05/08/2026
Poder da desinformação que levou milhares de migrantes a atravessar a fronteira a nado em Ceuta?
Link de um jovem a nado para Ceuta https://www.facebook.com/share/r/1BvMsiTYyG/
"A fronteira está aberta", "já não podem devolver quem chegar a Ceuta pelo mar" ou "basta atravessar a nado e entras em Espanha". Foi com estas e outras mensagens que várias contas encheram o TikTok, o Instagram, o Facebook e grupos de WhatsApp dias antes da crise migratória.
Os vídeos que circulavam nas redes sociais 'vendiam' a ideia de uma oportunidade única: bastava chegar a Ceuta pelo mar para poder ficar em Espanha. Em poucas horas, essa narrativa espalhou-se de telemóvel em telemóvel e transformou-se numa corrida desesperada à fronteira.
Quando uma mentira chega primeiro do que a verdade
Em Ceuta, a fronteira nunca chegou a estar aberta. O que realmente se abriu foi um enorme espaço para a desinformação.
Bastaram vários vídeos, uma decisão judicial mal interpretada e milhares de partilhas para convencer dezenas de milhares de pessoas de que 'uma vida melhor' estava à distância de alguns quilómetros a nado. Para muitos, essa promessa terminou em deportação, para outros não passou do mar.
Os vídeos que convenceram milhares de pessoas
Antes de milhares de pessoas se lançarem ao mar, vídeos curtos inundaram as redes sociais com a mesma mensagem: a fronteira estava “aberta”.
As publicações mostravam jovens a caminhar pelas ruas de Ceuta depois de conseguirem fugir de Marrocos, enquanto outros celebravam a chegada às praias da cidade. Para quem assistia do outro lado da fronteira, aquelas imagens pareciam confirmar que entrar em Espanha era mais simples do que nunca.
As imagens, porém, eram apresentadas de forma manipulada. Mostravam apenas o momento da chegada e eram acompanhadas por mensagens que faziam acreditar que bastava alcançar Ceuta para ficar em Espanha, escondendo a realidade que muitos encontrariam pouco depois.
Além disso, a informação não se limitava a incentivar a viagem. Muitos dos vídeos incluíam mapas com os percursos mais utilizados, indicavam os locais que seriam menos vigiados e explicavam por onde contornar o espigão da fronteira de Tarajal.
Em vários grupos das redes sociais surgiram até anúncios de venda de equipamento de mergulho, boias e sacos impermeáveis para proteger documentos e telemóveis durante a travessia, descreve o El País.
Em apenas 48 horas, milhares de pessoas concentraram-se na fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, muitas delas convencidas de que poderiam entrar em Espanha e permanecer no país. A corrida inesperada levou a uma das maiores crises migratórias dos últimos anos no sul da Europa, com cerca de 60 mil pessoas a tentar atravessar a fronteira, sobrecarregando rapidamente uma cidade com pouco mais de 80 mil habitantes.
Para Ayoub El Abyad, um jovem marroquino de 16 anos, bastou ver vários vídeos no Instagram que mostravam migrantes a atravessar o mar em direção a Ceuta para decidir tentar a sua sorte. Ele e o primo, ainda a cerca de 12 horas de carro da fronteira, acabaram por concordar em fazer a viagem.