15/08/2026
A Loggia Quinhentista de São Tomé de Negrelos: um testemunho do Renascimento no Vale do Ave
Um património singular
Em São Tomé de Negrelos, no concelho de Santo Tirso, encontra-se um dos mais interessantes testemunhos da arquitetura quinhentista da região do Vale do Ave: a Loggia quinhentista associada à Capela do Santíssimo Sacramento da Igreja de São Tomé de Negrelos.
Embora o atual edifício da igreja tenha sofrido profundas transformações ao longo dos séculos, a estrutura quinhentista conservada no exterior constitui uma importante memória de uma época em que as novas formas do Renascimento começavam a afirmar-se na arquitetura portuguesa. O conjunto está oficialmente classificado como Imóvel de Interesse Público, por decreto de 27 de março de 1944.
Uma obra do século XVI
A história arquitetónica da igreja revela diferentes momentos construtivos. Segundo a informação do património cultural português, a primeira fase corresponde ao início do século XVI, período ao qual pertence a Capela do Santíssimo Sacramento, de características manuelinas. Algumas décadas mais tarde, durante os anos 30 e 40 do século XVI, terá sido construída a loggia exterior.
A loggia apresenta uma planta quadrangular e é constituída por uma colunata de elegantes proporções, com capitéis de ordem compósita. A solução arquitetónica evidencia a influência da cultura renascentista italiana, adaptada ao contexto português. A Junta de Freguesia de São Tomé de Negrelos destaca igualmente a existência de uma janela de ângulo, elemento particularmente expressivo do conjunto.
Não se trata, portanto, de um simples alpendre acrescentado à igreja. A loggia constitui uma peça arquitetónica com identidade própria, integrada num conjunto religioso que conserva elementos de diferentes épocas.
A capela manuelina
Por detrás da loggia encontra-se a Capela do Santíssimo Sacramento, uma das partes mais antigas conservadas da igreja.
A capela possui planta quadrangular e é coberta por uma abóbada de cruzaria de ogivas, característica da arquitetura manuelina. No seu interior encontra-se atualmente um conjunto escultórico representando o Calvário, colocado no lugar onde anteriormente se encontraria o retábulo.
A ligação entre a capela manuelina e a loggia renascentista torna o conjunto particularmente significativo. Num espaço relativamente pequeno encontram-se vestígios de duas linguagens artísticas que marcaram profundamente a arquitetura portuguesa do século XVI: a tradição manuelina e a introdução progressiva das formas renascentistas.
A loggia e o Renascimento
A palavra loggia, de origem italiana, designa uma galeria aberta, geralmente sustentada por colunas ou arcadas. A sua presença em São Tomé de Negrelos é especialmente interessante porque revela a adoção de uma solução arquitetónica associada à cultura renascentista.
A documentação patrimonial descreve a loggia como uma estrutura quadrangular apoiada em colunas com capitéis compósitos. A Junta de Freguesia caracteriza-a como uma obra de influência da Renascença italiana, destacando as suas colunas esbeltas e os elementos arquitetónicos da janela de ângulo.
A sua importância ultrapassa, por isso, a dimensão local. É um testemunho da circulação de modelos arquitetónicos e artísticos que, durante o século XVI, transformaram progressivamente a arquitetura portuguesa.
Uma igreja de muitas épocas
Um dos aspetos mais interessantes de São Tomé de Negrelos é precisamente a sobreposição de diferentes períodos históricos.
O atual templo não corresponde integralmente à igreja quinhentista. O sistema de informação do património arquitetónico identifica no conjunto elementos manuelinos, setecentistas e do século XX. A igreja paroquial apresenta atualmente uma configuração resultante de várias campanhas de construção e remodelação.
A própria fachada e o corpo principal da igreja pertencem a fases posteriores, enquanto a capela lateral e a loggia conservam a memória do complexo quinhentista. Esta coexistência permite compreender como os edifícios religiosos portugueses foram sendo adaptados às necessidades das comunidades ao longo dos séculos.
Um património protegido desde 1944
O reconhecimento oficial da importância deste conjunto ocorreu em 1944, através do Decreto n.º 33 587, publicado no Diário do Governo de 27 de março desse ano. A classificação abrange especificamente a Loggia quinhentista e a Capela Manuelina da Igreja de São Tomé de Negrelos.
A proteção patrimonial demonstra que, já no século XX, se reconhecia o valor excecional destes elementos arquitetónicos. Atualmente, a classificação continua a integrar o património cultural protegido do concelho de Santo Tirso.
Memória de São Tomé de Negrelos
A importância da loggia deve também ser entendida no contexto histórico da própria localidade. Existem referências documentais a Negrelos desde o século XI, tendo a povoação adquirido posteriormente estatuto de vila e couto.
A Igreja de São Tomé tornou-se, ao longo dos séculos, um dos principais pontos de referência da comunidade. A permanência da capela manuelina e da loggia quinhentista permite hoje estabelecer uma ligação direta com a história artística e religiosa da povoação.
O conjunto é ainda valorizado pela sua integração na paisagem patrimonial de São Tomé de Negrelos, onde se encontram outros testemunhos históricos, entre os quais o Castro de Santa Margarida e diversas casas solarengas.
Um pequeno monumento de grande significado
A Loggia quinhentista de São Tomé de Negrelos pode passar despercebida a quem observe apenas a atual fachada da igreja. No entanto, por detrás da aparência de um templo profundamente remodelado encontra-se uma peça arquitetónica de grande interesse.
As suas colunas, os capitéis, a composição quadrangular e a ligação à Capela do Santíssimo Sacramento constituem um testemunho raro da introdução da linguagem renascentista na arquitetura religiosa da região.
Mais do que uma sobrevivência isolada do século XVI, a loggia é uma verdadeira ponte entre épocas: conserva a memória da arquitetura manuelina e testemunha simultaneamente a chegada de novas formas renascentistas. É, por isso, uma peça essencial para compreender a história artística de São Tomé de Negrelos e o património arquitetónico do concelho de Santo Tirso.
Nota histórica
A documentação oficial situa a construção da loggia nas décadas de 1530-1540. Algumas fontes secundárias apresentam datações incorretas ou contraditórias; por isso, para um texto de caráter histórico, é preferível seguir a cronologia indicada pelo sistema oficial de património cultural português.