04/09/2026
Ainda bem que já tenho espaço para escrever um pouco mais. Confesso que tive alguma influência na decisão do Rui, mas isso agora são contas de outro rosário. Vamos ao assunto de hoje.
Como escrevi, estive de férias em Cabo Verde. Ora, como cerca de 80% dos portugueses, também fui de avião e também fui para o estrangeiro. Só que eu passei um bocadinho ao lado daquele turismo de massas, porque estive na remota ilha do Fogo, onde até o ar parece ter respeito por nós. É uma ilha onde a natureza manda e o turista percebe rapidamente que não vale a pena discutir com ela.
Mas tive dois dias no Sal.
E foi aí que comecei a questionar algumas coisas.
Então, afinal, as pessoas não vão de férias para descansar?
Eu julgava que férias era chegar ao hotel, pousar as malas, estender o corpo numa espreguiçadeira e f**ar ali num estado próximo da hibernação. Se possível, com alguém a trazer uma bebida de vez em quando para evitar que tivéssemos de fazer movimentos desnecessários.
Mas não.
De repente começa a música.
E eu ouço qualquer coisa do género:
“Mete a mão na cabecinha… agora na perninha…”
E olho à minha volta.
Está toda a gente a dançar!
Pensei: “Mas esta gente veio para descansar ou veio fazer uma audição para o Dança com as Estrelas?”
Há pessoas que passaram o ano inteiro sentadas numa secretária, oito horas por dia, a dizer que estão cansadas. Depois chegam a Cabo Verde e, mal ouvem a primeira música, começam a mexer a cabeça, os braços, as pernas e, se for preciso, até aquilo que já não mexiam desde 2019.
E eu ali, perplexo, a pensar: eu vim descansar!
Depois percebi outra coisa: aquilo não é música de férias. É música de resistência.
A mesma música que se ouve no mercado, na feira da terra, na festa da aldeia e provavelmente na coluna Bluetooth do senhor que vende bifanas junto à estrada.
Mas o turista ouve aquilo no resort e pensa: “Que ambiente fantástico!”
Claro que é fantástico. Se a mesma música passasse numa festa cá em Portugal, provavelmente alguém dizia:
— Ó homem, baixe lá isso que amanhã trabalho!
Em férias, porém, parece que há uma regra: se estiveres sentado mais de cinco minutos, alguém considera que estás doente.
A animação começa de manhã, continua ao almoço, reaparece à tarde e, quando pensamos que finalmente chegou a hora de descansar, lá vem outra música.
Mete a mão na cabecinha.
Eu já estava a pensar meter a mão na cabeça, mas por outro motivo.
E comecei a perceber o negócio dos operadores turísticos.
Aquilo é uma máquina muito bem oleada: comida, bebida, música, atividades, dança, jogos, excursões, mais música, mais comida e, quando o turista finalmente chega ao quarto, já não tem forças nem para se queixar.
E provavelmente é esse o segredo.
Porque o português gosta.
Aliás, o português gosta muito daquela palavra mágica: “tudo incluído”.
Dizem-nos “tudo incluído” e nós nem perguntamos o que é o tudo.
Pode ser buffet, bebidas, animação, dança, hidroginástica, tiro ao alvo, voleibol, zumba, karaoke ou uma senhora a ensinar-nos a fazer uma coisa qualquer com uma toalha.
É tudo incluído? Então venha.
E há ainda outra razão: f**a barato.
Muito barato.
E o português perante uma coisa barata perde imediatamente a capacidade de fazer perguntas.
“Quanto custa?”
“É 700 euros.”
“E é tudo incluído?”
“Sim.”
“Então vamos!”
Depois chega ao destino e descobre que o “tudo incluído” incluía precisamente tudo aquilo de que ele queria fugir.
Mas não interessa.
Às oito da manhã já está a fazer hidroginástica.
Às dez está a jogar voleibol.
Ao meio-dia está a dançar.
Às três está a participar num concurso.
Às cinco está outra vez a dançar.
Às oito está a jantar.
Às dez está no espetáculo.
E à meia-noite, exausto, olha para a mulher e diz:
— Amanhã é que vamos descansar.
No dia seguinte, às nove da manhã:
“Bom diaaaa! Está na hora da aquagym!”
E lá vai ele.
Eu, entretanto, continuo a defender a minha teoria de férias: quanto menos atividade, melhor.
Se numa semana de férias alguém me perguntar:
— O que fizeste hoje?
A resposta ideal é:
— Nada.
E se insistir:
— E ontem?
— Também nada.
Isso, meus amigos, é consistência.
Porque férias não deviam ser uma competição para ver quem consegue chegar mais cansado ao aeroporto de regresso.
Mas talvez eu esteja errado.
Talvez o verdadeiro descanso do português seja pagar para alguém lhe dizer o que fazer durante todo o dia.
E, enquanto ele mete a mão na cabecinha e depois na perninha, eu fico a pensar:
“Descansar? Descansar era não haver música nenhuma.”
E lá ao fundo começa outra vez:
“Mete a mão na cabecinha…”
Pronto.
Está visto.
Abraço
Tito Tomás