25/08/2026
Há pessoas que morrem. E há pessoas que, quando morrem, levam consigo um bocadinho de uma época inteira.
Hoje partiu Dolly Parton.
E talvez seja apenas o tempo a fazer aquilo que sempre fez. A passar. Sem pedir licença, sem perguntar se estamos preparados. Mas ultimamente parece fazê-lo depressa demais.
Vão partindo as vozes, os rostos, os artistas que julgávamos eternos porque estiveram sempre ali. Na rádio. Na televisão. Nos filmes. Nas músicas que dançámos, cantámos, amámos. Na banda sonora de uma juventude em que, ingenuamente, achávamos que tínhamos todo o tempo do mundo.
Dolly tinha 80 anos.
E continuava linda. Luminosa. Exuberante. Excessiva, talvez, para quem acha que uma mulher deve aprender a ocupar pouco espaço à medida que envelhece.
Ela nunca aprendeu.
Ainda bem.
Cabelo demasiado louro. Brilhos a mais. Saltos demasiado altos. Decotes impossíveis. Uma gargalhada inconfundível e aquela extraordinária capacidade de brincar com a própria imagem antes que alguém pudesse usá-la contra ela.
Mas por detrás daquela personagem maior do que a vida existia uma mulher imensa.
Nasceu pobre, numa pequena casa nas montanhas do Tennessee, numa família de doze irmãos. E fez-se gigante.
Cantora. Compositora. Atriz. Empresária. Produtora. Filantropa.
Escreveu Jolene.
9 to 5.
I Will Always Love You.
E tantas outras.
Construiu um império num mundo onde durante demasiado tempo foram os homens a decidir até onde uma mulher podia chegar. E conseguiu uma coisa ainda mais difícil: chegar ao topo sem deixar que o topo lhe apagasse a memória do lugar de onde tinha vindo.
O pai não sabia ler nem escrever.
Talvez por isso, muitos anos depois, Dolly criou a Imagination Library e começou a colocar livros gratuitamente nas mãos de crianças. Milhões e milhões deles.
Usou dinheiro para ajudar vítimas de incêndios. Apoiou investigação médica. Defendeu pessoas e causas que tantas vezes tiveram menos voz, menos direitos, menos palco.
Porque há quem chegue à luz e passe o resto da vida a tentar que ela incida apenas sobre si. Dolly usou a sua para iluminar outros.
E talvez seja isso que separa uma celebridade de um ser humano verdadeiramente grande.
Hoje, inevitavelmente, voltei a ouvir “Islands in the Stream”. Uma das “minhas” músicas de sempre.
Dolly Parton e o incrível Kenny Rogers.
E senti aquela estranha melancolia de perceber que os dois já partiram.
Porque algumas músicas fazem uma coisa extraordinária: não envelhecem connosco.
F**am guardadas num lugar qualquer da memória onde ainda somos jovens, algumas pessoas ainda estão vivas, alguns amores ainda não acabaram e o mundo parece ter uma quantidade infinita de amanhãs.
Não tem.
Talvez seja também por isso que estas mortes nos tocam tanto.
Não choramos apenas quem parte.
Choramos, às vezes sem perceber, quem nós éramos quando aquela voz fazia parte dos nossos dias.
A minha geração começa a despedir-se dos seus ícones.
E isso assusta-me um bocadinho.
Porque cada um que parte leva uma música, uma memória, uma noite, um filme, um amor, uma versão de nós.
Mas Dolly deixou-nos uma frase que hoje parece ter sido escrita para a sua própria despedida:
“Posso viver até aos 100 ou posso morrer amanhã, mas, quando isso acontecer, saberei que morri a tentar. E saberei que fiz tudo o que podia para tirar o máximo de tudo.”
Morreu aos 80.
E viveu.
Meu Deus, como viveu.😊
Talvez essa seja a maior homenagem que podemos fazer a alguém quando chega a hora de partir: não contar apenas os anos que esteve cá, mas perceber quanta vida conseguiu colocar dentro deles.
E Dolly colocou muita.
Amou durante quase seis décadas o mesmo homem, Carl Dean, que partiu antes dela.
E eu, que gosto de acreditar que algumas histórias de amor são demasiado grandes para terminarem numa despedida, permito-me hoje imaginar que talvez ele estivesse à espera.
E que, algures onde nós ainda não chegamos, Kenny Rogers tenha voltado a pegar num microfone.
O céu anda a receber demasiados ícones da nossa juventude.
Começo sinceramente a achar que vão faltar palcos lá em cima.
Mas para Dolly terão de arranjar um.
Grande.
Cheio de luz.
Com brilhantes, saltos altos e espaço suficiente para receber uma mulher que passou 80 anos sem aprender a ser pequena.
Goodbye, Dolly. 🤍
Obrigada pelas músicas.
Pela coragem.
Pela irreverência.
Pela humanidade.
E sobretudo por nos teres lembrado, até ao último dia, que não importa apenas quanto tempo nos é dado. Importa o que fazemos com ele.
Islands in the stream… 🌟
1946-2026
Isabel Rodrigues Valente