12/07/2026
𝗖𝗥𝗜́𝗧𝗜𝗖𝗢 𝗖𝗥𝗜𝗧𝗜𝗖𝗔𝗗𝗢: 𝗤𝗨𝗔𝗡𝗗𝗢 𝗔 𝗖𝗥𝗜́𝗧𝗜𝗖𝗔 𝗣𝗔𝗦𝗦𝗔 𝗔 𝗦𝗘𝗥 𝗢 𝗔𝗟𝗩𝗢 𝗗𝗔 𝗖𝗥𝗜́𝗧𝗜𝗖𝗔
A publicação de uma série de ensaios críticos por parte de 𝗔𝗻𝘁𝗼́𝗻𝗶𝗼 𝗖𝗼𝗿𝗿𝗲𝗶𝗮 "𝗙𝗼𝗳𝗮𝗿𝘁𝗲𝘀", Director da Mídiartes Comunicação, sobre os espectáculos apresentados na 11.ª Edição do 𝗖𝗶𝗿𝗰𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗜𝗻𝘁𝗲𝗿𝗻𝗮𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 (𝗖𝗜𝗧 𝟮𝟬𝟮𝟲), desencadeou um dos debates mais intensos dos últimos tempos no teatro angolano. Mais do que opiniões divergentes sobre determinadas peças, a discussão trouxe para o centro da arena uma questão há muito adiada: quem pode exercer crítica teatral e de que forma ela deve contribuir para o crescimento da arte?
O ciclo de ensaios teve início a 2 de Julho, com a análise ao espectáculo do 𝗚𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗡𝗼𝘃𝗮 𝗖𝗲𝗻𝗮, seguindo-se, a 4 de Julho, "Longe de Ser Babilónia", da 𝗖𝗼𝗺𝗽𝗮𝗻𝗵𝗶𝗮 𝗚𝗿𝗮𝗳𝗮𝗻𝗶𝗹, e, no dia seguinte, "Dona Ana Joaquina: A Rainha de Luanda", do 𝗚𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗖𝗮𝘁𝗮𝗿𝗰𝗶𝘀 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼. As primeiras publicações foram amplamente elogiadas pela abordagem técnica e pelo equilíbrio das observações, tendo sido partilhadas pelos próprios grupos analisados e por diversos profissionais da classe, que defenderam a necessidade de uma crítica artística séria como instrumento de evolução do teatro nacional.
O cenário alterou-se, porém, na sequência da publicação do ensaio crítico sobre "𝗞𝗮𝗹𝘂𝗮𝗻𝗱𝗮", do 𝗚𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗘𝘁𝘂-𝗡𝗴𝗼, apresentado na noite de 9 de Julho. No texto, divulgado na manhã seguinte, Fofartes considerou que o espectáculo ficou "muito aquém das expectativas", apontando fragilidades na dramaturgia, na encenação, na iluminação, nas interpretações e na construção do desfecho, reconhecendo como ponto mais alto da apresentação a participação do grupo carnavalesco.
A análise provocou uma forte onda de reacções entre actores, encenadores, directores e apreciadores de teatro. Para muitos, o texto ultrapassou os limites da crítica artística e assumiu um tom excessivamente severo. Outros defenderam que o desconforto provocado por uma crítica desfavorável não deve impedir a existência de uma avaliação pública das obras apresentadas.
Entre as respostas mais comentadas esteve a de Adalberto Docas, que considerou que uma crítica deve procurar equilibrar virtudes e fragilidades, contextualizar as opções artísticas e contribuir para o crescimento dos criadores, alertando para o risco de uma análise transformar-se apenas numa enumeração de defeitos.
No mesmo sentido, Rui NTeka reconheceu a importância do exercício crítico, mas defendeu que o mesmo deve ser acompanhado por sugestões concretas que ajudem os grupos a aperfeiçoar os aspectos identificados como menos conseguidos.
Já Marimba Sons questionou os fundamentos teóricos utilizados no ensaio, sustentando que a crítica teatral deve assentar em metodologias técnico-científicas e não apenas em apreciações pessoais, levantando igualmente o debate sobre a formação e a legitimidade de quem exerce crítica especializada.
A discussão ganhou nova dimensão quando o Director Agú Água publicou uma reflexão dirigida aos "auto-denominados ensaístas e críticos do teatro", apelando a uma postura mais respeitosa perante o trabalho dos colegas e advertindo para o risco de críticas excessivamente contundentes alimentarem conflitos pessoais em vez de promoverem o desenvolvimento artístico. A Directora do Grupo Etu-Ngo, Lubeck dos Santos, também se juntou ao debate, partilhando a publicação e questionando a preparação de alguns autores de críticas, insinuando ainda o recurso à Inteligência Artificial na elaboração dos textos.
Perante as reacções, António Correia manteve a sua posição. Em diversas respostas aos comentários, explicou que um ensaio crítico consiste numa análise fundamentada de uma obra, destinada a interpretar, avaliar e defender uma determinada tese através de argumentos. O responsável afirmou ainda ter comunicado previamente ao Dr. Francisco Caculo, autor da obra e fundador do Grupo, a intenção de publicar a sua apreciação, defendendo que, uma vez apresentada ao público, uma obra artística passa igualmente a pertencer ao olhar do espectador, tornando-se legítimo o exercício da crítica. Apesar da contestação, recusou retirar o texto, reiterando que o seu objectivo é contribuir para o crescimento do teatro angolano.
Para além das divergências, a polémica acabou por expor uma realidade raramente debatida no sector cultural angolano: a ausência de uma tradição consolidada de crítica teatral pública. Enquanto alguns artistas defendem que a avaliação deve acontecer em espaços reservados e num ambiente de maior proximidade entre profissionais, outros entendem que a crítica aberta, desde que fundamentada e respeitosa, constitui um instrumento indispensável para elevar a qualidade das produções e estimular o pensamento artístico.
Mais do que decidir quem tem razão, o episódio convida a uma reflexão mais ampla sobre o papel da crítica numa comunidade artística em crescimento. Uma crítica dura invalida o seu valor? O respeito exige silêncio perante as fragilidades de uma obra? Ou será precisamente o confronto de ideias, quando sustentado por argumentos e respeito mútuo, que permite amadurecer o teatro nacional?
𝗘 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝘀𝗶, 𝗮 𝗰𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗮 𝘁𝗲𝗮𝘁𝗿𝗮𝗹 𝗱𝗲𝘃𝗲 𝘀𝗲𝗿 𝗽𝘂́𝗯𝗹𝗶𝗰𝗮 𝗲 𝗳𝗿𝗼𝗻𝘁𝗮𝗹 𝗼𝘂 𝗿𝗲𝘀𝗲𝗿𝘃𝗮𝗱𝗮 𝗮𝗼𝘀 𝗯𝗮𝘀𝘁𝗶𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀?
𝑨 𝑨𝒍𝒗𝒐𝒓𝒂𝒅𝒂
𝑼𝒎 𝒆𝒔𝒑𝒂𝒄̧𝒐 𝒐𝒏𝒅𝒆 𝒐 𝑨𝒓𝒕𝒊𝒔𝒕𝒂 𝒕𝒆𝒎 𝒗𝒐𝒛 𝒆 𝒗𝒆𝒛.