InComunidade

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515 - Cooperativa Cultural, CR
ISSN 2182-7486

A InComunidade é uma publicação mensal de pensamento e criação que aborda áreas como a Política, a Economia, o Direito, Ciência, etc. , não havendo limitação de temas, excepto se atentarem contra a dignidade humana.

26/04/2026
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CULTURAA ética da ternura: entre a verdade e o cuidado | Morgado Mbalate01/03/2026199 views0James Baldwin and Nikki Giov...
14/03/2026

CULTURA
A ética da ternura: entre a verdade e o cuidado | Morgado Mbalate
01/03/2026199 views0
James Baldwin and Nikki Giovanni on Soul!, 1971
A verdade, por mais pura que seja a sua essência, nem sempre é um solo hospitaleiro. Há momentos em que ela não apenas ilumina, mas incide de forma abrasiva, colidindo com o afecto e desnudando a vulnerabilidade humana sem oferecer o devido abrigo. Este equilíbrio precário, a tensão entre a franqueza radical e a sobrevivência emocional, foi o cerne do histórico encontro entre Nikki Giovanni e James Baldwin, 1971. No palco do programa Soul!, o que se desenrolou não foi apenas um debate intelectual, mas uma investigação profunda sobre a economia dos afectos, imortalizada posteriormente na obra A Dialogue (1973).



É no ápice dessa conversa que Giovanni lança um apelo que ainda hoje desafia a nossa obsessão contemporânea pela transparência absoluta:



“Lie to me. Smile. Treat me the same way you would treat them” (Minta-me. Sorria. Trate-me da mesma forma que trataria os outros).



Longe de ser uma apologia à desonestidade, a provocação de Giovanni é um manifesto pelo direito à proteção. Ela identifica uma ironia pungente nas relações íntimas, a tendência de reservarmos a crueza e o sincericídio para aqueles que amamos, enquanto oferecemos as mentiras sociais, a polidez, o sorriso diplomático, a paciência, aos estranhos. Para Giovanni, o espaço do amor deve ser um território de exceção, um refúgio onde a ternura precede a urgência de ter razão.



James Baldwin, cuja trajectória foi esculpida na denúncia das verdades brutais do racismo e da condição humana, compreendia o peso hercúleo de sustentar a realidade. Contudo, Giovanni interpela-o sobre a ética do microssistema doméstico, será a honestidade nua sempre uma virtude, ou será ela, por vezes, uma forma de brutalidade emocional disfarçada de integridade?



A distinção aqui é vital para a saúde de qualquer vínculo:



A Sinceridade Cortante: Frequentemente centrada no ego, é uma descarga de factos que busca aliviar a consciência de quem fala, ignorando a capacidade de quem ouve.


A Verdade do Cuidado: É uma compreensão de que o silêncio estratégico ou o abrandamento de uma sentença não é traição à realidade, mas um acto de preservação do outro.


Numa era de hiper-exposição e de uma autenticidade muitas vezes performativa, a lição deixada por estes dois gigantes da literatura recorda-nos que os sentimentos humanos não habitam os absolutos. Amar exige uma alquimia delicada, o discernimento entre o que deve ser revelado para fortalecer e o que deve ser suavizado para curar.



A dignidade do outro é o limite ético da palavra. Como filósofos do quotidiano, ensinaram-nos que a verdade mais profunda não é necessariamente a mais nua, mas aquela que, ao ser dita, é capaz de proteger a fragilidade de quem a recebe. Talvez a maior coragem não resida em dizer tudo o que se pensa, mas em sustentar o silêncio que protege o espaço do outro.

Fotos: Morgado Mbalate

Morgado Henrique Mbalate, mais conhecido por Morgado Mbalate e O Anjo das Palavras, nasceu em Maputo, no dia 6 de Setembro de 1993. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO); Licenciado em Filosofia pela Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). É autor do livro Odisseia da Alma (Editora Edições Esgotadas, 2016); A Arte Suave da Palavra (Chiado Books, 2020); Co-autor do CD de Literatura Negra ‘O que nos a Bala‘ (Comunidade do Tambor, 2018). De entre Prémios e Distinções: destaque para o Prémio Bicentenário de Dostoiévski (2021), menção honrosa no Premio Mondiale di Poesia Nosside (2014), menção honrosa no Prémio Fernanda de Castro do IV Concurso Internacional de Poesia e Prosa (2017). Participou no Festival Internacional Earthquake Terremoto 5ª edição 2021. Participa em várias Antologias, e colabora em diversas revistas internacionais. Seu poema “Africanizando” foi contemplado no ensino fundamental e médio brasileiro. Seus textos foram traduzidos para francês, inglês, espanhol, italiano, e são estudados em escolas e Universidades em Moçambique e no Brasil.

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