30/10/2024
TANTOS ANOS DEPOIS
Se o leitor traçar uma linha reta, com alcance desconhecido, não vai conseguir traduzir em esboço o percurso de uma vida. A vida não é reta, tem encruzilhadas dramáticas (porque exige escolhas), nem sempre depende de nós, é bonita e é feia. Vale a pena vivê-la mesmo nem sempre sendo fácil – se calhar por causa disso mesmo. É como se fosse um eterno mistério, tal como nós somos.
Vem este arrazoado de palavras, aparentemente sem sentido, a propósito dos incontáveis momentos de confraternização que os antigos alunos dos liceus e das faculdade têm organizado ultimamente. De repente, surgiu a vontade em rever as escolas e, principalmente, os colegas de uma época marcante da vida de cada um.
Razões para este fenómeno? São muitas e diferentes entre si. Vejamos algumas recorrendo, por exemplo, à contabilização do que já foi percorrido, e daquilo que falta cumprir. A resposta está diante dos olhos: cada vez é menor em termos de distância o futuro em relação ao passado. Se compararmos com uma viagem de comboio entre Porto e Lisboa, estamos nesta altura a deixar para trás a cidade de Leiria.
Por outro lado, os estudantes de há quarenta, cinquenta anos seguiram caminhos diferentes no tempo. Um número considerável deles não se vê há muito, alguns desde que as aulas terminaram. Por isso é grande a curiosidade em rever as caras que já fizeram parte do quotidiano de quase todos. E com razão de ser. Quando olham uns para os outros reconhecem-se com dificuldade: quase todos engordaram, ganharam barriga, perderam cabelo, alguns dentes são postiços, as rugas cavaram sulcos no rosto, o andar começa a ser mais lento, os malditos óculos de massa assentam o peso no nariz e, principalmente, o brilho no olhar empalideceu.
Claro que há exceções entre os presentes. Esses tornam-se os heróis do dia – aliás, eles sabiam-no, por isso é que não faltam a convívios deste tipo. Mas não se pense que estes espaços de convívio se esgotam neste tipo de apreciações. Se estão quase todos no mesmo barco, as marcas da passagem do tempo passam a ser secundárias: o mar está revolto, ninguém conduz a embarcação – para quê?, os passageiros já passaram por muitos momentos de grande perigosidade, estão habituados – e assim sendo, que importância têm essas insignificantes marcas nas faces de quem um dia amamos?, ou detestamos (nestes ainda menos). Ou com quem estudamos na casa disponibilizada por um colega de turma a geometria descritiva? E que dizer daquele ou daquela que nos ensinou a amar?
O resto não interessa nada. Que se dane o mar alteroso provocado pela mistura do whisky e da vodka. Estamos vivos, aburguesados, os netos começam a surgir, a escola sofreu grandes obras de remodelação, o futuro está assegurado.
O mais fantástico de tudo isto é um dia termos embarcado na mesma carruagem, no mesmo comboio a caminho das subidas íngremes todas elas sinalizadas em latim, construídas a partir dos conhecimentos de matemática e física, descritas tal como aprendemos nas Viagens na Minha Terra, com a alma enxuta a partir dos ensinamentos do Padre Constantino e os ouvidos ainda a escutarem o Professor Semifusa e as suas palavras inesquecíveis: “a música é uma belexa”.
E depois do toque do sino do Cludomiro, as mulheres mais bonitas do país à espera nem elas sabiam bem de quê. Só passados estes anos começam a suspeitar da razão de tudo isto. O estudo da filosofia ministrada pelo Professor Ferreira acabou por se tornar útil.
Francisco Sérgio Barros