05/09/2026
Antes de dormir
A mãe já estava no quarto.
O pai vinha atrás, cansado, desligando as luzes pelo caminho.
Antes de entrar, parou na sala e olhou para a televisão.
— Depois desliga a televisão.
— Tá bem, pai. Vai descansar.
— E fecha a porta da cozinha depois.
— Tá bem.
O pai deu mais dois passos.
— E vê se amanhã compras pão. Hoje acabou.
— Eu compro.
Do quarto, a mãe gritou:
— Ei!
— O quê? — respondeu o pai.
— Não esquece de ligar para a tua irmã amanhã. Ela pediu para falares com ela.
— Ah, é verdade. Vou ligar.
— E vê se pagas aquela conta de manhã.
— Qual delas?
— A da luz.
— Tá bem.
— E não esquece de pôr o lixo para fora.
— Eu sei.
— Estou só a lembrar.
— Eu sei, mulher.
Houve um pequeno silêncio.
Então o pai, já deitado, falou:
— E amanhã acorda cedo.
— Para quê?
— Para levar a menina à escola.
— Ah… sim.
— E depois passa no mercado.
— Tá bem.
A mãe respirou fundo.
— E não esquece de comprar o remédio da tua mãe.
— Eu não vou esquecer.
— Você sempre diz isso.
O pai riu baixinho.
— Amanhã eu compro.
— Está bem.
Silêncio.
A televisão continuava ligada na sala.
A casa, aos poucos, foi ficando quieta.
— Boa noite, mãe.
— Boa noite.
— Boa noite, pai.
— Boa noite, filho.
E foi só isso.
Uma conversa pequena.
Tão pequena que ninguém pensou em guardá-la.
Ninguém tirou uma fotografia.
Ninguém percebeu que aquele “boa noite” era uma coisa rara.
Porque naquela noite ninguém sabia que algumas conversas não parecem importantes quando acontecem.
Só se tornam importantes quando deixam de acontecer.
Talvez seja isso que mais assuste na vida.
A gente passa anos querendo viver momentos extraordinários, esperando grandes acontecimentos, viagens, festas, conquistas, declarações…
E não percebe que a vida está acontecendo justamente ali.
No pai dizendo:
“Depois desliga a televisão.”
Na mãe gritando do quarto:
“Não esquece de comprar o pão.”
No filho respondendo:
“Tá bem.”
Na porta que se fecha.
Na luz que se apaga.
Na voz de alguém dizendo:
“Boa noite.”
A gente acha que vai lembrar dessas coisas para sempre.
Mas não lembra.
Porque enquanto estamos vivendo, parecem apenas rotina.
E a rotina é uma das coisas mais perigosas que existem.
Ela faz a presença parecer garantida.
Faz a voz parecer eterna.
Faz aquele quarto parecer que estará sempre ali.
Faz a gente pensar:
“Amanhã eu respondo.”
“Amanhã eu ligo.”
“Amanhã eu fico mais um pouco.”
“Amanhã eu digo que amo.”
Só que ninguém nos conta qual será o último “amanhã”.
Talvez, naquela noite, o pai tenha dito “boa noite” sem saber que um dia alguém sentiria falta daquela voz.
Talvez a mãe tenha repetido pela décima vez:
“Não esquece.”
Sem saber que, anos depois, alguém daria tudo para ouvir novamente aquela mesma frase.
E talvez o filho tenha respondido:
“Tá bem, pai.”
Sem imaginar que um dia essa seria uma das frases que mais gostaria de poder repetir.
Porque no fim…
Não são os grandes momentos que mais doem quando desaparecem.
São os pequenos.
A cadeira vazia.
O prato que ninguém mais usa.
A televisão desligada cedo demais.
O quarto que permanece arrumado.
O silêncio onde antes existia alguém reclamando:
“Não esquece disso.”
“Faz aquilo.”
“Fecha a porta.”
“Compra o pão.”
“Liga amanhã.”
E então percebemos, tarde demais, que aquelas cobranças nunca foram apenas cobranças.
Eram formas de dizer:
“Eu preciso de ti por perto.”
Eram formas desajeitadas de amor.
Talvez por isso, naquela noite, ninguém tenha percebido nada.
A mãe estava no quarto.
O pai estava cansado.
O filho estava na sala.
A televisão estava ligada.
E a vida…
A vida estava acontecendo.
Como acontece quase sempre.
Sem música.
Sem aviso.
Sem ninguém perceber que, enquanto todos diziam “boa noite”, estavam, sem saber, despedindo-se de uma parte da vida que nunca mais voltaria.
____ Último Poeta