Escritos Por Mim

Escritos Por Mim Escritos Por Mim... uma forma criativa e diferente de cruzar a inventada historia com a riqueza da palavra escrita.

17/03/2024

Hora 6 de divorciada

“Há quanto tempo me observas?”questionou Amália à sua filha, fitando- a nos seus olhos, e forçando um sorriso. Em pensamento, Amália pescava no humor vítreo dos olhos de sua filha o seu espaço, talvez um rasto de um espaço com a forma de uma mãe.
E demorou nela o seu olhar. E perdeu-se no pensar ”que coisa tão pequena…tão bela”.
Mas a vida real de Amália entrava de novo em suspense, através do refúgio do seu pensar. Amália havia transitado o seu pensamento para um outro espaço mental, um espaço masculino, agora fisicamente vazio, só preenchido pelas palavras memorizadas e repetidas …. “Não te vás” e que havia escrito há algum tempo… Aquele espaço azul, m aquele tão apetecido espaço mas agora talvez morrido.
E recordou:
"Não te vás"
Não te vás embora...sem te despedir
Diz me a razão da partida
O abandono de tão grande amor
Que preenche as quadrículas do meu pensamento.

Não te vás embora...sem te despedir
Sem soprares um último beijo
Sem encostares ao meu peito
Sem silenciares o meu desejo.

Não te vás embora...sem te despedir
Sem te ouvir dizer adeus pela última vez...
Deixa me esquecer o carril da nossa felicidade
A cadência das imagens vivas registadas em pensamento
Deixa me apagar os vestígios de ti em mim
Não te vás embora, sem te despedir.”
Escritos por Mim ( Ana Paula)

Mas Amalia reconhecia poder haver mortes silenciosas, invisíveis e sem enterro. As definidas como mortes progressivas.
E assim o seu mundo, o mundo de Amália mudara….

Mais uma vez beliscou-se para acordar do seu pensamento. O belisco passou a integrar a sua rotina, para que se pudesse tornar novamente real. Foi esta a forma, a beliscadura, ou melhor, a mordedura, que Amália utilizou para deixar de ser um fantasma de si. Amália sangrava assim, e muitas vezes, pela boca. Mordia a face interna dos lábios, para regressar da borda de lá, a si. O sabor avinagrado do sangue, que engolia, acordava-a do delírio, do seu silêncio de quando se encostava a gritar no seu quadrado preto dos pensamentos.

Emergiu novamente no pensamento de Amália, enquanto fitava a filha, a linda trouxa que lhe entregaram na maternidade, com um ser pequeno e chorar e envolta numa mantinha de la rendada e com o seu nome bordado. Nada calava aquele pequenino ser, assim Amália recordava.

Voltou a si, e naquele instante apelou à pouca coragem, e procurou o seu instinto maternal, e jogou, de rompante, como se a vida se tratasse de um jogo sob um brilhante tabuleiro de xadrez: “Como estás, filha? Dormiste bem?”
Acompanhou a filha ao seu quarto, pedindo-lhe que o arrumasse e não deixando transparecer a tragédia que se estava a alojar no seu ser.
“A perda eclipsa me”, pensa Amália. “Como poderei voltar ao meu lugar? “. “Só afirmo, com dificuldade, a minha presença física, refletindo se no meu rosto a perda da minha alma”. “Sou apenas um nome, o meu nome. Estou irreconhecível. Sinto-me perdida.”

E assim Amália sentou-se na sua secretária e escreveu
“Flor de Lis”
“Chamem por mim baixinho...
Digam o meu nome devagarinho
Estendam um braço e depois o outro
Envolvam me num só abraço
Chamem por mim baixinho
Encostem vossas bocas no meu ouvido
Para que as palavras não se percam e cheguem dentro do mim
Chamem por mim baixinho...

Para não acordar as lembranças
Para não avivar as destemperanças
Chamem por mim baixinho...
Deixem me adormecer junto a vos
Sonhar , feliz, que estão aí e
Aqui, no enlevo da quentura
Chamem por mim devagarinho...
Para que o momento perdure
Continue como um sopro mágico
Chamem por mim baixinho...
Agarrem me pelo eco do meu nome
Não me deixem cair
Chamem por mim devagarinho...
Façam laços de ternura
Prendam com um nó cego a amargura
Chamem por mim baixinho...”

Encolheu-se. Fez se muito pequena, ao abraçar os joelhos contra o peito, como gostava de estar no seu quadrado preto.
Fechou os olhos.
E esperou.

Escritos por mim ( Ana Paula) 2024

03/02/2024

“Hora A de divorciada”
Foi há oito anos. O rótulo foi lhe dado. “Divorciada”, assim constava.
Ele, o parceiro, também havia desaparecido há muitos anos, “pareciam muitos anos”, assim Amália pensava, mais concretamente “há oito anos”.
“É precisamente o tempo que durmo a ocupar um lado da cama. E há oito anos escolhi passar a dormir no lado dele, o lado de cá. Porque será? Abandonei o meu, o lado de lá. Custa-me recordar o tempo em que dormia do lado de lá.” Amália assim refletia, num pensamento retrospetivo.
Continuou na sua análise.
“Dormir do lado de cá já me é familiar mas, ainda, um tanto estranho. Ajudou me a reinventar, talvez. Um novo ser, e reinventei me como mulher, mae, filha e adotei o estereótipo de divorciada.” Concluiu para si “Só não consegui como esposa, pois havia deixado de o ser”.
Os espaços vazios foram assim adquirindo formas, outras formas diferentes, outras indumentárias.
Amália continuava a pensar.
“Passei também a vestir- me como executiva. O sucesso da vestimenta, que aceitei com compaixão.” Na altura, fiquei incrédula. Não sabia ser capaz”.

“Toda a mulher divorciada f**a estilhaçada”.
Pensava Amalia. “E assim f**a também o amor.” “Por tudo e por todos. Não sentir nada por ninguém”, assim ela vaticinava. “Não contem mais comigo”. E Amália criou para si a expressão legitima do “não amar”, reflexo do estilhaço, da vidraça partida.
E recordou uma fatalidade.
Num dia, talvez um dia outonal, conduzia o seu carro devagar, por estradas secundárias que passou a usar para mais tempo poder chorar e gritar e ninguém o testemunhar.
Dava voltas e mais voltas, e sentia na condução do carro a oportunidade única de o poder girar, voltar, rebolar, acidentar.
Sentia Amalia, nesses terríveis momentos, que começava a desaparecer. A esvair-se numa espiral, como se estivesse num carrossel, numa roda gigante, de grande velocidade, em feira popular. A roleta da vida. É só quando lhe restava apenas o murmúrio, tal o desespero do soluçar e da falta de ar na garganta, quase com os sentidos perdidos, parava o carro… e nesse dia, no tal dia outonal, começou a dedilhar:

“A Roleta na Vida”
Amigos!
Não quero likes nem dislikes
Nem beijos nem abraços
Nem sorrisos nem lágrimas
Nem palavras nem sons nem vozes
Há apenas um obrigada
Pela partilha nas alegrias
Pela solidariedade nas tristezas
Pelo silêncio nas amarguras
Pelo eco na felicidade
Na roleta da vida
O tambor do revólver foi fechado e girado
A localização da bala era desconhecida
O gatilho foi puxado
E os estilhaços dispersaram!

Escritos por mim (Ana Paula)

Bondosa, fiável, crédula, divertida, imaginativa, mas sem o pudor do amar. Quem se aproximava assim pressentia a vidraça partida e a incapacidade de Amália se voltar a doar, um dia.

Escritos por Mim ( Ana Paula) 2024

01/12/2023

“Hora 4 de divorciada”
Quando Amália entrou em casa, com os olhos dilacerados fixos em nada, a funcionária aspirava, a máquina de lavar torcia e a sua filha estava sentada a tomar, talvez, o seu pequeno almoço. Ninguém tinha nada a haver com a zanga, o desejo de querer estar só, a vontade que Amália sentia de aliviar e chorar. Mas para quê, questionava-se ela “Enruga a pele, f**amos tristes, não vale a pena”. Amália lembrava-se dos conselhos dados por amigas, verdadeiras amigas, quando torrencialmente vertia lágrimas após a separação, até à exaustão. Tinha em consideração um conselho que lhe havia sido dado: “Nada vale a pena quando a alma é pequena”. Lema que Amália trazia consigo, a ocupar o espaço vazio gerado pela identif**ação da potencial traição através de um post do facebook. O espaço reservado ao amor, que se julgava fiel, era agora fel. Um espaço amargo, nauseabundo.
A resolução de Amália escrever todas as horas e minutos da experiência que estava a viver tinha surgido momentos antes de entrar em tribunal, com a calma aparente de quem inicia um projecto e que requeria cuidado, mestria e valentia.
E assim, imediatamente após a entrada em casa e os cumprimentos de circunstância, sentou-se a redigir um texto, capaz de a ajudar a extravasar a sua emoção, a vontade de gritar, de correr, de se libertar da roupa e poder entrar no mar e afundar, …, ou num morno e pequeno rio, ou em piscina azulada, talvez de água quente. Necessitava de sentir a macieza da agua na sua dilacerada pele.
E escreveu assim Amália:
“Atirei-me borda fora da minha vida. Passei a contar e a fazer parte da carga humana arrumada e encostada e a beneficiar de anti depressivos.
Estou acantonada numa personagem ficcionada, constituída como mais uma anónima sem um tempo e sem um lugar”
E continuou:
“Bordas ... da vida”
Na borda ... da cama, deito
Na borda ... da loucura, grito
Na borda ... do sonho, fantasio
Na borda ... da vida, resigno
Na borda ... do pensar, vacilo
Na borda ... do confessionário, perdoo
Na borda ... do medo, subtraio
Na borda ... da família, recolho
Na borda ... do amor, amo
Na borda ... do olhar, acostumo
Na borda ... da traição, amaldiçoo
Na borda ... do abismo, lanço
Na borda ... do trabalho, afadigo
Na borda ... da dor, silencio
Na borda .... do desespero, choro
Na borda ... da paixão, pondero.
E assim,
Somamos fantasias
Subtraímos realidades
Acalmamos desgostos
Encurtamos distâncias
Amaldiçoamos realidades
Nas bordas ... da vida.

Levantou-se da cadeira e olhou ao redor.
A sua filha olhava fixamente para ela. Amália olhou nos olhos de sua filha, e encontrou neles, também, um espaço vazio.
E disse-lhe.

Escritos por Mim ( Ana Paula) 2023

08/11/2023

“Hora 5 de divorciada”

"Sobrevivente"
Emprestei-me à vida
Sou uma sobrevivente consentida
Tingida de saudades
Numa sequência de misérias escondidas
A preto e branco retidas
A sobrevivente, que a ninguém importa...em vida inquieta
De amor ter e temor de o perder
Se conjugam neste meu ser.
Escritos por Mim (Ana Paula) 2018

Amália prometeu a si mesma que o trabalho deixaria de a absorver aos sábados e domingos. Prometeu, ou melhor, jurou, com os dedos cruzados e atrás das costas, que numa próxima relação faria tudo diferente. Muito diferente…e sonhava: “Espreitaria o alaranjado poente, banharia os seus pés nas ondas do mar esparramadas na areia brilhante, ouviria os pássaros a assobiar nas madrugadas acordadas por um amor ardente, escutaria o amor embevecida pelas tonteiras jocosas proferidas”.

Há muitos dias que Amália não escreve. Andava com o pensamento entristecido porque lhe faltava a parceria masculina, o complemento da sua sexualidade. Assim sendo, sentia-se incompleta. Uma forma de atenuar as dores do desapego era sempre pegar na sua caneta mais próxima e rabiscar os apontamentos que lhe libertavam a alma. Andava zangada. Zangada com a dificuldade da vida, ou melhor, como julgava as suas circunstâncias da vida. Fazia uma semana que a sua mãe se tinha ido embora. Apesar do ocorrido ser de grande excentricidade, porque diferente, sentia que a vida não estava nas suas mãos e geria o dia a dia com imensa dificuldade e algum descontrolo.
Amália pensava frequentemente “Reconheço-me desorganizada e desorientada e hoje estou destruída. Sou nada nem ninguém.” E falava para os seus botões “Não choro para não f**ar doente, mas mantenho-me num estado dormente, com vontade de f**ar ausente e com ninguém. Não quero ser. A tristeza entranhou-me na pele e esta adquiriu o aspecto deprimido, e estou convencida de que a vida é curta e temível”.
E pegou na caneta. Amália foi escrever sobre Antenor Aparecido, o rapaz do seminário, personagem do romance que havia iniciado, chamado “Arcanja Paixão”.

Não tinha ninguém em casa. O filho do meio estava a chegar de Torres Vedras pois tinha lá ido passar o Carnaval.
“E assim ando eu, perdida ...” e escreveu

“Rasgar o passado”
"RASGAR"
Deixem me...rasgar o vento
Verter em lágrimas
A ilusão a frustração e a paixão
Deixem me...rasgar o tempo
Ecoar na imensidão
A dor o temor e o amor
Deixem me...rasgar a chuva
Aparar as lâminas afiadas geladas
De tão molhadas
Deixem me...rasgar o relento
O tom cinzento bolorento
Do desalento
Mas...
O tempo mói e corrói, não destrói
A paixão esmorece, não se esquece
A teia do silêncio engrandece, não empobrece
O hábito da solidão permanece, mas enriquece

Deixem me...rasgar a vida
encardida
Em que o cansaço da rotina dói
O gemido da desilusão entranha
A greta da tristeza cristaliza
O ruído da paixão mortif**a
A metastase do pensamento
Dissemina
Deixem me...Rasgar a dádiva da memória
Esquecer a velha e
Criar uma nova história
Voltar para o encosto do mar
Sentir o raio quente do Sol
Na verticalidade do ser
Erguer e não sucumbir
E assim renascer
Deixem me ... Rasgar
Rasgar
Até mais não poder.”

Escritos por Mim (Ana Paula) 2023

26/02/2023

“Hora y de divorciada”

“Odeio-me. Como foi possível?” Amália não conseguia reproduzir em pensamento toda a cena que havia feito, mas sabia que tinha sido certamente escabrosa. Pensava ela. Lembrava-se de sair da missa de domingo, no final do dia, com a sua mãe e de só lhe apetecer gritar. Uivar. Chorar alto. Contorcer-se. A mãe de Amália falava com muita tranquilidade, e dizia “Adoro vir a esta celebração! Transmite-me muita tranquilidade e paz. A profundidade da homília e a sabedoria transmitidas são tão raras nos dias de hoje!”. Amália estava circunspecta. Estava metida nos seus pensamentos. “Como é que a minha mãe não percebe... Estou exausta, cansada, não a consigo ouvir. Sou um vulcão prestes s explodir. Quero estar e f**ar sozinha. Mas para onde vou? Deixo a minha mãe sozinha a jantar?” Amália questionava-se. A sua mae havia estado toda a tarde na sua cozinha. Mas Amália considerava que a sua mãe não precisava de cozinhar, de arrumar a cozinha, de organizar a roupa dos seus filhos, de planear as compras, de decidir o que fazer para o almoço e jantar… Enfim, Amália sentia-se usurpada dos seus afazeres, do seu ritmo de vida, da sua organização pessoal, de tudo o que a ajudava a esquecer o seu recente divórcio. Chegaram a casa. Enquanto a mãe colocava a mesa na cozinha para jantarem, Amália decidiu arrumar uns papéis que haviam f**ado na sala de jantar. Subitamente identificou o seu dossier do divórcio em cima da mesa de jantar, ali perdido. Parou tudo o que estava a fazer e enregelou. Ficou fora de si. “Como era possível? Este dossier estava bem guardado no armário do seu quarto. Estava escondido. Quem bisbilhotou a sua vida? Quem andou a ler os seus documentos pessoais e íntimos? O seu processo de vida que lhe era tão doloroso? Num ápice de pensamento atravessou-se na mente, de imediato, a única hipótese possível. Teria sido a sua mãe. “Sim ela, com a sua curiosidade, o querer saber tudo, o continuar a querer ser mãe galinha”. “Como foi possível?”Amália chorava baixinho, numa convulsiva angústia. Nunca tinha contado nada do seu divórcio. Nem às paredes da casa. A ninguém. Nem um único comentário. Nada. Nem uma letra, palavra ou frase. Nada. Portanto a violência da descoberta do seu dossier em local desprotegido foi por Amália considerado como um sentimento de violação do seu segredo. A raiva, a tristeza e o desespero apossaram-se de Amália. Ficou desnorteada. Perdida. Sentia que a qualquer momento teria de falar com a sua mãe . “Como se atreveu? Como pode ler o meu segredo? A exposição escrita, em papel branco, da minha infelicidade? Como foi possível ? Como?” E Amália chorava. Num ápice, com os olhos amargurados perguntou à sua mãe “Porque mexeste no meu dossier?". O canto feliz de sua mãe, de música religiosa enchia o silêncio da casa, abaixou o timbre da sua voz, e alegremente perguntou “O que dizes?". Amália respondeu, com um fogo incendiário no olhar e com avinagrada tom “Porque foste ler os meus documentos?”. A sua mãe, perplexa, questionou “Eu, que dizes? Que documentos?". “Como se não soubesses, os documentos da minha separação.” Amalia respondeu e bateu com a porta. Saiu de casa. Chorava baixinho. Agachada sobre si, gemia de dor. Sentia-se traída. Sentia-se violada no seu sentimento e invadida na sua vida diária. Após algum tempo, sem forças, regressou a casa consciente de que necessitava da sua solidão de volta. Queria f**ar sozinha. Desde que se havia separado ansiava pelo silêncio.. Ela, e o seu corpo, a sua companhia. Era o que lhe bastava. O que considerava suficiente para empurrar os fragmentos da sua vida. Amália concluiu , de novo, que queria f**ar sozinha. Disse para si ‘“A minha mãe tem que sair de minha casa. Não posso aceitar esta devassa da minha vida” Entrou e perguntou “A que horas vais embora amanhã? Queres que te leve a casa? A que horas é o autocarro ?". Tudo foi dito sem respirar, só em expiração, e sem deixar de diretamente olhar. Depois de questionar a sua mãe, aliviada, foi para o seu quarto. Já tinha dito que não queria a sua presença. Amanhã seria um novo dia. Vestiu o pijama, sentou-se na borda da cama. Recostou a cabeça no travesseiro, sob a cabeceira da cama. Repetiu Amália para si “Seria melhor assim”. Pensou novamente como teria sido possível a sua mãe ir buscar o seu dossier. O seu segredo. Como havia sido possível ter entrado no seu quarto e ter revistado as suas coisas. Inimaginável.”
Fechou os olhos. Treinou a respiração. Recapitulou os acontecimentos da semana que findava. Lembrou-se que tinha ido ao banco essa semana, lembrou-se que tinha necessitado de um documento que estava na pasta. Lembrou -se que tinha ido ao armário buscar o seu dossier. O seu segredo. Lembrou-se subitamente que o tinha deixado na sala e não o tinha arrumado. “Pois, fui eu que mexi no meu dossier’ Nas minhas coisas”. Sentiu-se perdida. Petrif**ada com a descoberta. Sentiu-se uma pessoa horrível. Um sentimento de raiva por si ia tomando forma.De repente, e no seu silêncio sentiu um barulho na casa e batida da porta da rua. A sua mãe acabava de sair de casa.
Num salto levantou-se, abriu a porta de casa e impediu que o elevador se fechasse. Em lágrimas a mãe de Amália segurava na sua mala, o computador e a sua mochila. Queria sair de sua casa, assim havia dito. Chorava e afirmava que não tinha mexido em nada. Amália acalmou-a e disse que o dia seguinte seria um bom dia para ir embora. A sua mãe disse que não. “Nem mais um minuto”. Amália disse que a levaria à estação. Não necessitaria de ir de Taxi. Mas a sua mãe não queria. “Não queres a minha presença em tua casa” disse a sua mãe. Acabou por concordar que Amália se vestisse e a levasse à estação. Nada foi dito durante a viagem. Comprou o bilhete. Faltavam 20 minutos. Mandou Amália embora.
Amália foi para o carro.
Telefonou a uma amiga e explicou sumariamente o ocorrido. Passava-se o mesmo com ela, com a sua amiga. Disse a Amalia que nos últimos tempos também evitava a mãe. Disse que talvez, “por sentir estar a f**ar mais velha”. Amália sentia o mesmo. Estava velha.
Regressou à estação.
Queria abraçar a sua mãe. A camioneta estava para partir. A sua mãe chorava. Amália estava calma. Tinha tomado ansioliticos ainda quando estava no quarto. Disse à sua mãe que precisava de espaço e tempo. A mae chorava e dizia que não tinha mexido em nada. “Não mexi no dossier”. “Eu sei”, respondeu Amália. “Depois falamos”.
Dois beijos.
Olhos baixos.
A certeza de que era o melhor para Amália.

Chegou a casa e pegou na sua pena. Escreveu:

“MÃE,
Que tens os olhos no coração
Que olhas com o compasso dos batimentos,
Amando
Que acolhes as lágrimas humanas da vida,
Sorrindo
Que libertas suspiros profundos de amor,
Aconchegando...

MÃE,
Que tens a tua boca nas tuas mãos
Que falas com os dedos,
Afagando
Que ocultas sobressaltos e temores,
Rezando
Que afogas as feridas profundas
Silenciando...

MÃE,
Que tens os teus ouvidos no teu ventre,
Que acolhes os movimentos corporais,
Escutando
Que Albergas o murmúrio germinado,
Louvando
Que te inquietas com os segredos partilhados,
Cantando...

MÃE,
A correnteza da vida
Arrasta-nos afasta-nos...
Mas,
Tu és a âncora em nossas vidas
A sagacidade a bondade a fortaleza
A resiliência a tenacidade a humildade,
Vêm de ti!!
Obrigada Mãe!”

Amália inclinou-se. Encostou a testa no tampo frio da secretária.
As histórias guardam se no coração. Boas ou más, umas doces e outras salgadas, registam-se na gélida frieza do preto e branco do papel e da tinta. Amália entristecida, de novo chorou.

Escritos por mim (AnaPaula) 2023

11/02/2023

“Hora 3 de divorciada”

Regressou ao consultório.
A advogada pretendia saber se havia compreendido o acordo de alimentos, a gestão dos menores, a partilha conjunta das despesas de educação e saúde, a divisão dos bens comuns e a entrega recíproca dos bens pessoais. Amália nada havia lido, relido ou compreendido. Não conseguia pensar. Não raciocinava. Como se nada fizesse sentido.
Ansiosa, queria sair dali. Faltava - lhe o ar. Fitava o nada. Uma ruína.
Os olhos pequeninos, chorados, mal abriam.
Perdida em si, recordava um momento conjunto ocorrido, num passado muito recente, com todos os intervenientes do processo do seu divórcio, para o reconhecimento das assinaturas. E nessa conversa informal falaram em ricos, muito ricos, pobres, remediados e outros desgraçados. E Amália, naquele preciso momento em que se mostrava que continuava distraída, pensou em como gostaria de saber argumentar em conversas de mais valias, de saber discutir valores patrimoniais, de ser capaz e ter a sabedoria de investir milhões, enfim, resumindo, como gostaria de ser rica, muito rica, apessoada de verbos como o ter, o haver e o saber, num outro qualquer dia futuro.
Para isso, bastaria conseguir valer a sua pena e enriquecer. “Deus colocou
-me nas mãos o gosto pela escrita, esta capacidade de escrever, de colocar no papel o que me vai na alma, sem hesitação. Registar histórias de amor, com um final feliz. Mas terei eu talento? Terei eu a convicção suficiente? Será que devo assumir este desiderato como uma batalha, ou melhor, tal como uma guerra, com o esforço do sangue, lágrimas e suor?” questionou-se. E assim traduzia, por esta ordem, a cronologia do seu pensamento: com o sangue da dor, as lágrimas da tristeza e o suor transpirado da angústia do medo. Mas também a esperança do Amor. “Muitas mulheres, homens, prostrados, zangados, endividados e arreliados da vida leriam e escutariam a voz da minha palavra escrita. Enredos felizes! Com respeito”.
E assim, imaginou Amália, num sonho abrangente, que poderia potencialmente nascer mais uma escritora, uma fecunda escritora, com pilhas de livros no escaparate dos centros comerciais e livrarias de rua … .
Rematou assim o encanto do seu pensar “e um dia seria a bilionária das novelas rosas”, “tal como Corin Tellado”. Amália assim havia pensado, naquele breve momento, com a alma no coração de Deus, mas sem os pés assentes na terra….num futuro que não existia, que talvez nunca iria existir, num tempo em que o seu Eu não sabia que forma tomaria….

“Os tempos do EU”

O Eu, de ontem
Elétrico, molhado e desenfreado
Bradou obscenidades em leito de grande fervor
Ritmou o tempo, esse tempo, com o movimento corporal
Gracejou pragas e odes ao Amor.

O Eu, de hoje
Que habita o corpo aonde moro
Caminha indiferente
Num rumo ainda quente, que o Amor amansou ...
Assiste ao nascer, ao viver
Ao sofrer, ao morrer
Ao Empobrecer e ao enriquecer
Não liga ao tempo, esse tempo,
Pois herdou o Eu de ontem, mas já de ninguém
Que o tempo, este tempo, usurpou e assim, sem delongas, o apagou ...”

E assim, ouviu uma voz chamar por si.
Viu, de novo, a advogada, que gentilmente a chamava. Ela havia notado que os olhos de Amália eram vagos, baços e estariam repousados em um outro lugar, que não no tempo manso e agradável do seu escritório.
Fingiu estar bem. Encolheu os ombros, assumindo a resignação.
Despediu-se.
Rendida.
Com medo e abatida. Desolada.
“50 anos de idade. Meio século de existência. Talvez a meio do caminho…”pensou Amália.
Entrou no elevador, ainda daqueles antigos, com as portas de grade de ferro, que emitem um ruído gemido, arrastado, e que quando apanham um grão de areia emitem um som felino, que faz estremecer os dentes…e chega ao chão, ao rés do chão,
Pôs-se de novo na sola do mundo, um mundo de pedras milenares. Aquela companhia firme, robusta, que nos olha e acolhe todos os dias sem julgar, não se queixa e está sempre no seu lugar. “Mas eu sou a ruína de ninguém”.
Dirigiu se ao carro e na viagem de volta para casa iniciou chamadas telefónicas de ocasião. O recurso maquinal à tecnologia, através da qual se mantém o contacto social e não transparece o nervosismo, a expressão facial, a dor de alma. Um distrair para espantar a tristeza cravada no coração. Aborda-se o tempo, o sucesso dos filhos, o trânsito, o trabalho. Conversas que não lhe violavam a carapaça em que havia colocado o seu íntimo, o coração.
Mas sentia-se esvaziada. Cansada. Perdida.
Como se tivesse sido agredida com um bastão mas sem um arranhão, sem uma qualquer física agressão, sem nódoas negras, sem perda hemorrágica de sangue, sem cabelos repuxados…mas aquele sentir de uma violência brutal e sem qualquer digital impressão.

Era um problema de alma.
Alma que grita sem emitir um único som audível, numa mudez que comove. Alma que esperneia sem mexer um único músculo, aquietada em quadrado preto. Era o que queria no momento. Um quadrado preto.

“Quadrado preto”

“Quero um quadrado escuro, preto
Quero um quadrado sem cheiro, sem som e sem cor
mas macio
Quero ir lá para dentro

Quieta

Quero que me deixem gritar
Que me anestesie com a dor do grito
E depois
Que se perfurem os meus ouvidos
Que rompa o sangue pelo meu nariz
Que se desfaçam os meus olhos
Que a minha boca permita que o grito não se cale

Deixem me assim muito tempo
O tempo suficiente para me desfazer
Primeiro as mãos
Depois os pés
Lentifiquem a perda das pernas e dos braços
Mas desfaçam-me as vísceras, órgãos e tecidos
Que se transformem em pó ou
Que se transformem em líquido espesso
Desfaçam-me toda a pele,
Desvitalizem o cabelo, as sobrancelhas e as pestanas

Deixem me apenas o esqueleto
As ligações e articulações

E o amor.

Porque o amor recompõe. O amor cura. O amor vence.
E assim conseguirei calar a voz e o a dor do grito

Recompõe se a linguagem
E começamos a falar. Falamos muito. Semeamos palavras em torno dos ossos. Utilizamos vogais e consoantes para forrar os tecidos. Criamos novamente músculo, complexas frases escritas que repõem as vísceras.
Textos longos, descritivos, que nos devolvem a face, os olhos, a boca, os ouvidos.
Construímos páginas e capítulos e escrevemos livros que preenchem os espaços deixados em branco.

Moldamos novamente o ser.
Damos vida e gosto aos sentimentos e emoções.
Criamos bibliotecas inteiras de viagens, cultura, romance, história e amizade.
Reconstruímos nova memória!

E o quadrado preto, sem som e cheiro, já não é suficiente para tudo isto. Estala quebra … e entorna-nos para a vida!

Verte-nos para o espaço aonde seremos novamente mais um qualquer
Um ...anônimo, um andante, um circulante.
Até que nos coloquemos outra vez num quadrado preto, muito pequeno, sem som nem cheiro.
E desfazemo-nos outra vez pelo grito lancinante da dor.”

Chegou a casa. Estacionou. E agora?
Olhou pelo retrovisor.

Recompôs-se: beliscou a face para lhe dar cor, elevou com a mão fria as pálpebras caídas para abrir o olho chorado, passou o batom nos lábios entristecidos para os avermelhar e massajou as pernas inamovíveis para sair do carro e andar.

Colocou a sua chave na porta de casa para entrar.

Escritos por mim (Ana Paula) 2023

29/01/2023

“Hora X de divorciada”

“Como não f**ar feliz? “ Amália sorria, ainda sem acreditar.
Distraída, enquanto rolava o rato do computador sobre alguns dos emails em caixa de correio por abrir, surgiu subitamente um email que lhe chamou a atenção pelo seu remetente. De imediato o abriu, e em anexo estava um convite para um evento. Ficou tão feliz, que demorou algum tempo a focar o email, e várias vezes o abriu e fechou, pensando que seria uma ilusão de óptica.
A sua imediata prioridade do pensamento foi em como se apresentar: “Bem vestida, normal ou a dar nas vistas?” Embora a ultima opção não fosse o seu forte, ou seja, uma sua característica inata, sentiu uma necessidade de se equivaler a tantas outras, que já havia visto por perto. Perto dele, claro. Reconsiderou, e assumiu que talvez num figurino sóbrio, mas num traço diferente, seria uma boa opção.
Nessa noite, a insónia regressou, mas associada a uma sensação de excitação, de novidade, talvez de felicidade “Seria?” questionou ela, já deitada, com uma latente boa disposição e um bem estar físico. A cerimónia estava agendada para o dia seguinte, pelo final da tarde. Quando acordou assaltou- lhe a dúvida: “Não deveria ir. Seria pior para ela.” Vê-lo, falar com ele sem, sentir a distância que existia entre ambos, poderia ser catastrófico para ela. Amália andava a desenvolver um trabalho mental de progressivamente se afastar dele.
Dadas as dúvidas matinais, telefonou a uma amiga que a incentivou e animou. Reforçou a ida.
“Deves ir ao evento. Sozinha”, assim lhe havia dito a amiga.
E após esta conversa, iniciou um trabalho mental de como reagir e de como estar. Uma excitação latente, pela circunstância de o ir ver.
Pela primeira vez calçou uma bota com um salto de 12 cm, calça justa de pele e camisola larga, ambas as peças de cor preta. Colocou um pequeno fio dourado ao pescoço. Acrescentou um casaco comprido cinzento claro, optou pela sua carteira Chanel e colocou uns brincos de ouro, muito antigos. Sentiu-se bem, feminina.
Iniciou a viagem de carro, tendo dado instruções para o jantar de seus filhos.
Acautelou um encontro com uma amiga, prévio à entrada no evento, por forma a aliviar a tensão. Após uma longa conversa, que decorreu sempre em torno dele, decidiu aproximar-se do local do evento, pois as horas marcadas no convite aproximavam-se. Na zona envolvente, nada se notava, nenhum movimento transcendente era registado.
Por várias vezes releu o convite, quer as horas quer o local…não fosse ser para o dia seguinte, e não estar “conscientemente” a interpretar de acordo com o escrito.
Pediu ajuda à amiga e confirmou a hora e local e alguns minutos depois da hora prevista no convite, decidiu-se a ir e a tocar na porta.
Esta foi aberta, permitiram- lhe a entrada e indicaram- lhe a cave, local aonde já decorria o evento. “Como era possível já ter iniciado? Passavam apenas 2 minutos da hora registada no convite…” pensou. Mas desceu e calmamente entrou na sala, aonde de imediato o viu, e assim acenou e cumprimentou à distância.
O ar dele de estupefacção e admiração foi evidente, sendo que também Amália lhe denotou alguma desorientação. Ele aproximou-se. Cumprimentou com um sorriso curto, e dois beijos secos. Apresentou à Amália o seu irmão e um familiar próximo. Nesta cena de conversa de ocasião e azáfama de cumprimentos, ela, a outra, entrou. E Amália tremeu. Ela surgiu de uma forma feliz e com um jeito simples e agradável. Foi cumprimentada por todos os familiares e amigos.
Amália sentiu-se uma outsider. Sentiu-se uma espia. Precisava de uma jangada para não afundar. Estava sozinha, não conhecia ninguém. Só a ele.
E eles, ela, a outra e ele, sorriam e enfrentavam em conjunto os cumprimentos de quem ia chegando.
Não quis mais ver o cenário que se desenvolvia na sala. Agarrou-se a uma pessoa que lhe havia sido apresentada e sugeriu que com ela apreciasse e discutisse a arte. Fizeram-no demoradamente, os dois, com algumas análises e comentários relevantes. Também ficou impressionada com o saber apreciar da beleza de quem a acompanhava. Logo no inicio, aquando dos cumprimentos, havia solicitado uma taça de champanhe por forma a mergulhar os seus medos e receios e a não os deixar sobreviver e nem sequer aparecer.
Ela, a outra, havia-se cruzado várias vezes com Amália, dada a exiguidade do espaço em que se circulava, mas ela, a outra, não tinha merecido da sua parte qualquer olhar acolhedor. “Claro, mas por que raio de razão o iria eu fazer?” Ela era o motivo do sofrimento continuo de Amália.
Tivera oportunidade de estabelecer com ele alguma conversa fortuita, tendo f**ado a saber, por exemplo, que ele havia feito o discurso de abertura do evento, ainda antes da hora marcada… Assim, mais nada de relevante aconteceu, à exceção do episódio de troca de opiniões sobre outras formas de arte. Foram minutos de conversa agradável. Uns momentos antes tinha-a convidado para jantar com ele e sua família. Claro que Amália deduziu no imediato que ela, a outra, também estaria. “Não posso aceitar imiscuir-me num familiaridade tão quente”, pensou para si. Amália deu por finalizada a sua presença no evento. Teria de se despedir pois só queria era mesmo dali fugir.
Eis senão quando, na despedida, ele referiu querer apresentar-lhe uma pessoa. Amália gelou. “E agora, para finalizar, uma bendita apresentação para me derrotar, num evento no qual nunca deveria estar” pensou Amália e, em simultâneo esparramou um sorriso, pois outra opção a poderia denunciar. Mas o que ela verdadeiramente queria era poder chorar.
“Teria sido este encontro por ela, a outra, premeditado?”, questionou-se.
Ela, a outra, aproximou-se.
Mais um riso por Amália vertido, e surgiu uma pergunta com uma voz doce e afável, por ela, a outra, dito:”Já nos conhecemos? Penso que há uns anos atrás nos encontrámos… estava acompanhada pelo seu marido, num outro evento que organizámos”.
Amália azedou. O momento esfriou. E Amália questionou: “O meu ex-marido?”
Um sorriso varreu-lhe os lábios, de pena talvez. “Havia ela, a outra, de pagá-las” assim Amália pensou. Não esperou muito, e agarrando-se ao braço dele, em atitude de grande confiança, rematou que não poderia ter faltado a este seu evento, tão importante para ele, e desejou-lhe o maior sucesso. E olhando de soslaio para eles os dois, agradeceu e despediu-se, num momento que a marcaria, certamente para sempre.
Na viagem de regresso chorou, e com mais ninguém falou.
Apenas 30 minutos depois de abandonar o local, e com lágrimas múltiplas, emergentes em olhos entristecidos, ele enviou uma mensagem SMS a agradecer a ida de Amália e a referir que ela estava muito bonita,
Parou o carro. Olhou para a lua cheia, que lhe sorria.
Chorou copiosamente.
Era uma viajante perdida…

”VIAJANTE”
Sou viajante,
ausento me do tempo
Sem posses, ou qualquer outro haver
Apenas possuo as horas viajadas de meu olhar
Guardiães do meu fotografar
E na minha história de viagem
Se cruza, o encontrar...
Cruzo serras, vales lagos e montanhas
Com amuleto e talismã no peito
Numa viagem de dias, sempre a girar
Dia-noite, noite-dia
Sem nunca dormitar,
Parto sem destino, não aviso ao chegar...
Sou viajante,
Percorro distâncias, sem afectos a me encostar
Empurra me o vento,
Não tenho nome para amansar
Nem serei virgem a desflorar...
A minha herança são as imagens retidas
Espiadas pelo sentir sanguíneo do amar
Guardado nas cavidades quentes do coração...
A rosa silvestre e orvalhada em meu cabelo,
Perfuma e adoça a minha vida, afastando o infortúnio e a maldição.
Sou viajante,
Sem castelo ou palácio para morar...
na gavetinha da memória,
guardo o que pretendo doar”

Dois dias depois, Amália fez uma análise fria ao ocorrido: o convite enviado seria apenas para que Amália soubesse do evento e não haveria qualquer intenção de a desejar ver presente.
“Errei ao ir, ao estar, ao pactuar mais uma vez com a minha necessidade de me sentir feliz, por um breve instante”. Assim registou Amália nas suas notas escritas.

Escritos por Mim (Ana Paula) 2023

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