30/08/2026
ANNA JOYCE NA BEIRA, UMA NOITE QUE PROMETIA SONHO E TERMINOU EM PESADELO
Antes de falar do que correu mal, quero começar pelo que considero justo, quando se fala de cultura e entretenimento na Beira, há que reconhecer o trabalho de Nicolas “Duas Bolas”, da Nova Era. Organizar grandes espectáculos nesta cidade não é tarefa para qualquer um. Muitos já tentaram, alguns cansaram-se, outros desapareceram pelo caminho. Nicolas continua. E isso merece reconhecimento.
Mas reconhecer o mérito de alguém não significa fechar os olhos quando alguma coisa corre mal. E, desta vez, na minha experiência, correu muito mal.
Falo do espectáculo de Anna Joyce e Edmázia Mayembe, no campo da Escola Samora Machel na Beira, uma noite que prometia ser memorável. Anna Joyce e Edmázia cantam sobre amor, traição, relações complicadas e aquelas dores sentimentais que fazem muita mulher ouvir uma música e dizer, “Esta foi escrita para mim.” Aliás, a própria Anna Joyce brincou, já em palco, dizendo que naquela noite faria as mulheres sofrer através das suas músicas. O problema é que, quando Anna Joyce começou a cantar, a organização já nos tinha feito sofrer há muitas horas.
O evento estava anunciado no cartaz para começar às 15 horas. O primeiro artista subiu ao palco por volta da meia-noite.
Sim. Meia-noite.
Das 15h00 à meia-noite foram praticamente nove horas. Aquilo já não era atraso. Era retiro espiritual.
Eu nem sequer tinha grandes planos de ir ao concerto. Fui, como muitos homens vão nestas situações, a reboque das donas. Mas pensei: já que vou, vou bem. Ainda tinha na memória a experiência do espectáculo de Anselmo Ralph e decidi caprichar.
Comprei VVIP.
Cinco mil meticais por pessoa. Éramos dois. Dez mil meticais. Quase 200 dólares.
Na minha cabeça de cidadão inocente, VVIP significava uma experiência diferenciada, boa localização, algum conforto, lounge, atendimento especial, talvez buffet e aqueles pequenos cuidados que nos ajudam a aceitar, com dignidade, que acabámos de gastar cinco mil meticais num bilhete.
E confesso uma coisa: fui com fome.
Grande erro.
Mal entrámos na área, fomos informados de que não havia lugares. Perguntámos pelos lounges. Disseram-nos que eram para patrocinadores e parceiros. Perguntámos então onde poderíamos ficar.
“Lá no fundo.”
Eu, ainda cheio de esperança, pensei: “Deve ser lá onde está o buffet.”
Fomos.
Buffet?
Nada.
Lá no fundo havia basicamente frio, escuridão, deserto e abandono. Até o som parecia ter desistido de chegar ali.
Voltámos e perguntámos se podíamos ocupar algumas mesas que estavam no centro.
“Não podem. Estão reservadas.”
Foi nesse momento que comecei a perceber que o meu VVIP estava lentamente a transformar-se em VVIProblema.
Com fome, frio e a paciência a pedir demissão, procurei Nicolas e expliquei a situação. A resposta que recebi foi que poderíamos pagar cerca de 40 mil meticais para ocupar um determinado lounge.
Não respondi.
Sorri.
Há momentos em que a vida nos ensina que discutir também gasta energia. E eu precisava de guardar a pouca que ainda tinha para sobreviver até Anna Joyce subir ao palco.
Pouco depois, eu e outros compradores de VVIP estávamos a fazer uma espécie de migração silenciosa para a zona VIP normal. E foi aí que caiu a ficha e compreendi uma das maiores ironias da noite, quem tinha pago menos parecia estar melhor do que nós. E era verdade.
Mas a maratona estava apenas a começar.
Os artistas foram entrando. Playback atrás de playback. Alguns estiveram bem. Outros...
Meus irmãos...
Se existisse uma Polícia Nacional da Música, naquela madrugada teria havido detenções.
Porque houve notas musicais que foram agredidas sem possibilidade de defesa. (risos)
Ainda assim, destaco Filomena Maricoa e Hot Blaze, que, na minha opinião, poderiam ter dado muito mais se as condições técnicas fossem melhores e houvesse menos dependência do playback. Edmázia Mayembe também esteve muito bem.
Depois começou a grande espera por Anna Joyce.
Mas antes dela tivemos outro protagonista da noite:
o corte de energia.
A luz ia. Voltava. Ia novamente. Houve um momento, antes da entrada de Anna Joyce, em que ficámos cerca de 30 minutos sem energia. Começou uma chuva miúda e algumas pessoas já abandonavam o recinto. Outras continuavam firmes porque, depois de esperar tantas horas, desistir naquele momento seria quase admitir derrota.
Anna Joyce acabou por subir ao palco por volta das 3h30 da manhã.
Três e meia.
A essa hora, há pessoas que já estão a acordar para ir trabalhar.
A própria artista explicou que, devido à hora e às condições em que se encontrava, já não conseguiria garantir as duas horas inicialmente previstas. Durante a actuação, tentou várias vezes recuperar a voz e chegou a pedir desculpas ao público pelas dificuldades que estavam a acontecer.
E aqui faço questão de reconhecer, Anna Joyce teve humildade. Percebeu que o público não estava a receber exactamente aquilo que esperava e falou sobre isso.
Mas ainda faltava outro capítulo.
As casas de banho. Mo Deujo!
Aí terminou a comédia.
O cenário que encontrei foi, para mim, muito triste. Casas de banho moveis muito, mas muito sujas, algumas praticamente sem condições de utilização e com um cheiro difícil de suportar. Para alem da encomenda que alguns deixaram la sem conseguir enviar ao destinatário. Num espetáculo com muita gente e que se prolonga por tantas horas, uma casa de banho em condições não é luxo. É o mínimo.
Como consequência, homens e mulheres começaram a procurar árvores, cantos e zonas junto à vedação para satisfazer necessidades fisiológicas. Para muitas mulheres, a situação tornou-se constrangedora, sobretudo pela falta total de privacidade. Algumas, já sem alternativa, acabavam por se aliviar em locais improvisados, enquanto certos homens, numa atitude lamentável e sem qualquer respeito, permaneciam por perto a observar a intimidade de quem apenas tentava resolver uma necessidade básica.
Aquilo não precisava de chegar a esse ponto.
Os vendedores também tiveram a sua batalha. Com os cortes de energia, alguns tiveram dificuldades para trabalhar e servir os clientes. Eu fiz um pedido de comida por volta da meia-noite. Recebi aproximadamente às 2h30.
Duas horas e meia depois.
Quando a comida chegou, já não sabia se estava a jantar, a tomar pequeno-almoço ou a preparar o almoço do dia seguinte.
E poderia continuar.
Na minha percepção, o som esteve abaixo daquilo que um espectáculo desta dimensão exigia. As telas apagavam-se, nalguns momentos havia atraso na imagem, o atendimento em alguns sectores demonstrava falta de preparação, faltava informação para orientar o público e o horário simplesmente deixou de existir.
Foram, como dizemos por cá, maningue cenas.
Mas quero terminar exactamente como comecei.
Este texto não é para destruir Nicolas “Duas Bolas”. Também não é para desencorajar a Nova Era ou qualquer pessoa que investe na cultura da Beira. Pelo contrário. Eu reconheço o que Nicolas já fez, os bons eventos que já realizou e a coragem de continuar a trazer grandes artistas para a nossa cidade.
Mas justamente porque sabemos que consegue fazer melhor, também precisamos dizer quando ficou muito abaixo das expectativas.
Na minha experiência, este espectáculo esteve muito abaixo daquilo que foi prometido e, sobretudo, daquilo que foi cobrado ao público VVIP.
Quem pagou 5.000 meticais não estava apenas a comprar o direito de entrar no recinto. Estava a comprar uma experiência diferenciada.
E essa experiência, pelo menos para mim, não aconteceu.
Por isso, considero que a organização deveria ter a grandeza de apresentar um pedido público de desculpas e encontrar uma forma de compensar os clientes que adquiriram bilhetes VVIP. Na minha opinião, até um reembolso parcial de 50% seria um gesto de respeito para com quem pagou por uma determinada experiência e acabou por receber condições muito diferentes.
Isso não diminuiria a Nova Era.
Pelo contrário.
Mostraria responsabilidade. Mostraria respeito pelo público. E mostraria que os grandes promotores também sabem reconhecer quando alguma coisa falha.
Da mesma forma, precisamos apostar cada vez mais em artistas que consigam defender um espectáculo verdadeiramente ao vivo. Moçambique tem vozes excelentes. Temos talento. Temos artistas capazes de subir ao palco e fazer o público sentir que cada metical pago valeu a pena.
Também podemos aprender com quem faz melhor. Acompanhei imagens e relatos do espectáculo da mesma Anna Joyce em Maputo e vi uma organização visual, palco, sequência de artistas e alinhamento que mostravam que é possível fazer diferente.
A Beira também merece isso.
Nós gostamos de festa. Gostamos de música. Gostamos de receber grandes artistas. Queremos que os promotores continuem a investir na nossa cidade.
Mas queremos também respeito por quem compra o bilhete.
Luís Taiado