20/06/2026
# # # Efigênia
Part 2
Ajoelhei no chão. A rua estava vazia. Respirei fundo, peguei o pão com as duas mãos e soprei pra tirar a poeira.
A minha mão já estava no pão quando ouvi a porta ranger de novo.
Levantei a cara rápido, com vergonha. Pensei que era pra me mandar embora.
Mas era a dona da padaria. Sem avental, sem pressa. Na mão dela tinha um s**o de papel pardo.
Ela não olhou pro lixo. Olhou pro José. Olhou pro meu olho fechado. E eu vi que os olhos dela estavam cheios de água.
"Levanta do chão, filha", ela disse baixinho. "Pão do lixo não. Pão da casa sim."
Abriu o s**o. Tirou dois pães quentes, um sumo de caixa e uma banana. Pôs tudo no meu colo.
"Eu tenho um filho também", ela sussurrou. "Se fosse ele... eu queria que alguém abrisse a porta."
Eu não consegui falar. Agradeço entala na garganta quando a dor é grande demais. Só peguei na mão dela e beijei.
Ela fechou a porta de novo. Mas dessa vez, não fechou na minha cara. Fechou pra eu comer em paz.
Voltei pra esquina com o pão quente embrulhado no s**o. O s**o da padaria cheirava melhor que perfume.
O José viu o s**o e os olhinhos dele acenderam. Pela primeira vez desde que chegamos em Maputo, ele bateu palminha. Sem pedir. Só de alegria.
Sentei no mesmo lugar de ontem. No mesmo papelão que era a minha cama. Mas hoje o chão estava menos frio. Ou talvez fosse o pão que aquecia por dentro.
Parti o pão no meio. Metade pra ele, metade pra mim. Mastigamos devagar. Cada migalha parecia milagre.
"Nhami, mamã", ele disse, com a boca cheia. Migalha caiu no meu colo. Eu guardei no bolso. Mãe guarda tudo do filho. Até migalha.
Enquanto ele comia, eu olhava pra avenida. Os carros passavam. As pessoas passavam. Mas agora eu não via só portas fechadas. Eu tinha visto uma porta abrir.
Maputo ainda era difícil. Mas Maputo também era aquela dona.
E se uma porta abriu hoje, quem disse que amanhã não abrem duas? .Mas a noite chega sempre.
Eu e meu filho, de novo ao relento.
Eu não pedi futuro emprestado. Eu não queria depender da mão de ninguém.
Queria dar a ele um tecto, uma cama, um nome que não fosse "aquele menino da rua".
Mas, infelizmente...
infelizmente Maputo não pergunta se tu tá pronta.
Naquela noite o vento entrou mais forte. O papelão voou. O s**o da padaria rasgou.
O José tremia no meu peito. Eu abri a minha blusa e fiz ele de coberta. Mãe vira casa quando não tem casa.
Olhei pro céu. Não tinha estrela. Só nuvem preta e poste aceso lá longe.
E eu pensei: Deus, se futuro é emprestado, me empresta só até o José crescer. Depois eu devolvo com juros. Juro
O José não parava de tremer. A febre subiu rápido, como se o frio da rua entrasse por dentro dele.
Passei a mão na testa dele. Quente. Passei no meu peito. Frio.
"Meu filho não, meu Deus", eu sussurrei. Mas Deus parecia longe. E Maputo parecia mais longe ainda.
Abracei ele mais forte. Balancei devagar, como fazia em Xaixai quando a mãe dele cantava pra dormir. Só que eu não lembrava da letra. Só lembrava da dor.
As pessoas passavam na avenida. Carro. Chapa. Gente com s**ola de supermercado. Ninguém olhou.
Uma mulher parou no semáforo, dentro do carro, vidro fechado. Olhou pra nós 2 segundos. Depois acelerou quando abriu o verde.
Naqueles 2 segundos eu pedi com os olhos: "Me ajuda". Ela não viu. Ou fingiu que não viu.
O José tossiu. Uma tosse seca, pequena. Que mãe conhece. Tosse de hospital. Tosse que não tem dinheiro pra curar.
Apertei ele no peito e fechei o olho bom. Se eu não visse o mundo, o mundo também não me via sofrer.
Fechei o olho bom. E quando fechei, Xaixai apareceu inteira.
Vi o quintal da minha mãe. O chão de terra batida. A mangueira que eu subia pra fugir das surras. O balde de água fresca que a minha avó deixava debaixo da árvore.
Em Xaixai eu tinha medo de escuro. Aqui em Maputo eu aprendi a ter medo de gente.
Lembrei da voz da minha mãe: "Filha, Maputo é cidade grande. Cidade grande engole quem é pequeno".
Eu não ouvi. Eu tinha 17 anos e a cabeça cheia de sonho. Pensei: eu vou trabalhar, vou alugar casa, vou dar escola pro meu filho.
Engoli seco. O José tossiu de novo no meu peito.
Maputo não engoliu eu. Maputo engoliu o meu sonho primeiro. E agora tava mastigando o meu filho devagar.
Abri o olho bom. Olhei pra avenida vazia e pensei pela primeira vez:
Será que errei? Será que devia ter f**ado em Xaixai, mesmo passando fome, mas pelo menos com tecto?Será que devia ter f**ado em Xaixai...
A ideia bateu forte no meu peito. Voltar. Pegar no José e voltar pra casa da minha mãe.
Pelo menos lá tinha esteira no chão. Tinha arroz com peixe quando a maré trazia. Tinha colo de mãe pra dividir o medo.
Apertei o José mais contra mim. "Vamos voltar, meu filho. Mamã errou. Mamã te leva pra casa."
Mas quando disse "casa", a palavra ficou presa na garganta.
Porque pra voltar pra casa... precisa de bilhete.
Passei a mão no bolso do vestido. Só encontrei migalha de pão, pó, e um fio solto.
Nada. Nem 5 meticais. Nem pra xapa até a baixa.
Xaixai ficou longe. Não era só de estrada. Ficou longe de dinheiro. Longe de escolha.
Maputo me prendeu sem corrente. Me prendeu com bolso vazio.
Deitei a cara no cabelo do José e chorei baixinho. Pra ele não ouvir.
"Perdoa a mamã, meu filho. Mamã quer te levar pra casa... mas a mamã não tem como."Chorei até o peito doer. Até a madrugada cansar de mim.
Quando o céu ficou cinza, o José ainda queimava no meu colo. A febre não deu trégua.
Amanheceu de nove. Maputo acordou barulhenta, como se nada tivesse acontecido na rua.
Eu levantei devagar. As pernas tremiam. O José gemia baixo, com a boca seca.
10 meticais na mão. José queimando no meu colo.
Eu não sabia onde f**ava hospital. Só sabia que tinha que chegar.
Aproximei de um senhor de fato, que esperava chapa na paragem.
"Senhor, me desculpa. Meu filho Gil tá com muita febre. Me ajuda só pra levar ele no hospital? Eu pago depois, juro."
O senhor olhou o José . Olhou pra mim. Ajeitou a gravata e disse:
"Hospital é lá na baixa, minha filha. Chapa é 20 meticais. Eu também vivo do meu salário."
Entrou na chapa e fechou o vidro.
O sol subia. O José f**ava mais mole no meu colo. A boca dele rachava.
Segurei ele com as duas mãos e gritei, sem querer, pra rua toda:
"Alguém me ajuda a levar meu filho pro hospital, por favor! Ele vai morrer na minha mão!"
Minha voz saiu rouca. De mãe. De animal ferido.
Uma senhora que vendia tomate parou a banca. Olhou. Pegou um pano molhado, encostou na testa do Gil e disse só:
"Segue comigo. Hospital Central f**a a 3 quarteirões. Vamos a pé."
quarteirões a pé. O sol já mordia a nuca. O pano da senhora do tomate secou 2 vezes no caminho.
Chegamos na porta do Hospital Central. Gente entrando, gente saindo. Cheiro de álcool e medo.
A senhora me largou ali: "Deus te ajude, filha. Eu tenho que voltar pra banca".
E foi embora. Me deixou com o José no colo e a porta grande na frente.
Entrei. A sala de espera tava cheia. Gente no chão, gente na cadeira, gente gemendo.
Fui até a senhora da recepção. Ela nem olhou pra minha cara. Carimbava papel.
"Boa dia, senhora. Meu filho tá com febre muito alta. Ele precisa de médico, por favor."
Ela suspirou, empurrou um papel sujo e uma caneta sem tinta:
"Preenche a ficha. Depois vai pra triagem. E precisa de bilhete de identidade e 50 meticais pra ficha."
Bilhete eu não tinha. 50 meticais eu não tinha.
Só tinha José . Só tinha medo. Só tinha colo.
Olhei pro papel. Olhei pro Jose que já não abria o olho direito. Olhei pra fila que não andava.
E entendi: na porta do hospital também tem porteiro. E porteiro pede documento que pobre não tem.As pernas amoleceram. O papel caiu no chão. A caneta rolou.
O José ficou mole de vez no meu colo. Tão mole que meu sangue gelou.
"José? Jose meu filho?" Balancei ele. Ele não respondeu. A boca ficou aberta, seca.
Continua…