20/05/2026
Hoje na terapia ocupacional, o Martim aprendeu a assoar o nariz.
Tem 8 anos. Na ordem natural das coisas, isto não seria nada de especial.
Mas é, e talvez ele nem tenha a verdadeira noção de quanto.
Vim a rebentar de orgulho. E ele, quando lhe disse, respondeu com aquele ar de desdém e diz-me: "eu já sabia."
Já sabia. Claro.
É muito exigente com ele próprio. Reconhecer que aprendeu qualquer coisa implica admitir que não sabia antes. E isso, para ele, é difícil de engolir.
Às vezes fico a pensar se estou a fazer bem. Digo-lhe sempre que ele consegue fazer tudo o que quiser. Não falo do autismo como uma limitação, porque não tem que ser. Digo que é desafiante, que o mundo ainda não está preparado para ele, mas que ele chega lá.
E pergunto-me se essa mensagem tem um peso que ele ainda não sabe carregar.
Não sei se estou certa. O que sei é que o "já sabia" dele diz mais sobre quem ele é do que qualquer diagnóstico. Tem um orgulho que não cede. Uma exigência que o vai levar longe e que hoje o fez fingir que não tinha acabado de aprender uma coisa.