05/05/2026
Hoje, a Inês faria anos. 5 de Maio de 2004 é talvez a data mais marcante na vida da minha família - certamente, da minha vida. Para quem me acompanha há menos tempo, a minha irmã Inês nasceu com paralisia cerebral, com 98% de incapacidade, em 2004. A minha vida existe no antes e depois da Inês, nunca porque a Inês tinha uma deficiência, mas por tudo o que trouxe com ela. Um mundo que vive meio escondido do dia-a-dia das outras pessoas.
Sinto sempre que repito as mesmas palavras, mas são as que conheço e as que chegam mais perto da imensidão que a Inês foi e é em mim: sou quem sou por causa dela. Aprendi que existe, sim, amor incondicional. Aprendi a amar e a ser amada sem ouvir uma palavra do outro lado.
A linguagem é mais do que expressão verbal, e a Inês trouxe com ela todas as expressões de amor.
Talvez seja difícil compreender que, quando a Inês nos deixou, em vez de uma grande tristeza, senti um orgulho imenso. Deram-lhe uns meses; ficou connosco 18 anos - um privilégio.
Éramos quatro filhos e sinto que seremos sempre. O amor que sinto pelo meu irmão e pelas minhas irmãs é maior do que aquele que se aprende nos filmes. Os meus pais foram os super-heróis da Inês, e os meus irmãos foram os meus. Porque existem dinâmicas familiares que vão além da expectativa tradicional, que requerem uma adaptação monstruosa, que destroem e constroem famílias.
E eu devo quase tudo à Inês. Hoje era - e é - o dia dela.
5 de Maio é, para sempre, o dia do ano que representa acordar noutra vida, ainda que na mesma. E talvez nada disto faça sentido para quem me lê, a menos que tenha passado por algo semelhante. Mas tudo isto me faz sentido, porque trago a Inês na pele, no peito, na vida, para sempre.
You don't need to look out for us from above ✨ You already did more than enough.