26/12/2025
O MÉRITO EM ANGOLA: ENTRE O DISCURSO E A AUSÊNCIA DE OBRA
Em Angola, fala-se muito de mérito, mas pratica-se pouco a meritocracia. Invoca-se a palavra como ornamento retórico, e não como princípio estruturante da vida pública, profissional ou política. O mérito tornou-se um slogan - perdeu substância, perdeu exigência, perdeu consequência.
Criou-se uma cultura em que subir é mais importante do que saber, aparecer pesa mais do que construir e a proximidade vale mais do que a competência. O esforço silencioso foi substituído pelo marketing pessoal; a preparação sólida, pela improvisação barulhenta. Em muitos círculos, não vence quem estuda, trabalha e persevera - vence quem melhor se posiciona na fotografia do momento.
A meritocracia pressupõe percurso, disciplina, avaliação justa e reconhecimento pelo que se entrega, não pelo que se promete. Mas, num ambiente em que o apadrinhamento suplanta o mérito, o talento desmotiva-se, a mediocridade acomoda-se e a excelência emigra - quando pode -ou cala-se para sobreviver.
Há jovens brilhantes que nunca chegam porque não têm padrinho. Há quadros preparados que estagnam porque recusam bajular. Há profissionais competentes que são ultrapassados por outros menos capazes, mas mais alinhados com o jogo da conveniência. Assim se constrói um país cansado, injusto e profundamente desigual no reconhecimento do valor humano.
Quando o mérito deixa de ser critério, instala-se o ressentimento social. Trabalhar deixa de ser esperança; esforçar-se passa a ser ingenuidade. Forma-se uma geração que aprende cedo que o caminho não é estudar nem servir, mas alinhar-se, fingir, adaptar o discurso e aguardar a oportunidade certa para ocupar - não para contribuir.
A ausência de meritocracia não destrói apenas carreiras; corrói instituições. Enfraquece o Estado, fragiliza as empresas, empobrece a política e desacredita a liderança. Onde o mérito não conta, a incompetência governa e a injustiça normaliza-se.
Angola não se erguerá com atalhos. Não se transforma com discursos vazios nem com líderes fabricados à pressa. O país precisa de uma ruptura ética: valorizar quem sabe, quem faz, quem entrega resultados, quem aceita ser avaliado e responsabilizado. Precisa de devolver dignidade ao esforço, sentido ao sacrifício e honra ao trabalho bem feito.
Meritocracia não é exclusão; é justiça. Não é elitismo; é reconhecimento. Não é castigo; é consequência. Um país que não premeia o mérito condena-se a repetir os seus próprios erros.
O futuro de Angola dependerá da coragem de romper com a cultura da ocupação e reinstalar a cultura da construção. Porque, no fim, o tempo expõe tudo: quem viveu de imagem desaparece; quem viveu de obra permanece.
E a História - essa -não negocia mérito. Regista-o.
Por: Geraldo Dala