18/07/2026
*O PISCAR - SEGUNDA PARTE*
O primeiro piscar foi um funeral. Doeu ver as coisas nas quais eu estava agarrado. Coisas que me pareciam eternas. Mas ao piscar... desapareceram. Não sei calcular o tempo. Foram 10 anos? 20? 30? Ao piscar, parece que só passaram 5 segundos.
Queria voltar...
Mas os lugares já não são os mesmos. O quintal do Sr. Manuel, o único branco que tinha aproximadamente 30 cavalos, já não existe. Nem ele, nem os cavalos. Ó que lembrança! Há quem diga que terá voltado já velhinho para Portugal, sua terra natal. O banco das histórias já não existe. Já não posso correr. Já não posso ver o António pela manhã como era de costume. Eles se mudaram, não de bairro mas de país. Viajaram para a Europa.
O primeiro piscar me tirou tudo.
Mas o segundo piscar...
O segundo piscar foi parto. Foi nascimento. Pensei que seria só tristeza. Só memória. Me enganei. O segundo piscar me trouxe robustez. Me trouxe valências. Me fez charmoso. Bonito. Vaidoso. Dá para ver nas imagens. Me fez homem. Me fez autônomo.
Me levou a lugares emblemáticos, à sítios que sozinho eu não alcançaria. Ou porque meus pais não podiam, ou porque, enquanto dependia deles, eu não podia. E isso mudou meu conceito de felicidade. Quando eu era criança, sonhava em ser adulto e independente. Achava que a felicidade morava nos adultos e que crescer era a resposta. Hoje, adulto que sou, compreendo: foi o pior sonho. Porque a felicidade é sempre felicidade, e não se adia. O que muda é o que ela nos dá pra viver.
Nestas páginas do piscar, eu sou produtor e autor do roteiro da minha vida. Sou o mano mais velho. Sou o padrinho. Sou o pai dos meus filhos. O segundo piscar me lapidou genuinamente, fez-me Vaidoso. Mas não é vaidade vazia. É vaidade porque ele me fez responsável, e isso é elegância para mim.
Afinal, o piscar não é ruim. Eu estava enganado. O piscar é a continuação da felicidade que eu jamais teria provado se não tivesse piscado. E neste piscar eu tive a graça de conhecer pessoas maravilhosas. Uma delas é a esposa maravilhosa que tenho.
O primeiro piscar tirou me a infância. O segundo me deu a elegância em forma de missão. Me deu mesa para construir. Me deu nome para honrar. Me deu raiz para deixar.
Genuinamente,
Ebo Cossengue.