Sabor do Saber

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Jornal produzido, nos Ginásios da Educação Da Vinci de Guimarães, pela Fábrica de Inteligência - o grupo de jovens escreventes (entre os 7 e os 20 anos de idade) que, coordenados por Pedro Chagas Freitas, se junta aos Domingos para escreVIVER.

Então, que porcaria era aquela? Tudo aquilo que tu tinhas feito, tudo aquilo que não tinhas dito. E só agora me disseste...
22/12/2014

Então, que porcaria era aquela? Tudo aquilo que tu tinhas feito, tudo aquilo que não tinhas dito. E só agora me disseste. Tinha agora a necessidade de perceber, de simplesmente perceber. Encaixar todas as falsas memórias e decifrar a realidade. Desculpa, então, por te ter morto. O que custa mais na morte é resistirmos a ela. E é a única coisa que tentamos não fazer: morrer - mas eu retirei-te essa luta. Só porque eu te amava, não signif**a que não devia ter-te feito sofrer. Chega de conversa, vamos aos actos. Estás tu aí no chão, inanimada - com os teus olhos vidrados colados em mim. E eu sem saber como me livrar de ti, eu não quero ir para a prisão.

- Vou agora mesmo resolver isto.
- Não podes resolver o que acabaste de fazer: não podes voltar atrás.
- E se eu não quiser voltar atrás?

Joana sonhava todos os dias com aquela morte, com aquele diálogo, com a sua incapacidade de ultrapassar a perda que lhe retirara a vontade de continuar há mais de dez anos. Tinha sido abandonada depois de tantos planos construídos (realidades por concretizar) - já ninguém sabe lutar. O problema era quando o sonho era tão real, tão real que chegava a roçar a realidade. Agora, sentada diante do juiz, tinha de dizer, em dois minutos, tudo o que nem uma vida poderia dizer.

- Eu sou capaz e reúno todas as condições para tomar conta dele e o educar; por ele daria a minha vida. Não peço para me deixarem ser feliz, porque já o sou, peço para o deixarem ser feliz comigo, juntos, até ao fim.
- Tenho dificuldades em ajuizar sentimentos; sou pago para ajuizar factos.
- Então pode verif**ar que a minha sanidade mental está intacta, nunca perdi o meu filho ao contrário do meu ex-marido.
- Todos sabem muito bem que sou eu que tenho mais posses para poder garantir à criança um futuro risonho, não ela!

Bruno Aiking acabara por hoje o seu trabalho: dez páginas do seu mais recente romance, no qual finalmente ganhara coragem para abordar aquilo que desde sempre o fizera escrever - sabia que toda a sua família iria estar contra a publicação desta obra, mas a solidão era um preço que estava disposto a pagar para saborear o doce travo da liberdade.

Estava sedento de mais outras dez páginas, outras tantas que pudessem extrair as sombras dos seus pesadelos, que o retirassem da prisão da sua racionalização – “tudo era culpa minha e nada podia fazer para o alterar. Eu era a Joana, e ela era eu.”

por Alexandra Lobo, Bruno Ribeiro e Pedro Chagas Freitas

(imagem: Anka Zhuravleva)

AMOR CRIMINOSO(por Bruno Ribeiro e Pedro Chagas Freitas)O medo chegara antes do esperado. Eu não o tinha previsto, mas e...
03/08/2014

AMOR CRIMINOSO
(por Bruno Ribeiro e Pedro Chagas Freitas)

O medo chegara antes do esperado. Eu não o tinha previsto, mas ele agora estava aqui. Sonhara durante anos com aquele momento, esquematizara cada passo, e agora ali estava: pronto a dar o passo que faltava. Achava que hoje me iria sentir feliz, realizado, mas só agora é que posso dizer que estou preparado para viver. À volta, toda a gente parecia aplaudir enquanto me olhava – mas não se ouvia uma palavra; até a respiração parecia pesar, cada pedaço de oxigénio a doer-me no sangue. Tinha medo, agora, medo de nunca voltar a ter este medo. Despedi-me inconscientemente de tudo o que fora antes: quem quer que eu viesse a ser, o que quer que eu conseguisse ser, seria completamente diferente de tudo o que havia sido antes: “há que tentar o impossível”. Seria mau ser assim tão diferente do que fora, seria alguém ainda capaz de me reconhecer depois desta metamorfose?

Bruno estava cabisbaixo, sem saber o que fazer. Não estava sozinho, mas parecia que todo o mundo o abandonara nesta escolha. É certo que Carla era uma ex-criminosa, condenada sete vezes por tráfico de menores, mas – p***a! – era a mulher que ele amava: porque não podia casar com ela? Além disso, será que ela ainda gostava dele, depois daqueles dois últimos anos de prisão?

- Os noivos podem beijar-se – as palavras do padre explodiram que nem uma bomba nos ouvidos de todos; excepto nos de Bruno. Ele continuava ali, parado, estático, sem se mover, parecendo que não ouvira, porque ainda não decidira se queria dar o passo para aquele abismo de uma nova vida.

Avançou: ouviu-se, limpidamente, o som de um lábio a tocar no outro; e, ainda mais límpido, o de um dedo a carregar no gatilho.

Olhou à sua volta, toda a gente parecia incrédula, ele tentava ansiosamente descobrir quem tinha sido atingido. O cheiro da pólvora ainda permanecia no ar, inconscientemente procurou os olhos de Carla. Ela continuava a olhar para ele. Naquele momento sentiu-se quente, demasiado quente. Voltou os olhos para baixo, para a sua barriga. Escorria sangue viscoso e quente dentro dele. Bruno não sentia dor, nem medo. Tinha finalmente dado um último passo antes da sua morte e estava satisfeito. Deu um último olhar à sua amada, era ela, com uma arma na mão.

08/04/2014

Um espaço sinistro que ninguém sabe onde f**a e para que serve, um grupo de crianças muito especiais enclausuradas, fechadas nos seus problemas e complexidad...

Olhei para o vazio, bem, não era literalmente o vazio – era o meu reflexo. Toda a minha vida passada a olhar em frente, ...
25/02/2014

Olhei para o vazio, bem, não era literalmente o vazio – era o meu reflexo. Toda a minha vida passada a olhar em frente, no futuro, em todos os percalços que o meu trilho podia ter e, agora, que já alcançara tudo, que já tornara sonho em realidade, o que ganhara?

Quando era pequeno, imaginava cenas mirabolantes em que eu era rei, príncipe e imperador. Com o passar do tempo, deixei-me desses sonhos, cresci e segui o caminho que delineara, baseado na racionalidade. No entanto, neste momento, penso que, talvez, me tenha perdido nesse objetivo de futuro e agora: sou infeliz. Revivia todo o meu passado naquele reflexo de espelho branco e polido.

Hoje, tinha barba e umas pequenas rugas a nascer, onde antes fora pele suave e macia; o meu sorriso intemporal de rapaz transformou-se naquele semblante pesado que raramente sorria. Sou horrível! Deixei-me seduzir pela sociedade objetiva e fria, deixei de ser criança. Cresci quando agora penso que crescer é pesadelo. Deixei os meus sonhos de menino e acreditei em leis e estatísticas.

Mas o que posso fazer? Talvez nada. No entanto, agora sei que o importante não é o resultado, é o percurso. E quando fui criança inocente e feliz sabia disso, contudo acabei por ser domado pelo mundo. Mas tu, que ainda és criança, aproveita…

Bruno Ribeiro

13/02/2014

Um espaço sinistro que ninguém sabe onde f**a e para que serve, um grupo de crianças muito especiais enclausuradas, fechadas nos seus problemas e complexidad...

Dominó da ImaginaçãoEste objeto é branco, a maior parte das vezes possui forma retangular, mas também pode ter outras fo...
15/01/2014

Dominó da Imaginação

Este objeto é branco, a maior parte das vezes possui forma retangular, mas também pode ter outras formas.

É um DOMINÓ da imaginação e mesmo estando quieto conseguimos voar com ele.

Conseguimos voar com esse objeto, porque nos deixa imaginar novos mundos, pessoas imaginárias e outras coisas que não existem, coisas irreais.

É difícil viver sem aquele objeto, aliás, muito difícil.

Existem pessoas que têm como emprego conseguir voar com esse objeto, imaginar novos mundos, pessoas imaginárias ou coisas irreais, e há outras que simplesmente gostam de o fazer.

Para o fazeres tens de ser bom na disciplina de Português.

Para conseguir ter aquele emprego é preciso ler vários livros e ter muita imaginação.

Nem toda a gente tem muita imaginação, mas todas as pessoas tem o poder da imaginação, umas mais férteis do que outras.

Nunca te esqueças que tu tens o poder da imaginação.


Sofia

Dominó de FestaHoje é o melhor dia da minha vida! Vou fazer dez anos. Vou receber muitas prendas, que é a parte boa, mas...
15/01/2014

Dominó de Festa

Hoje é o melhor dia da minha vida! Vou fazer dez anos. Vou receber muitas prendas, que é a parte boa, mas a parte má é que vão estar sempre a ligar-me a desejar um bom dia e que me corra tudo bem.

Trim…Trim…!

- Filha, vai atender! – Gritou a mãe.
- Já vou! – Respondeu a Catarina.
- Está lá… Quem fala?
- Sou eu, a tua tia. Nós desejámos-te um belo dia e que tudo corra bem. – Disse a tia a falar muito calmamente.
- Tchau! – Referiu a Catarina.

À tarde a Catarina vai ter uma festa e convidou dez raparigas.

Pim…Pim.

- É a Mariana, é a Mariana! – Gritou a Catarina.

Catarina foi dizendo isso sempre que iam chegando as amigas.

No fim, estavam todas e a Matilde vira-se para a Catarina e diz:
- Vamos jogar ao DOMINÓ.

A Catarina concordou e começaram a jogar!

- Dominó, se tu visses o que eu vi…
Dominó, à porta do tribunal…
Dominó, as cuecas do juiz…
Dominó, embrulhadas no jornal…
Dominó, esta rua cheira a sangue…
Dominó, foi alguém que se matou…
Dominó, foi a mãe do meu amor…
Dominó.

E continuaram.

- Meninos, vamos cantar os parabéns. – Exclamou a mãe da Catarina.

Toda a gente foi a correr para comer o bolo.

No fim foram abrir a prenda. A prenda de que a Catarina gostou mais foi o dominó.

Quando ia f**ar noite as amigas da Catarina foram-se todas embora.

Ela adorou o dia e no fim começou a jogar ao dominó.


Leonor

O Dominó do MundoNo mundo do dominó, havia os números até seis. O um era compatível com a harmonia e todos os dias tinha...
15/01/2014

O Dominó do Mundo


No mundo do dominó, havia os números até seis.

O um era compatível com a harmonia e todos os dias tinha que a espalhar.

O dois signif**ava paz de todo o mundo, em todos os continentes, em todos os países, em todas as cidades, em todas as freguesias.

O três, número do amor, fazia com que todos os apaixonados tivessem coragem de se mostrar.

O quatro, o combate, a rivalidade, que quase sempre (não: sempre) perdia com o cinco, o número da esperança.

O seis era o número de todos os outros: harmonia, paz, amor, combate e rivalidade e esperança.

O dominó um dia cansou-se e os números caíram, só o quatro é que ficou. O mundo ficou destruído.

A harmonia secou, a paz voou, o amor rachou, o cinco desapareceu e o seis morreu.

Desde aí o quatro governou o mundo e um pequeno seis fez-lhe frente. Houve remoinhos de alegria e de tristeza. Como se sabe, a alegria e a bondade vencem sempre, mas neste caso foi a tristeza que venceu, mas depois refletiu. E assim a bondade subiu-lhe à cabeça e ficou o quatro da bondade.

O mundo voltou a ser igual.

Ah, e o seis ficou a ser o seis da harmonia, da paz, amor, bondade e esperança.


Victória

Dominó DodóO meu melhor amigo é o Dominó!Eu conheci-o no infantário, na escola da Barca. O Dominó, meu amigo, é um fã de...
15/01/2014

Dominó Dodó

O meu melhor amigo é o Dominó!

Eu conheci-o no infantário, na escola da Barca.

O Dominó, meu amigo, é um fã de dominós!

Sempre que jogo com ele ao dominó, ele ganha-me sempre.

O nome do meu amigo é estranho. Ele chama-se Dominó e eu adoro chamar-lhe Dódó.

Todos os jogos que eu jogo com a Bea, com a Xuxu e até com os rapazes, com o António, com o João...ele não gosta de brincar. Só gosta de brincar ao dominó. Só ao dominó. É muito estranho!

O Dominó é muito parecido com o dominó. O Dominó tem a cabeça retangular e o Dominó é retangular.

Um dia estava a jogar dominó com o Dominó e reparei numa coisa curiosa! Ele estava a fazer batota. Que grande batoteiro.

Passado um ano o Dominó já não gostava de jogar dominó. Detestava.

Certa altura decidiu mudar de nome e passou a ser o Dódó!


Íris

Dominó TristeNuma terra muito distante vivia um menino chamado Dominó. Esse menino era muito alegre e divertido. O Domin...
15/01/2014

Dominó Triste


Numa terra muito distante vivia um menino chamado Dominó. Esse menino era muito alegre e divertido. O Dominó nunca viu a avó e então uma vez perguntou à sua mãe:

- Ó mãe, eu nunca vi a avó porquê?

E ela respondeu-lhe:

- Porque ela foi a um campeonato de dominó, filho.

E o filho, muito triste, perguntou:

- E quando é que ela volta?

- Daqui a três meses!

Passado um mês o filho voltou a perguntar-lhe:

- Quando é que a avó volta?

- Daqui a um mês.

Quando passou um mês o filho questionou:

- A avó está aí a chegar?

- Filho, a avó foi num avião e morreu!!!

O Dominó ficou muito abalado e triste e até não dormiu de noite.

Quando chegou a manhã ouviu-se tocar à campainha e o Dominó foi abrir a porta. Quando abriu a porta apareceu-lhe a avó e ele deu-lhe um abraço e disse-lhe:

- Avó, o que estás aqui a fazer?

E a avó comentou:

- O que estou aqui a fazer? Eu vim-te ver.

E ele disse:

- Mas a mãe disse-me que tu morreste.

E ela continuou:

- Não, no voo anterior é que morreram pessoas!!!

O Dominó ficou muito aliviado e a mãe também.
O filho, a mãe e a avó foram jantar fora, desfrutando de estarem juntos.


Nuno

Dominó de PessoasAbriu os olhos, bocejou. Havia acordado. Mas como? A última recordação que tinha era de um completo vaz...
15/01/2014

Dominó de Pessoas

Abriu os olhos, bocejou. Havia acordado. Mas como? A última recordação que tinha era de um completo vazio escuro. Lembrava-se da agonia que sentiu enquanto o seu corpo era engolido por um monstruoso buraco mais negro do que a própria cor negra, mas ainda assim não tão negro como os pensamentos daquele homem.

Depois do sono profundo ao qual tinha sido submetido, a sua mente parecia remodelada. Dir-se-ia mesmo apagada. Inversamente à mentalidade que tinha antes de ser engolido pelo buraco, agora sentia-se uma pessoa alegre, simpática e sem qualquer rancor.

Refletiu sobre isso e chegou à conclusão de que certamente algo tinha mudado desde que fora engolido por aquilo a que ele chamava Portal. Mas o quê?

Há minutos tinha os olhos abertos, mas só agora havia reparado que se encontrava num espaço branco cujo único edifício era um prédio que se disponha de forma extraordinariamente parecida com um dominó. Mas o que…que é isso?!

Subitamente, desmaiou.

De novo, dormiu forçadamente. Sonhava com tudo e não sonhava com nada ao mesmo tempo. Sentia-se a nadar entre pensamentos sem pensar neles.

Quando deu por si encontrava-se noutro espaço semelhante, e a sua personalidade mudara de novo, era novamente um ser triste. Parecia que tudo o que podia correr mal tinha corrido.

Batia com a cabeça em paredes que não existiam.

Foi adormecendo vezes consecutivas e, tal como acontecera até agora, a sua personalidade foi-se alterando.

Reacordou no mundo normal. Percebeu algo de imediato.

Percebeu que um ser humano é constituído por vários pontos e que quando a personalidade de alguém surge esse equilíbrio essa pessoa torna-se feliz e finalmente f**a em paz com o mundo, porque cumpriu o seu objetivo.

Percebeu também que o primeiro lugar onde estivera era o lugar onde as pessoas se sentiam quando discutiam e eram rebaixadas por ele.


Paulo

Dominó de MúsicaA vida é como um jogo, como o dominó, também pode ser como um rádio, que quando dá uma música de que nós...
15/01/2014

Dominó de Música

A vida é como um jogo, como o dominó, também pode ser como um rádio, que quando dá uma música de que nós gostámos aproveitámo-la ao máximo, mas essas músicas aparecem poucas vezes, mas não como o CD que dá sempre as músicas de que mais gostamos.

Na vida tudo pode acontecer, até aquelas coisas que nunca imaginámos.

Normalmente, quando menos esperamos acontecem coisas inacreditáveis.

Nós vivemos para sorrir, para chorar, parar amarmos, para brincar, para cair, para levantar…, a vida é uma montanha-russa.

As pessoas vivem para sobreviver, em vez de se divertir e aproveitar ao máximo, eu acho que nós mesmos não sabemos quem somos.

Se nos perguntarem quem somos, dizemos o nosso nome, a nossa idade…, e muitas vezes não respondemos às perguntas que nos fazem sobre nós e a que nós não sabemos responder.

A vida pode ser como uma música que descreva todos os nossos melhores e piores momentos, que descreva o que sentimos, numa música podemos fazer muita coisa.

Na minha opinião a música faz-nos viver, faz-nos pensar, sorrir, ou até, por vezes, chorar mas sem a música não seríamos quem somos, tirávamos um pedaço do nosso coração.

A vida é uma melodia.


Beatriz

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Guimarães

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