14/11/2025
Morreu Bertino Coelho Martins, lapense, grande figura da cultura ribatejana
Morreu hoje, aos 98 anos, Bertino Coelho Martins, uma das maiores figuras da cultura ribatejana do século XX.
Um menino pobre nascido em Lapas, chegou um dia a responsável da Biblioteca Municipal de Santarém. Pelo meio, dedicou uma vida à música, e também à etnografia, à história e ao folclore, tornando-se uma das mais importantes personagens da cultura regional do Ribatejo da segunda metade do século XX.
Bertino Coelho Martins nasceu em Lapas, Torres Novas, em 15 de Novembro de 1927. Aos nove anos já tinha a instrução primária e desde miúdo começou a trabalhar como ferreiro, nas oficinas Costa Nery e José da Rosa, em Torres Novas e na oficina Sepodes, em Assentis. A música foi logo o seu sonho e o mote da sua vida. Mestre Guingau, personagem pitoresca das Lapas do início do século, foi o homem bom que ofereceu a Bertino, ainda menino, umas botas para que pudesse sair com a banda de Lapas na saudação pública ao 1.º de Dezembro a tocar o seu flautim, porque ele, um menino pequeno, “já tocava como os homens”.
Bertino foi trabalhando e estudando, tendo tirado cursos de música e de guarda-livros por correspondência, ao mesmo tempo que fazia da música o pé de meia suplementar que equilibrasse a vida difícil daqueles tempos. Em meados da década de 50 já regia filarmónicas, caso da banda da Ribeira Branca. Chegou a leccionar acordeão, viola e clarinete, formou um grupo musical no Chouto, Chamusca, para onde ia de bicicleta duas vezes por semana em tiradas de 30Km para cada lado, percorreu a região centro a tocar em bailes como acordeonista, primeiro sozinho, depois em dueto com a sua mulher Ivone, a quem ensinou a tocar acordeão em seis meses. De Penela a Santarém, de Coruche a Figueiró dos Vinhos, de Tomar a Ourém, foi uma roda viva a animar festas de aldeia.
Mudou de vida quando, em 1958, partiu para Santarém para trabalhar como contínuo da câmara municipal. No dia 10 de Março daquele ano, recorda Bertino nas suas memórias, estavam uns homens a plantar árvores na estrada da Ribeira Ruiva para Torres Novas, árvores que ainda lá estarão. Em 1960 passou a desempenhar funções na biblioteca municipal da Santarém, e depois de ter feito curso de especialização em bibliotecas e documentação, assumiu a responsabilidade da biblioteca desde 1974 até 1993, data em que se aposentou. Foi, durante anos, o responsável pela Comissão de Trabalhadores da Câmara Municipal.
Enquanto tocador, Bertino fez o seu último baile em Caneiras, Santarém, percorrendo depois uma carreira de excepção, leccionando na banda dos bombeiros de Santarém, integrando a Orquestra Típica Scalabitana e tocando em agrupamentos folclóricos sob a égide de Celestino Graça, tendo realizado intensa actividade de recolha da tradição oral que deu corpo ao acervo musical do Grupo Académico e Infantil de Danças de Santarém, Rancho Folclórico dos Pescadores do Tejo (Benfica do Ribatejo), entre outros.
Durante duas décadas, foi o responsável máximo pela organização dos congressos de folclore do Ribatejo, representou a Federação do Folclore Português na Região de Turismo do Ribatejo, foi sócio número dois e fundador da Associação de Defesa do Património Histórico de Santarém. Já depois da aposentação, participou na vida política local, tendo sido elei-to por dois mandatos, entre 1994 e 2001, presidente da Junta de Freguesia de Marvila, na cidade de Santarém, a freguesia da cidade e do concelho com maior número de habitantes.
Mas, para além desta actividade intensa, Bertino Coelho Martins destacou-se a uma escala ímpar na região como etnógrafo e folclorista, etnomusicólogo e historiador, tendo produzido centenas de comunicações, conferências, artigos sobre a história e cultura popular de Santarém e de Torres Novas, para jornais e revistas, tendo publicado ainda vários livros. Para a sua terra natal, Lapas, deixou “Lapas, História e tradições” (1991) e “Lapas, memórias e Etnografia” (2001), entre outros; para a região, obras como “O fandango: raízes, disseminações e diversidade” (1992) ou “Músicas e Danças Tradicionais do Ribatejo” (1997), entre muitos outros livros.
Durante décadas, a sua dimensão de músico e etnógrafo elevou-o a principal especialista nacional na área da etnomusicologia, reconhecido e respeitado um pouco por todo o país no Movimento Folclórico Português e não só. Foi maestro e compositor reconhecido em todo o Ribatejo, apesar da sua humildade que dificilmente lhe permitia afirmar o seu superior conhecimento.
Homenagens e reconhecimentos públicos teve Bertino Martins muitos: o município de Torres Novas atribuiu-lhe a medalha de Mérito Municipal de Cultura (2000), em 2007 o município de Santarém deliberou atribuir o seu nome a uma rua da velha Scalabis, na freguesia citadina de Marvila, bem como a uma sala da Biblioteca Municipal no Palácio Bramcamp Freire. A autarquia da sua terra, a Junta de Freguesia de Lapas, deu o seu nome à taberna do Aspirante, o auditório da aldeia. A Junta de Freguesia de Lapas, juntamente com a assembleia de freguesia aprovaram, por unanimidade, uma proposta para atribuição do nome de Bertino Martins a uma rua da freguesia, na sequência de um abaixo-assinado de apoio com centenas de assinaturas, intenção que foi arbitrariamente travada pelo presidente da Câmara da altura, António Rodrigues. A vontade do povo de Lapas está ainda por reparar.
João Carlos Lopes