corpo político-artístico em movimento. Fala de uma pessoa que jamais se permitiu enquadrar e que fez da arte sua trincheira e seu refúgio. Um artista que, a cada vez que sobe ao palco, reafirma sua liberdade -- algo que ele nunca aceitou negociar.