22/12/2014
Então, que porcaria era aquela? Tudo aquilo que tu tinhas feito, tudo aquilo que não tinhas dito. E só agora me disseste. Tinha agora a necessidade de perceber, de simplesmente perceber. Encaixar todas as falsas memórias e decifrar a realidade. Desculpa, então, por te ter morto. O que custa mais na morte é resistirmos a ela. E é a única coisa que tentamos não fazer: morrer - mas eu retirei-te essa luta. Só porque eu te amava, não signif**a que não devia ter-te feito sofrer. Chega de conversa, vamos aos actos. Estás tu aí no chão, inanimada - com os teus olhos vidrados colados em mim. E eu sem saber como me livrar de ti, eu não quero ir para a prisão.
- Vou agora mesmo resolver isto.
- Não podes resolver o que acabaste de fazer: não podes voltar atrás.
- E se eu não quiser voltar atrás?
Joana sonhava todos os dias com aquela morte, com aquele diálogo, com a sua incapacidade de ultrapassar a perda que lhe retirara a vontade de continuar há mais de dez anos. Tinha sido abandonada depois de tantos planos construídos (realidades por concretizar) - já ninguém sabe lutar. O problema era quando o sonho era tão real, tão real que chegava a roçar a realidade. Agora, sentada diante do juiz, tinha de dizer, em dois minutos, tudo o que nem uma vida poderia dizer.
- Eu sou capaz e reúno todas as condições para tomar conta dele e o educar; por ele daria a minha vida. Não peço para me deixarem ser feliz, porque já o sou, peço para o deixarem ser feliz comigo, juntos, até ao fim.
- Tenho dificuldades em ajuizar sentimentos; sou pago para ajuizar factos.
- Então pode verif**ar que a minha sanidade mental está intacta, nunca perdi o meu filho ao contrário do meu ex-marido.
- Todos sabem muito bem que sou eu que tenho mais posses para poder garantir à criança um futuro risonho, não ela!
Bruno Aiking acabara por hoje o seu trabalho: dez páginas do seu mais recente romance, no qual finalmente ganhara coragem para abordar aquilo que desde sempre o fizera escrever - sabia que toda a sua família iria estar contra a publicação desta obra, mas a solidão era um preço que estava disposto a pagar para saborear o doce travo da liberdade.
Estava sedento de mais outras dez páginas, outras tantas que pudessem extrair as sombras dos seus pesadelos, que o retirassem da prisão da sua racionalização – “tudo era culpa minha e nada podia fazer para o alterar. Eu era a Joana, e ela era eu.”
por Alexandra Lobo, Bruno Ribeiro e Pedro Chagas Freitas
(imagem: Anka Zhuravleva)