13/11/2022
"- Tu és uma excelente cuidadora. Excelente, mesmo! Gostas?
- Não. Odeio!! É como eu gostar muito de crianças, da fase até aos 2, 3 anos mas não me imaginar a fazer isso todos os dias, a toda a hora, para sempre. Faço o que faço, porque é o que precisa de ser feito. Faço-o porque é o teu irmão."
No milésimo de segundo em que me calei, fiquei a dever um enorme pedido de desculpas à minha Cunhada.
Porque lhe respondi de forma brusca, seca. Agressiva até. Face a um elogio. Um elogio que era também um agradecimento...
Mas nunca lhe fiz esse pedido de desculpas.
Porque fiquei em choque comigo mesma.
Com o que disse e da forma que o disse.
Porque precisava de tempo para processar o porquê daquela resposta.
Passados 2 meses, volto sempre ao porquê de ter respondido daquela forma à minha Cunhada.
O problema começou na palavra "Cuidadora": Eu sou uma?
Estou apenas a dar apoio o meu Marido nas fases de pós-operatório. A fazer o que qualquer esposa que ama o seu marido faria no meu lugar.
Estou apenas a dar o meu melhor a assisti-lo, a ajudá-lo e a prover às suas necessidades, fazendo tudo o que for preciso, enquanto duvido de mim a cada segundo: estarei a fazer isto bem? Haverá uma maneira melhor, mais segura de o fazer? E se isto der asneira e, em vez de o estar a ajudar, o prejudico de alguma forma?
Pensando no desgaste brutal que foram as primeiras 3 semanas, passei a valorizar muito mais todos os cuidadores, formais e informais. Quando penso neles, fico com um peso dentro de mim.
Ser Cuidador implica uma disponibilidade a 100%.
Estar sempre atento.
Antever necessidades, ter sempre tudo preparado para quando for preciso.
Fazer o que quer que seja que for preciso.
Arranjar formas práticas e criativas de o fazer.
Ter sempre o Outro como prioridade porque ele não tem autonomia para se cuidar, para se nutrir, para se tratar.
É ser empático.
É ter Amor ao próximo.
É fazer da ajuda ao outro uma forma de vida.
Quando se é cuidador formal, como os enfermeiros, os assistentes em lares, hospitais ou associações dedicadas a pessoas com necessidades especiais (só para citar alguns exemplos), é suposto as pessoas serem treinadas e terem formação neste tipo de cuidados; é suposto as instituições terem todos os meios (humanos e todos os outros) para que as pessoas possam ser cuidadas como merecem, mantendo sempre a sua integridade e dignidade.
É suposto... É suposto...
Mas nem sempre é o que acontece, quer por falta de meios quer por falta de empatia.
Este tema dava para uma obra completa em vários fascículos, mas não me vou alargar para este lado: Ser Cuidador tem tantas camadas, é de uma complexidade tal, que podemos começar pelo Estado das Nações e acabar no vizinho do lado.
O que, no meu caso, é literal: duas das minhas vizinhas são, respetivamente, enfermeira e a outra assistente social numa associação que trabalha maioritariamente com pessoas com paralisia cerebral.
O que mais me continua a deixar assoberbada nesta minha passagem pelo mundo dos Cuidadores, é a força inesgotável e a coragem que é necessária para se ser um Cuidador Informal. A tempo inteiro ou mesmo continuando a trabalhar, mas ser um Cuidador Informal: Cuidar de filhos com necessidades específ**as; dos pais quando já não o conseguem fazer sozinhos; de um irmão ou familiar que não será nunca autónomo.
Podia agora dissertar sobre a falta de respostas sociais para estas situações ou ainda para o quanto os Cuidadores Informais são desvalorizados pela sociedade, de uma forma geral.
Mas escolho falar deles na forma como os vejo:
Ser Cuidador Informal é o expoente máximo do Amor ao Próximo.
Do espírito de sacrifício, porque muitas vezes implica que só se existe em função do outro.
Que nunca saberão quando voltarão a reencontrar-se com eles mesmos.
Já li sobre e conheci tantos casos de Cuidadores Informais que deixaram o seu trabalho; que nunca mais foram de férias ou tiveram uma tarde para si mesmos. Que têm dificuldades diárias para fazer coisas tão simples como irem ao supermercado ou tomar um banho sem estarem sempre de coração nas mãos pelo Outro.
Se uma coisa aprendi é que ser Cuidador implica teres uma "Aldeia".
Nada se faz sem teres uma "Aldeia" que cuida de ti e dos teus enquanto tu cuidas do Outro; que te ajuda a cuidar do Outro; que se assegura que não te esqueces, também, de cuidar de ti.
E, felizmente para mim, a minha Aldeia, é bastante populosa:
- A Sogra que cozinhou, deu refeições, foi mil vezes às compras, entre tantas outras coisas;
- A Vizinha Querida, que vinha fazer os pensos do pós-operatório, ensinar a estar atenta aos sinais de que era necessário mudar, aconselhar formas mais fáceis de mudar os lençóis, loções / pomadas para as alergias que apareceram por estar acamado, que continua a vir dar injeções;
- A Família e Amigos que ligam sempre, a dar uma palavra amiga, a relembrar que também temos que cuidar de nós, a disponibilizar a sua ajuda;
- Chefias e Colegas de trabalho que não exigiram, não pressionaram, não controlaram, acreditando que eu dou conta de tudo e que saberei pedir ajuda sempre que precise;
- Os Pais que vieram dar uma ajuda com as coisas do dia-a-dia para que me possa concentrar no trabalho, Marido e Filho (Que entretanto adoeceu...)...
Mas há Cuidadores Informais que estão sozinhos, cuja a Aldeia se resume a eles próprios.
Como é que conseguem? Como conseguem sequer manter a sua sanidade mental?
Quem olha por eles?
Não abrindo a discussão ao que é que podia ser feito, deixo aqui apenas a sugestão de que se olhe com compaixão para os que nos rodeiam.
Deixo o meu desejo pessoal de que, num mundo cada vez mais global, cada um de nós possa ser habitante na Aldeia de alguém.
Nem que seja do vizinho...
PS: Cunhada, espero que aceites este post como o pedido de desculpas que há tanto te devo...