09/01/2026
À MERCÊ DA MORAL DE TRUMP
A chamada ordem mundial baseada em regras já andava moribunda; a prisão de Nicolás Maduro pelos EUA em Caracas, no meio da noite, meteu-lhe o último prego no caixão.
Não só pelo ato em si, mas também pela retórica de que a operação mostra o poderio militar sem paralelo dos EUA e serve de aviso a outros líderes que atuem contra os interesses americanos. É, além disso, a expressão de uma visão expansionista, expressa na doutrina Monroe, usada no passado para justificar intervenções americanas na América Latina e, 100 anos depois, rebatizada DMonroe, para reivindicar um suposto direito dos EUA sobre o destino da região, onde nas últimas décadas cresceu, e muito, a influência chinesa.
Da Venezuela, o discurso passou rapidamente para ameaças à Colômbia, Cuba e México e atravessou o Atlântico até à Gronelândia, com o pressuposto de que a segurança nacional, vertida recentemente numa nova estratégia, é justificação bastante para a intervenção americana.
Os EUA foram o principal garantidor dos valores morais do Ocidente – da defesa dos direitos humanos à democracia liberal – no pós-Segunda Guerra. Agora, só há um limite ao seu poder global, segundo Donald Trump: "A minha própria moralidade. A minha própria consciência. É a única coisa que me pode parar", respondeu ao The New York Times. "Eu não preciso do direito internacional. Não tenciono magoar as pessoas", acrescentou.
Há casos suficientes para duvidar das virtudes morais de Trump, mas também é um facto que há falcões dentro da sua administração bem mais perigosos.
O presidente dos EUA não está sozinho neste jogo do ‘quero, posso e mando’. Vladimir Putin e Xi Jinping poderão reclamar com mais vigor a sua própria área de influência. O primeiro as antigas repúblicas soviéticas, o segundo Taiwan. Sobretudo na Ásia, há o risco de um conflito com os interesses americanos.
Para a Europa, além do que Putin poderá fazer, há a ameaça existencial que uma ocupação da Gronelândia significaria para a NATO. A Casa Branca oscila entre uma intervenção militar ou pagar pelo território, que além da localização estratégica é rico nas terras raras que fazem falta aos EUA.
O tema dos recursos é crítico no expansionismo americano e nos cálculos morais de Trump. Se a Venezuela não albergasse as maiores reservas de petróleo do mundo, Nicolás Maduro ainda hoje estaria sentado no Palácio de Miraflores. Sendo certo que, para os venezuelanos, é uma boa notícia já lá não estar.
André Verissímo | ECO