17/11/2025
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JOÃO NEVES E O CÓRTEX PRÉ-FRONTAL
Antes de mais: não tragam ódio para a leitura deste texto. Não tragam clubismo, facção, espuma na boca. Tragam o coração. Tragam-no inteiro.
O córtex pré-frontal é mais importante do que os pés para ser um craque da bola. É ele que decide quando se passa, quando se segura, quando se respira. É ali que mora o timing, a visão, a leitura, o recuo. O corpo corre, sim; mas é a cabeça que manda. João Neves é a prova disso. Um miúdo que pensa mais depressa do que os outros correm, que vê mais longe do que os olhos alcançam. Que percebe que a inteligência é um músculo, que o treinou até se tornar o cérebro mais lucidamente intenso do meio-campo europeu.
João Neves é uma lição. Não de futebol: disso há muitos manuais. É uma lição de vida, de como se responde ao desprezo sem gritar, à dúvida sem arrogância, à humilhação sem vingança. Durante anos, disseram-lhe que não ia dar. Era pequeno, era franzino, não tinha corpo para isto, não podia ser. Cresceu a ser o minorquinha, o alvo fácil dos que confundem tamanho com valor. Pelo meio ainda perdeu a mãe, o colo que tantas vezes o amparou quando a descrença teimava.
Ontem, foi o espectáculo que se viu. Não foi por ter crescido; foi por ter resistido, por ter usado a cabeça onde os outros davam pontapés, por ter transformado o "não" em combustível, por ter calado o ódio com a humildade de quem nunca precisou gritar.
Vejo-o e vejo o que quero ensinar ao meu filho: não tem de ser o mais forte, mas pode ser o mais persistente; não tem de ser o mais alto, mas pode ser o mais firme; não tem de ser o mais brilhante, mas pode ser o que nunca se apaga; não tem de ser o que tem o carro mais caro na garagem, mas pode ser o que tem o coração mais valioso no peito.
João Neves é o miúdo que disseram que não ia chegar a lado algum. Chegou, como chega em campo, a todos os lados. É só o começo.
Parabéns, João.
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imagem: AFP