16/08/2026
Debaixo de um sol intenso
Em pleno mês de agosto
À PROCURA DO SENHOR DA PEDRA
Hoje vim conhecer o Senhor da Pedra. Simpático como todos os senhores do firmamento, distingue-se deles em algo que ultrapassa a mera configuração ética. Mais do que construtor de realidades ele é um desbravador de caminhos que nos aproximam do transcendente, tanto a cada um de nós como à natureza que nos envolve. É um verdadeiro mestre. Aponta-nos a direção, mas sem qualquer veleidade de constrangimento. Somos nós a decidir por fim.
A esta conceção do envolvimento do ser humano e da natureza em geral chama-se sincretismo. Tão antiga quanto os tempos, esta visão una do que nasce por via da criação é um dos alicerces da religião e, para espanto de muitos, da moderna (e verdadeira) ecologia.
Compreende-se, assim, a escolha do lugar santo onde haveria de ser erguido a capela do Senhor da Pedra. A comunhão do homem e da natureza está ali expressa de forma clara. O edifício foi erguido em cima de uma rocha – uma base quase plana transformada em altar. A rodear este local de culto, está o mar (na maior parte do ano), a areia da praia pouco depois, e por fim os homens extasiados pela beleza de tudo aquilo.
As populações do século XVIII (a capela foi construída em 1763), não precisaram das agências imobiliárias nem de anúncios nos jornais para escolher o sítio onde haveria de celebrar-se a convivência sã do que é terreno com o sagrado. Não é por acaso que as civilizações antigas se serviram daquele altar erigido na rocha, para ali dialogarem de modo privilegiado com o transcendente, orando, rezando e sacrificando diversas espécies animais por forma a solicitarem a concretização de desejos há muito sonhados ou então pedido clemência para os erros cometidos.
Foi só depois de refletir sobre isto tudo, que recuperei a consciência de que trazia na mão um s**o plástico com uma galinha preta a estrebuchar contra o pouco religioso invólucro.
Francisco S. Barros