Planeta Sammy

Planeta Sammy Bem-vindos ao Planeta Sammy: um cantinho mágico onde a parentalidade de uma criança neurodivergente é vivida com afeto, humor, verdade e descobertas diárias.

Em Portugal temos um decreto-lei para a educação inclusiva de fazer inveja a outros países, daquele países bem mais dese...
13/08/2026

Em Portugal temos um decreto-lei para a educação inclusiva de fazer inveja a outros países, daquele países bem mais desenvolvidos. Isto foi me dito por quem percebe da poda. O nosso Decreto-lei nº54/2018 é elogiado por esta Europa acima.

Então pergunto: porque é que não funciona? Porque é que saiu hoje no Público uma notícia que informava que há crianças NEE's sem vagas nas escolas? O que é que está a falhar?

Um dos comentários de uma senhora a essa notícia era o seguinte: "Vamos deixar nos de tangas. Todos sabemos que a inclusão não existe. O estado devia criar escolas especiais,com professores de ensino especial, com auxiliares com formação,com currículos adaptados a estas crianças onde eles realmente estivessem seguros e pudessem aprender e não atira los para o meio da selva que é uma escola pública atualmente onde não têm professores de ensino especial,não têm auxiliares e só lá estão a passar tempo".

Ora, isto que a senhora propõe não é inclusão. Chama-se segregação. Para quê utilizar recursos públicos a construir "escolas especiais", como ela disse, em vez de os investir naquilo que realmente interessa que é: implementar de forma efetiva e eficiente aquilo que é LEI, e que, por sinal, na teoria, está muito bem feito?!

E eu, leiga e ignorante, vou dizer-vos porque é que não funciona. 3 motivos: falta de meios, falta de formação e, o pior de todos, falta de vontade! Sim, FALTA DE VONTADE! Porque, convenhamos, não raras vezes, os agrupamentos de escolas estão se pouco cagando (pardon my french) para a inclusão, para as crianças NEE's e para as família. E não me venham dar uma de advogados de defesa. Isto é verdade. Para os agrupamentos as crianças são números, matrículas, processos. Vemos isto com cada vez mais frequência.

Eles querem lá saber se uma turma de 25 prejudica a criança, eles querem lá saber se a criança está ou não a aprender, eles querem lá saber se o que acontece na escola impacta a criança de forma negativa fora dela. Se na escola não dá trabalho, está ótimo para eles, quanto menos trabalho tiverem, melhor.

Por isso, peço mais uma vez desculpa pelo meu "francês", mas metam as "escolas especiais" no c*zinho. Trate-se antes de arranjar formas de implementar o que manda a lei.

"Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas."  Mateus 10...
17/07/2026

"Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas." Mateus 10, 16-23

As últimas semanas não têm sido fáceis. E não estou a falar do Sammy. Estou a falar de esquemas, manhas, chantagens feitas nas entrelinhas por um sistema velho, viciado e ardiloso.

Mas não vou falar disso. Não hoje. Hoje quero agradecer a algumas pessoas muito especiais na vida do meu filho e, por consequência e não só, na minha também. Quero falar-vos do ATL que o Sammy frequenta e dos anjos que lá trabalham. E não vai ser fácil acabar de escrever este texto sem que as lágrimas comecem a cair.

O Bem vive naquele Centro Social e Paroquial. E o Bem que nos fazem é tanto e tão imenso que eu tenho dificuldade em saber por onde começar. Talvez comece por vos contar uma pequena troca de palavras que ilustra a generosidade e empatia daquelas pessoas.

Na passada quinta-feira, o ATL teve uma atividade no exterior. Essa atividade decorreu durante o dia todo e, por essa razão, atendendo às necessidades atuais do Sammy decidimos que ele não ia. Nessa dia mais tarde, numa troca de mensagens com a coordenadora do Centro, ela disse: "Eu percebo as tuas preocupações, mas deixa-o vir connosco para a próxima. Nós falamos tanto nele, porque ele ia adorar! Eu entendo-te, mas pensa com carinho e para a próxima deixa-o vir connosco". No dia seguinte quando fui levá-lo à praia de manhã, uma das colaboradoras disse-me: "Tens que o deixar vir connosco para a próxima, a sério. Ele ia delirar! Ele connosco está bem." E a verdade é que está bem mesmo!

Ouvir isto delas aconchegou-me o coração de tal maneira que só me apeteceu ter uma máquina do tempo para voltar atrás e deixá-lo ir com elas! Porque o Sammy é realmente muito feliz naquele lugar e quem faz o lugar são as pessoas.

Isto é apenas um pequeno exemplo do Amor que existe naquele Centro. Elas conhecem o meu filho, sabem quais são as obsessões dele, as manias, as estereotipias, a ecolalia, palavras estranhas que ele diz, coisas engraçadas que ele faz, o que ele gosta de comer, o que ele não gosta de comer, o que gosta de fazer, o que não gosta de fazer. Elas conhecem-no. A ele e a todas as crianças que acolhem lá, todas com a mesma ternura.

Para vocês, minhas queridas, a palavra "obrigada" soa a pouco! Ter-se-ia que inventar uma outra palavra na Língua Portuguesa para vos agradecer como merecem. Mas não havendo outra: obrigada! Obrigada pelo vosso empenho, pela vossa dedicação, por se darem ao trabalho que querer conhecer, por se envolverem e por não serem um muro contra o qual nos esbarramos, como tantas outras instituições e sim uma ponte. Obrigada por tornarem este Planeta mais bonito! 💜

Queridas mães e queridos pais,Entendo como se devem estar a sentir agora que receberam o diagnóstico do vosso filho. Tal...
11/07/2026

Queridas mães e queridos pais,

Entendo como se devem estar a sentir agora que receberam o diagnóstico do vosso filho. Talvez pior ainda se o vosso filho anda em terapias, se já é seguido em pedopsiquiatria ou pediatria do desenvolvimento e ainda não há diagnóstico, porque, neste caso, a incerteza é inimiga da paz.

Escrevo esta carta na esperança que ela vos ajude, vos informe e vos empodere. Pouco tempo depois de iniciarmos a nossa jornada atípica, tivemos a benção de ter duas amigas que, tendo passado pelo mesmo processo há uns anos, acolheram a nossa dor, validaram os nossos sentimentos e muniram-nos de informação sobre tudo o que podemos fazer para ajudar e defender o nosso filho e sobre todas vicissitudes que poderiam surgir. E é o que espero que esta carta seja para vocês, uma carta amiga.

Hoje quero falar-vos de duas equipas fundamentais na intervenção precoce: a ELI e a EMAEI. Estas duas equipas são independentes, porém pode e deve existir articulação entre ambas. Deixo claro, no entanto, que a atuação de uma não invalida nem depende da atuação da outra.

A ELI é um órgão multidisciplinar regulado pelo SNIPI (Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância) cuja missão é prestar apoio integrado a crianças entre os 0 e os 6 anos de idade com alterações nas funções ou estruturas do corpo ou em risco de atraso no desenvolvimento.

A EMAEI (Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva) é um órgão de apoio à direção da escola, instituído pelo Descreto-lei nº54/2018. Decreto este que vos aconselho a ler e a estudar muito bem. O objectivo da EMAEI é identificar as barreiras à aprendizagem de cada aluno e propor as medidas de suporte necessárias para garantir o acesso a uma educação inclusiva e de sucesso para todos.

Reitero o seguinte: embora possa e deva haver articulação entre elas, elas não são mutuamente exclusivas e os nossos filhos têm o direito a receber o apoio de ambas!

Caras mães, caros pais, conhecimento é poder e nós, nesta jornada, vamos ser muitas vezes os advogados dos nossos filhos. A referenciação para ambas as equipas pode ser feita pelos professores/educadores e por nós, pais, também. Por isso, independentemente do que, muitas vezes, os agrupamentos vos queiram tentar impingir, não tenham medo de questionar, não tenham medo de pedir esclarecimentos e não tenham medo de exigir. Informem-se. Conheçam os direitos do vosso filho e os vossos direitos enquanto encarregados de educação.

A jornada é longa e a inclusão não acontece porque a lei obriga. A inclusão acontece quando todos nós a abraçamos. É um compromisso diário e colectivo. Infelizmente nem todos os profissionais designados a proteger, a apoiar, a cuidar dos nossos filhos honrarão essa missão. Esquivam-se nas esquinas das leis, sonegam informação e alimentam-se da falta de conhecimento dos pais.

Por isso vos digo, caríssimos pais, queridos "colegas" da jornada atípica, empoderem-se. Não se encolham perante ninguém e vão à luta. Nós por cá continuamos.

Nada. Que eu saiba. Mas agora que tenho a vossa atenção, já posso ir direta ao assunto que me traz aqui.O Sammy tem 4 an...
30/06/2026

Nada. Que eu saiba. Mas agora que tenho a vossa atenção, já posso ir direta ao assunto que me traz aqui.

O Sammy tem 4 anos. Isso significa que restam-lhe apenas 2 anos de fofura. Aos vossos olhos, claro. Para mim ele vai continuar a ser tão fofo como um mocho bebé de olhos gigantes. Mas a partir dos 6, o mundo vai exigindo cada vez mais e tolerando cada vez menos. Deixa de haver espaço e paciência para as crises, as frustrações, as necessidades específicas de cada criança.

"És como os outros, tens que comer". "Devias ter vergonha, já és grande". "Tens que fazer como os outros". Mais um monte de baboseiras proferidas por bocas ignorantes. Umas bem intencionadas, outras nem por isso. É como se a entrada no primeiro ciclo fosse o início-ício-ício da entrada na vida adulta. Os pais, os professores, os catequistas, a sociedade em geral, parece esquecer-se do que é ser criança.

Isto preocupa-me muito porque no caso de crianças autistas esta falta de tolerância, por vezes, ainda é maior. Porque se não há muita tolerância para crianças neurotípicas que não se comportam como mini-adultos, como é que há tolerância para crianças neurodivergentes que, muitas vezes, nem sequer se comportam como crianças neurotípicas?

E podeis dizer o que quiseres, que não é bem assim (é bem assim, é), que não é toda a gente assim (mas é muita), não me importa. Eu tenho medo, sim, e tenho razões para isso. Só não me tira o sono ainda, porque faltam 2 anos. Mas TODOS os dias, eu ouço ou leio histórias de crianças NEE maltratadas nas escolas. Todos os dias, estas crianças habitam o meu pensamento. Nem sempre estes abusos são aquilo que, normalmente, consideraríamos abusos. Mas todos começam da mesma maneira: ignorância, falta de respeito pela criança e falta de vontade de conhecer mais.

É por isso que mantenho este Planeta Sammy. Sou apenas uma gotinha neste oceano. Mas se as minhas palavras ajudarem alguém a perceber melhor o autismo, a ter mais empatia e compaixão, já terei contribuído minimamente para uma mudança que urge no que concerne à aceitação e inclusão.

O desconhecimento não me incomoda. Incomoda-me sim, e muito, o "não sei, nem quero saber".

Ontem foi a festa de final de ano lectivo e não foi um momento fácil para o Sammy. E para nós também não. Ao contrário d...
27/06/2026

Ontem foi a festa de final de ano lectivo e não foi um momento fácil para o Sammy. E para nós também não.

Ao contrário do que aconteceu na festinha de Natal, em que o Sammy ficou no ATL até à hora da festa e depois deu um show, ontem foi diferente. Ontem a minha mãe foi buscar o Sammy depois de almoço para tentar que ele dormisse a sesta (sem sucesso) e regressou à escola ao final do dia para a festa. E isso mudou tudo.

O Sammy sabia que ia à festa, sabia que ia cantar com os meninos, entrou na escola feliz, foi com a "sua" C. feliz para a sua sala antes de começar a festa, mas no meio de tudo isto algo surgiu nele: "Onde está a minha vovó? Porque é que ela me veio trazer à escola? Porque é que vim para a escola a esta hora?" E não, o Sammy não tem esta fluência verbal nem de pensamento, julgo eu, mas o que ele sente no corpo e no seu pequeno cérebro não mente e eu, a mãe que o pariu, soube, assim que o vi subir ao palco de mão dada com a educadora, que ele não estava bem, apesar de não estar a chorar.

Houve uma espécie de vitória. O Sammy dançou e cantou um bocadinho apesar do desconforto. E no fim da atuação, em vez de se ir sentar com os outros meninos, a educadora trouxe-o até nós, e ser-lhe-ei sempre grata por tê-lo feito. Já no nosso colo não conteve mais a emoção, estava triste. Tudo passou quando viu as suas vovós. Ainda assistiu um pouco às atuações dos outros meninos. Mas o plafond dele é curto e logo começou a correr e a fugir. Não por estar em crise, mas porque o movimento o ajuda a regular-se. De qualquer maneira, acabámos por ir embora muito antes da festa terminar.

E esta é uma das partes desafiantes enquanto pais, às vezes. Nem sempre é tudo preto no branco. Ás vezes a linha é ténue entre o saber se devemos ficar ou se devemos nos retirar. É claro que gostávamos de ter ficado, gostávamos de ter convivido com outros pais, alguns amigos, gostávamos de ter visto o Sammy a brincar com as outras crianças (não ia acontecer, mas era o que gostávamos). Mas temos sempre que nos perguntar: Vale a pena? Qual é o custo de ficar? Quer para o o nosso filho, quer para nós. Como pais estamos constantemente a avaliar e antecipar tudo, tudo, tudo. Desde aquilo que pode ser um gatilho para um meltdown até às mil e uma maneiras de o Sammy se pôr em risco, porque este menino é como o Simba, ele ri-se face ao perigo. E acreditem, basta mesmo só um piscar de olhos nosso para ele estar a correr em direção a um carro na estrada ou, como aconteceu ontem na festa, um fogareiro aceso.

Quem me conhece, sabe que eu sou fã do "Vamos lá". Acho sempre que devemos experimentar ir a sítios que não seriam, à partida, "autism friendly", porque quero que ele conheça mundo, quero que ele experiencie novas vivências além daquilo que ele gosta muito e das rotinas e rituais habituais. Mas também sou a primeira a dizer "Já chega, vamos." antes que a tempestade chegue. Nem sempre é possível. Às vezes a tempestade começa abruptamente. Noutras, conseguimos ver os relâmpagos antes de começar a chover e aí sabemos: "É hora de ir embora." E está tudo certo. Porque os nossos desejos e as nossas expectativas ajustam-se e a única coisa que realmente importa é que o Sammy esteja bem, seguro, regulado e, sempre que possível, feliz.

Amo-te mais que tudo, chonézinho! 🧡

- disse nunca ninguém no mundo. Porquê? Porque é estúpido.Então, porque é que não consideras estúpido dizer o mesmo sobr...
17/06/2026

- disse nunca ninguém no mundo. Porquê? Porque é estúpido.
Então, porque é que não consideras estúpido dizer o mesmo sobre o autismo ou PHDA?

"Ah porque eu também sou super distraído, Titaaaaa!", dizes tu. "E eu também sou um bocado antissocial!", diz outro. "Eu quando era criança também fazia birras! Todas as crianças fazem!". Dizem vocês com essa vozinha irritante que eu estou a imaginar na minha cabeça. A mim, às vezes, também me dói a barriga e isso não significa que tenha uma apendicite.

Se em vez disto, vocês disserem: "todos temos traços que se assemelham a traços de autismo ou PHDA", aí eu diria que sim. Talvez não "todos", mas muita gente. Mas quantos desses traços tens? Com que frequência se manifestam? Com que intensidade? E, mais importante, quanto do teu quotidiano, da tua funcionalidade é afetado por esses traços? Que prejuízo real tens na tua vida devido a esses traços? Se nem sequer sabes responder (porque funcionas tão "normalmente" que nem te apercebes), então provavelmente não, não tens um bocadinho de autismo nem un petit peu de PHDA. Tens uma ou outra característica que se assemelha a estas perturbações do desenvolvimento. Por isso, da mesma maneira que não temos todos um bocadinho de psoríase só porque temos umas comichões de vez em quando, não temos todos um bocadinho de PHDA porque somos distraídos, não temos todos um bocadinho de autismo porque gostamos de fazer coleções de selos, não temos todos um bocadinho de TOD porque somos teimosos que nem burros.

Neurodiversidade é diferente de neurodivergência. A neurodiversidade é a riqueza coletiva de todos os cérebros humanos existentes, enquanto a neurodivergência é a característica do indivíduo cujo cérebro funciona de forma diferente da maioria. Façamos uma analogia com, let's say, pizzas. A neurodiversidade é a pizzaria inteira, a maior pizzaria do mundo. Tem lá todas as pizzas, para todos os gostos: marguerita, pizza com pepperoni, ananás e fiambre, atum, frango, pizza de 4 queijos, até, imaginem só, pizzas vegan, etc, etc... Aqui tem todas as pizzas, pizzas para todos. A neurodiversidade é esta pizzaria. A neurodivergência é uma pizza de molho de tomate azul-néon que flutua e sabe a mousse de pipocas.

Ai... Perceberam? Aprendam para não andarem por aí a dizer disparates! 😘

A primeira vez que li algo sobre o stress das mães atípicas ser comparado ao de soldados em combate foi há alguns anos e...
11/06/2026

A primeira vez que li algo sobre o stress das mães atípicas ser comparado ao de soldados em combate foi há alguns anos e desconfiei. Achei que era um exagero, que não havia estudo nenhum, que um id**ta qualquer tinha inventado isto. Até sentir na pele o que é a maternidade atípica... E então fui pesquisar. E não é que existe mesmo? É um estudo da investigadora Marsha Mailik Seltzer da Universidade de Wisconsin-Madison. E então deixo-vos o resumo dos resumos: esta pesquisa descobriu que as mães atípicas tinham níveis de cortisol extremamente baixos e "achatados" ao longo do dia. Na medicina, esse padrão biológico de cortisol baixo não significa falta de stress, mas sim o oposto: é o resíduo fisiológico de um esgotamento crónico severo, exatamente o mesmo perfil hormonal encontrado em soldados em combate ativo, veteranos de guerra e pessoas com Perturbação de Stress Pós-Traumático.

Mas o significa isto de as mães atípicas terem o mesmo perfil hormonal que os soldados em combate?
Significa acordar cansada. Significa viver em estado de alerta, all the fu***ng time, que o corpo não distingue uma segunda-feira normal de uma situação emergente. Significa nunca descansar porque o cérebro está sempre vigilante a antecipar a próxima crise, a próxima sessão de terapia, a próxima consulta, a próxima ida ao parque o próximo isto ou aquilo... Significa habituar-se a funcionar em modo sobrevivência de tal maneira que a sobrevivência passa a parecer o normal.

Por fora, estas mães podem parecer fortes, organizadas, competentes, resilientes, "guerreiras", como gostam de lhes dizer. Por dentro, porém, só Deus sabe como basta uma brisa passar para desmoronar. Não por serem fracas. Mas porque ninguém foi concebido para estar em hipervigilância ALL THE FU***NG TIME. E quando finalmente dizem que estão exaustas, já não falam apenas de cansaço, falam de um corpo que aprendeu a viver como se estivesse em guerra.

Talvez seja esta a parte mais cruel da maternidade atípica: a solidão. Até podemos ter uma boa rede de apoio, amigos fantásticos, um marido maravilhoso, mas ninguém entende tão bem uma mãe atípica como outra mãe atípica.

Joana e Paula, dedico-vos este. Obrigada por tudo! 🧡

Claro que fomos ver as ventoinhas do Brincar é Coisa Séria! E quero deixar aqui os meus parabéns a todas as crianças e p...
01/06/2026

Claro que fomos ver as ventoinhas do Brincar é Coisa Séria! E quero deixar aqui os meus parabéns a todas as crianças e pais que participaram, sendo que nós não nos integramos nesse grupo.

Posto isto, venho fazer um apelo aos educadores de infância, municípios e agrupamentos, uma vez que uma grande parte das iniciativas das quais vou falar são promovidas por estas entidades. E nada contra, atenção! 😜

Caros diretores de agrupamentos, vereadores e educadores de infância de crianças neurodivergentes cujos pais são também, possivelmente, neurodivergentes (cof cof),

Venho por este meio (e logo por aqui já percebem que este post é para ser lido com bom humor) fazer-vos um sério apelo: por favor, não mandem trabalhos manuais para os putos fazerem em casa!! Rogo-vos!

É que vocês não estão bem a perceber o inferno que é, é depois de um dia inteiro de escola, terapias, crises, cumprir rituais atrás de rituais ter que fazer "trabalhinhos" com uma criança que está a c@gar para isso (e na verdade, nós também). A sério, não estou a exagerar! A nossa vida já é intensa demais, exaustiva demais, caótica demais para andarmos nestas engenharias e bricolages. Não dá!!

Acredito que para algumas crianças neurodivergentes isto até possa ser agradável ou até mesmo um hiperfoco. Não é o nosso caso. Não é, não. Para nós não é um momento agradável e relaxante em família que promove a vinculação e rebéubéu pardais ao ninho. Para nós trabalhos manuais é sinónimo de sofrimento atroz, um milhão de agulhas espetadas no cérebro.

"Ah e tal, mas é importante a família envolver-se com a comunidade escolar e participar nas iniciativas"! Está bem!!! Mas mandem-nos fazer outras merd@s, carai! Eh pá, mandem-nos fazer um bolo saudável na Bimby ou aprender uma canção. Mandem-nos compor uma ária, encenar o "Hamlet" ou declamar todos os cantos d'"Os Lusíadas", tudo menos trabalhos manuais, por favor! 😩

E perdoem-nos por não participarmos, mas, por enquanto, vamos continuar assim. Já mandei a culpa ir dar uma volta ao bilhar grande e tudo!

Mas parabéns pela iniciativa! Continuem a fazer e tudo e tudo! Só vão ter que esperar um bocadinho mais pela nossa participação.

Os últimos dois dias não foram fáceis... Talvez mais para mim do que para ele. Sim, esta mãe também entra em crise... Pe...
20/05/2026

Os últimos dois dias não foram fáceis... Talvez mais para mim do que para ele. Sim, esta mãe também entra em crise... Pedi a Deus, como peço muitas vezes, que me ajudasse a ser a mãe que ele precisa.

E hoje foi a vez dele. Ao final do dia, cedeu. Uma avalanche de frustração que aquele corpo pequenino não consegue aguentar e o cérebro não consegue processar. Choro, gritos, tentativas de nos bater, de partir coisas, de fugir...

E Deus ouviu a prece desta mãe. O primeiro ímpeto é querer resolver. Parar a crise. Acabar com o sofrimento do nosso menino. Mas há coisas pelas quais os nossos filhos, sejam típicos ou atípicos, vão ter que passar e nós não podemos fazer nada a não ser dar-lhes a nossa presença e o nosso amor. E é muito isto que acontece quando vemos o nosso filho autista em crise. Primeiro passo: protegê-lo. Segundo passo: proteger-nos. Terceiro passo: ser a calma no meio da tempestade. Apenas estar. Apenas amar.

Passado algum tempo, o corpo começa a pedir conexão e descanso. Os gritos param. E o choro passa a um lamento silencioso entre soluços e ainda algumas lágrimas. Damos colinho. Sabemos que a crise está a passar, quando num abraço de co***lo o próprio Sammy começa a dar-nos palmadinhas nas costas. Permanecemos assim, num colinho, num abraço, entre miminhos e ternuras. E eis que algo me disse: "Canta." E da boca saiu-me o mais bonito dos mantras, Gayatri. Ele afastou-se para olhar para mim, encostou-se outra vez e adormeceu.

Deixei-me ficar com ele no colo um pouco mais e agradeci a Deus pelo meu Samuel.

Ele é "livre como as aves e passa a vida a cantar. Coração que nasce livre não se pode acorrentar." O mundo dele é simpl...
06/05/2026

Ele é "livre como as aves e passa a vida a cantar. Coração que nasce livre não se pode acorrentar."

O mundo dele é simples. O nosso é que complica. O mundo dele é curiosidade, fantasia e aventura. São ventoinhas a girar, cortinas a bailar, chuva a cair, água a pingar, um balão a voar. É rir com verdade, correr sem medo. É saltar e abanar as mãos porque a vida, gigante, quer ir além do corpo.

Ele é a minha inspiração mais visceral, mais terna, mais mágica. Admiro-o. Aprecio o quanto ele me ensina. Agradeço ter lhe dado a vida. Amo-o além do tempo e do espaço.

Samuel, meu Amor.

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