05/06/2026
COMANDANTE ONAMBWÉ:
En el Silencio tenía que ser - Francisco Helena
Luanda - Há um particular ódio por um lado e por outro um alívio com a morte do General Henrique de Carvalho Santos, Onambwé, o nosso conhecido Comandante Onambwé. O ódio e satisfação de sua morte é decorrente de ter sido ele, que dirigiu todo o processo que derrotou os intentos golpistas dos insurgentes do 27 de Maio de 1977. Ele próprio apanhado de surpresa, responsável dos serviços secretos pela área de informação e análise, só foram com o os tiros que de madrugada desse dia, que foi possível de se perceber que estava em curso uma insurgência que realmente se previa, mas não na dimensão, arrojo e alcance como se verificou.
Traição mesmo no interior dos serviços secretos, permitiu que os insurgentes soubessem de todo o movimento preparado para neutralização da acção dos insurgentes que passaria pela prisão domiciliar em Viana dos seus principais líderes.
E assim os insurgentes partiram para a realização do golpe, com o ataque à cadeia de São Paulo, a tomada da Rádio Nacional, a colocação de postos de controlo em vários locais da cidade de luanda em especial do centro da cidade, a mobilização da população nos bairros e desvio da mesma para uma pseudo manifestação no palácio com o acompanhamento da tropa insurgente.
Essa irresponsabilidade dos insurgentes na mobilização da população para a manifestação e na orientação dos efectivos militares (cumprimento do princípio da ordem militar é para ser cumprida) para saírem armados das unidades levou que milhares de inocentes fossem levados à esses actos sem saberem os propósitos escondidos para tal. Isso não se faz.
Ataques a residências de dirigentes do MPLA opostos aos desígnios dos insurgentes, suas detenções e fuzilamento constavam numa lista.
E assim a residência do Comandante Onambwé é uma das atacadas a tiro, numa altura que ele tinha retirado antes a sua família para uma outra casa no bairro do Alvalade e ido imediatamente se apresentar na sede dos serviços secretos e depois para o Ministério da Defesa onde já lá estava atónito com a situação, o camarada João Luís Neto ´´Xietu´´, então Chefe do estado-maior das FAPLA.
Alguns Comandantes (era essa a designação naltura dos mais altos postos militares) estavam entrincheirados no Ministério da Defesa, para responderem ao possível ataque.
Ausentes do país estavam o Director dos Serviços Secretos (Ludy Kissassunda) e o Comandante da 9ª brigada (Comandante Ndalu). A 9ª brigada era a maior e melhor unidade militar das FAPLA e foi essa mesma unidade militar usada para se insurgir e tomar o poder.
Comandante Xietu e Onambwé avaliaram a situação e perceberam imediatamente que alguns dos principais responsáveis militares das FAPLA não tinham aparecido no Ministério da Defesa e sabendo da existência de constróis montados pelos insurretos temeram pelo pior.
Põem ao corrente por telefone ao Presidente Agostinho Neto, o que estava a ocorrer e então é dada ao Comandante Onambwé a responsabilidade de repor a normalidade, começando por retomar a Rádio Nacional e depois a 9ª brigada. Outras medidas foram tomadas a maior das quais foi no domínio das comunicações.
Foram essas instruções que os dois responsáveis máximos disponíveis receberam do Presidente Agostinho Neto. Repor a normalidade.
A mudança do código das cifras foi decisiva pois impediu os insurgentes de acompanharem os movimentos dos efectivos afectos ao Governo que até aquela altura fora bem sucedida e permitiu a localização e prisão pelos insurgentes de importantes figuras do governo e das FAPLA que mais tarde apareceram mortas, menos o Comandante Petroff naltura comandante da policia que fugiu há tempo por uma acção de resgate.
Não foi bem sucedida a operação dos insurgentes de aprisionarem os cifradores das FAPLA. Agradeça-se ao Além.
Houve um pequeno compasso de espera para se perceber do posicionamento das tropas cubanas já que se sabia claramente da posição dos soviéticos (os serviços secretos sabiam dos encontros que os insurgentes mantinham na embaixada da União Soviética). Foram feitos telefonemas aos cubanos que responderam que aguardavam também pronunciamentos de Cuba e perante isso, o comandante Onambwé disse em voz alta: con o sin cubanos nosotros vamos.
E assim subiu para dentro do brdm e com outros brdm´s partiu para repor a normalidade sob orientação do Presidente Agostinho Neto e direcção operacional do Comandante Xietu. Foi á ele que foi incumbida a missão de repor a normalidade num plano já elaborado pelos 2.
Há um dos insurgentes ainda em vida que diz que teve na mira de sua arma, o Comandante Onambwé e esta arrependido de não o ter feito. Vejam só a estirpe da mentira. Podia ter acontecido, mas lhe aconteceria o mesmo que aconteceu quando um grupo de militares insurgentes disparou contra a coluna.
É esse seu papel nesses acontecimentos que doravante sua pessoa se tornará odiada, pois foi ele que iniciou a conduzir todo o processo de normalização da situação, com a retomada da Rádio Nacional, o assalto e retomada da 9ª brigada, a recaptura da cadeia de são Paulo e outras acções.
Os insurgentes naltura pavoneavam em toda a cidade, exibindo o sinal de vitória com os dedos, com sirenes e buzinas a tocarem em sinal de vitória e de satisfação sem saberem o que tinha sido preparado em resposta. (Por isso que se tenha juízo quando se tentar tomar o poder pela força, porque se falha?..).
Nesse percurso de retomada da normalidade ocorreram alguns factos curiosos e que só a história se encarregará de um dia de as desbravar e de as desvendar, pois o Comandante Onambwé e o Comandante Ludy guardaram e assumiram para si tudo o que aconteceu, nem justificando, nem negando e muito menos nem apontando o dedo quem foi que fez ou orientou.
Nunca! En el silencio tenia que ser.
Porquê que a insurgência foi tao longe com sangue e mortes, todas as acusações, a derrapagem que logo se seguiu na normalização da situação, o processo para se desvendar os meandros da insurgência e as medidas judiciais que foram tomadas sobre as pessoas tidas como participes na insurgência, sobre todos esses factos, nunca o Comandante Onambwé falou.
Pelo contrário assumiu em silêncio tudo que sobre si se dizia, uns por ódio pois ele é que comandou as unidades que frustraram a insurgência e outros por alivio que o seu silêncio representava para eles no sentido de nunca serem conhecidos os seus engajamentos como participes nessa insurgência sangrenta e mortal.
En el silencio tenia que ser.
Extinta em 1979 a DISA em pleno comício, a sua vida correu riscos, pelo ódio exacerbado especialmente dos derrotados. Sua vida correu riscos por causa do conhecimento que tinha de todo o processo da insurgência e de autores que nunca tinham sido indicados.
Hoje um corajoso académico veio dar a conhecer que Henrique Santos Onambwé é o arauto da criação da faculdade de direito. Contrassenso? Ironia do destino? Então o quê? O afamado de assassino, de sicário está por detrás da criação da faculdade que impede precisamente a existência de pessoas com esses adjectivos?
O MPLA e a história deverá se encarregar de estudar esse fenómeno militante chamado Henrique de Carvalho Santos Onambwé.
Foi ele que sob a direcção do Presidente Agostinho Neto, conduziu pessoalmente todo o processo para a vinda das tropas Cubanas para Angola em socorro de nossa Angola contra a sua balcanização e invadida pelos exércitos da África do Sul e do Zaire (actual Congo Democrático).
Foi ele que pessoalmente dirigiu toda a arquitetura desde os contactos com o Comandante Fidel de Castro, a organização dos lugares para recepção e acomodação secreta em Luanda dos militares cubanos sem as autoridades coloniais portuguesas perceberem.
Foi ele que organizou ainda antes da independência a ida secreta para a Cuba e a partir de Luanda e Benguela, dos militares das Fapla que formariam depois o embrião dos serviços secretos e das dos distintos ramos das forças armadas.
Foi ele que junto do partido comunista português, dirigiu o processo que contou com o internacionalismo de alguns de seus militantes na criação de unidades especiais de luta contra a guerrilha urbana, de minas e de sabotagem das FAPLA.
Foi ele pessoalmente que dirigiu o processo da criação da bandeira, do hino e da insígnia da nossa república. È ele que sabe o segredo real do significado das imagens do algodão, milho e café na insígnia (o presidente Agostinho Neto mandara pôr o milho, que não constava na insígnia inicial).
É o cérebro da criação da DISA.
Portanto foi ele que dirigiu o processo no terreno que estragou a festa anunciada do 27 de Maio. Dai um particular imperdão, ódio e alívio de uns tantos bem conhecidos na sua pessoa.
Mais tarde e já como Ministro da indústria, en el silencio tenia que ser, se manifestou novamente.
Ao ver tudo que se desenrolava, pois se iniciava a pretexto de se contornar a vigilância internacional, o maior processo de desvio de fundos para o estrangeiro e para a Suissa, foi acompanhando sem nada poder fazer como dinheiro angolano ia para fora do país concretamente na Suissa.
Eram duas, as pessoas que tratavam desse processo e do dinheiro, que saia de um dos órgãos do ministério que ele tutelava e que ele não podia intervir, para desse modo se contornar a vigilância internacional e para comprar armamento no mercado negro, peças e sobressalentes para as maquinas industriais de origem ocidental e na realização de operações de inteligência internacional, etc.
Assim se lhe justificaram quando incomodado com a situação, interpelou sobre essa situação. E assim ´´en el silencio tenia que ser´´, pois não demorou muito logo depois dessa sua manifestação de sua saída do Ministério da Indústria.
Com um dos 2 operacionais, amigos de companheiros na guerrilha imperou entre ambos um desentendimento profundo, só alterado quando anos mais tarde deram conta que tinham sido usados.
Para se manter classificada essa operação, os outros 2 operacionais também foram exonerados tarde, com a maior das torpes acusações e também correram riscos de vida não fora o início do multipartidarismo ter aparecido.
Sem sombra de dúvidas que o início do multipartidarismo impediu a continuação das perseguições politicas e esse grupo (Onambwé e os outros dois) estava nessa alçada e tudo se lhes podia acontecer). En el silencio tenia que ser.
Portando ao contrário do que uns poucos apregoam contra Henrique de Carvalho Santos ele é muito admirado e querido por ter assumido e carregado sobre si actos, acções e responsabilidades que não realizou, para o bem, para a unidade e coesão nacional.
Não criou mais problemas. Quiseram que ele fosse o problema e militantemente assumiu, com todo os riscos inerentes, porque sabia que se os revela?…
Onambwé não foi pessoa de consenso especialmente por ter servido os ideias pelos quais se embrenhou sem vacilar, sem roubar, sem se queixar e sem denunciar.
Ser membro dos serviços secretos é assim mesmo. En el silencio tiene que ser.
Desculpem ter descompartimentado algumas coisas da vida do nosso Comandante, mas era necessário existir o contraditório do que se fala.
Comunicados, expressões de condolências, expressões de reconhecimento, expressões de agradecimentos vão vindo de todos os lados agora depois de morto. Até de antigos inimigos.
Mas expressões de desculpas, de perdão por aquilo que os seus lhe fizeram, nem uma se verificou. É essa a hipocrisia da vida. Xissa!
Até quando en el siléncio tiene que ser?
Honra a memória aos heróis.
Adeus Comandante. Que tua alma descanse em paz.
FRANCISCO PASCOAL HELENA
Fonte: CLUB-K ✍️