05/11/2025
PEDI DEMISSÃO SEM TER UM PLANO B
CAPÍTULO I - Segunda-feira eterna
O despertador tocou às 6h30, mas Camila já estava acordada.
Na verdade, nem dormira como deve ser.
O som do trânsito misturava-se ao barulho da cafeteira, o ritual de todas as manhãs antes de enfrentar o escritório.
No espelho, viu o rosto cansado e o cabelo preso num coque apressado.
“Pareces bem”, mentiu para si mesma.
Vestiu a camisa bege de sempre, calças pretas, sapatos confortáveis.
Olhou o relógio: 7h05. Ainda dava tempo para engolir o pão e o café antes do engarrafamento.
No caminho, repetia mentalmente as tarefas do dia: organizar notas fiscais, rever relatórios, atender chamadas do chefe.
A mesma lista de sempre.
O mesmo filme de segunda a sexta.
Chegou ao escritório às 8h em ponto.
O guarda acenou com aquele sorriso protocolar, e ela respondeu de volta com o mesmo sorriso automático.
No corredor, ouviu a voz do chefe antes mesmo de o ver.
— Camila! Preciso daqueles relatórios pra ontem!
“Ontem”, pensou. “Ele adora essa palavra.”
Respirou fundo, sentou-se e começou a digitar.
O escritório era um aquário: luz branca, cadeiras gastas e colegas que falavam mais de novelas do que de sonhos.
Paula, da contabilidade, comentou:
— Menina, o chefe está impossível hoje. Diz que ninguém presta.
Camila sorriu sem graça.
“Pois é”, respondeu, enquanto o e-mail do próprio chefe chegava com o assunto em letras maiúsculas: URGENTE.
O dia passou arrastado.
À hora do almoço, ela comeu sozinha na copa, olhando pra o telemóvel.
Renato, o namorado, tinha enviado mensagem:
“Não esquece de pagar a factura de água.”
“E vê se chegas cedo hoje.”
Nenhum “bom dia”. Nenhum “como está ser o dia”.
Ela bloqueou o ecrã, suspirou e olhou à volta.
Ninguém ali parecia feliz, só conformado.
Às 17h25, já com tudo pronto para sair, o chefe apareceu com uma pilha de folhas.
— Camila, refaz esse relatório. Está incompleto.
— Mas senhor Jorge, são 17h30…
— Pois, mas o cliente precisa amanhã cedo.
Ela olhou o relógio, pensou em dizer não… mas sentou-se de novo.
Enquanto os outros iam embora, ela ficou.
Reescreveu, imprimiu, arquivou.
Saiu às 21h.
O prédio já estava escuro, e o som dos seus próprios passos ecoava no corredor vazio.
No carro, o rádio tocava uma música antiga sobre recomeços.
Camila encostou a cabeça no volante e deixou as lágrimas virem.
Não era raiva, era cansaço.
Um cansaço que não se cura com um fim de semana.
“Será que é isto que vou repetir pelos próximos dez anos?”, pensou.
Chegou a casa e Renato estava no sofá, a ver televisão.
— Até que enfim — disse, sem desviar o olhar. — Estou com muita fome!
Ela respondeu com um “já trato disso” e foi directo pra o banho.
A água quente escorria e, pela primeira vez, ela sussurrou uma frase que nem sabia se acreditava:
“Preciso sair daqui.”
Era só um pensamento solto, ainda tímido.
Mas naquela noite, algo dentro dela começou a se mover.
continua…