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𝗖𝗥𝗜́𝗧𝗜𝗖𝗢 𝗖𝗥𝗜𝗧𝗜𝗖𝗔𝗗𝗢: 𝗤𝗨𝗔𝗡𝗗𝗢 𝗔 𝗖𝗥𝗜́𝗧𝗜𝗖𝗔 𝗣𝗔𝗦𝗦𝗔 𝗔 𝗦𝗘𝗥 𝗢 𝗔𝗟𝗩𝗢 𝗗𝗔 𝗖𝗥𝗜́𝗧𝗜𝗖𝗔A publicação de uma série de ensaios críticos por pa...
12/07/2026

𝗖𝗥𝗜́𝗧𝗜𝗖𝗢 𝗖𝗥𝗜𝗧𝗜𝗖𝗔𝗗𝗢: 𝗤𝗨𝗔𝗡𝗗𝗢 𝗔 𝗖𝗥𝗜́𝗧𝗜𝗖𝗔 𝗣𝗔𝗦𝗦𝗔 𝗔 𝗦𝗘𝗥 𝗢 𝗔𝗟𝗩𝗢 𝗗𝗔 𝗖𝗥𝗜́𝗧𝗜𝗖𝗔

A publicação de uma série de ensaios críticos por parte de 𝗔𝗻𝘁𝗼́𝗻𝗶𝗼 𝗖𝗼𝗿𝗿𝗲𝗶𝗮 "𝗙𝗼𝗳𝗮𝗿𝘁𝗲𝘀", Director da Mídiartes Comunicação, sobre os espectáculos apresentados na 11.ª Edição do 𝗖𝗶𝗿𝗰𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗜𝗻𝘁𝗲𝗿𝗻𝗮𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 (𝗖𝗜𝗧 𝟮𝟬𝟮𝟲), desencadeou um dos debates mais intensos dos últimos tempos no teatro angolano. Mais do que opiniões divergentes sobre determinadas peças, a discussão trouxe para o centro da arena uma questão há muito adiada: quem pode exercer crítica teatral e de que forma ela deve contribuir para o crescimento da arte?

O ciclo de ensaios teve início a 2 de Julho, com a análise ao espectáculo do 𝗚𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗡𝗼𝘃𝗮 𝗖𝗲𝗻𝗮, seguindo-se, a 4 de Julho, "Longe de Ser Babilónia", da 𝗖𝗼𝗺𝗽𝗮𝗻𝗵𝗶𝗮 𝗚𝗿𝗮𝗳𝗮𝗻𝗶𝗹, e, no dia seguinte, "Dona Ana Joaquina: A Rainha de Luanda", do 𝗚𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗖𝗮𝘁𝗮𝗿𝗰𝗶𝘀 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼. As primeiras publicações foram amplamente elogiadas pela abordagem técnica e pelo equilíbrio das observações, tendo sido partilhadas pelos próprios grupos analisados e por diversos profissionais da classe, que defenderam a necessidade de uma crítica artística séria como instrumento de evolução do teatro nacional.

O cenário alterou-se, porém, na sequência da publicação do ensaio crítico sobre "𝗞𝗮𝗹𝘂𝗮𝗻𝗱𝗮", do 𝗚𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗘𝘁𝘂-𝗡𝗴𝗼, apresentado na noite de 9 de Julho. No texto, divulgado na manhã seguinte, Fofartes considerou que o espectáculo ficou "muito aquém das expectativas", apontando fragilidades na dramaturgia, na encenação, na iluminação, nas interpretações e na construção do desfecho, reconhecendo como ponto mais alto da apresentação a participação do grupo carnavalesco.

A análise provocou uma forte onda de reacções entre actores, encenadores, directores e apreciadores de teatro. Para muitos, o texto ultrapassou os limites da crítica artística e assumiu um tom excessivamente severo. Outros defenderam que o desconforto provocado por uma crítica desfavorável não deve impedir a existência de uma avaliação pública das obras apresentadas.

Entre as respostas mais comentadas esteve a de Adalberto Docas, que considerou que uma crítica deve procurar equilibrar virtudes e fragilidades, contextualizar as opções artísticas e contribuir para o crescimento dos criadores, alertando para o risco de uma análise transformar-se apenas numa enumeração de defeitos.

No mesmo sentido, Rui NTeka reconheceu a importância do exercício crítico, mas defendeu que o mesmo deve ser acompanhado por sugestões concretas que ajudem os grupos a aperfeiçoar os aspectos identificados como menos conseguidos.

Já Marimba Sons questionou os fundamentos teóricos utilizados no ensaio, sustentando que a crítica teatral deve assentar em metodologias técnico-científicas e não apenas em apreciações pessoais, levantando igualmente o debate sobre a formação e a legitimidade de quem exerce crítica especializada.

A discussão ganhou nova dimensão quando o Director Agú Água publicou uma reflexão dirigida aos "auto-denominados ensaístas e críticos do teatro", apelando a uma postura mais respeitosa perante o trabalho dos colegas e advertindo para o risco de críticas excessivamente contundentes alimentarem conflitos pessoais em vez de promoverem o desenvolvimento artístico. A Directora do Grupo Etu-Ngo, Lubeck dos Santos, também se juntou ao debate, partilhando a publicação e questionando a preparação de alguns autores de críticas, insinuando ainda o recurso à Inteligência Artificial na elaboração dos textos.

Perante as reacções, António Correia manteve a sua posição. Em diversas respostas aos comentários, explicou que um ensaio crítico consiste numa análise fundamentada de uma obra, destinada a interpretar, avaliar e defender uma determinada tese através de argumentos. O responsável afirmou ainda ter comunicado previamente ao Dr. Francisco Caculo, autor da obra e fundador do Grupo, a intenção de publicar a sua apreciação, defendendo que, uma vez apresentada ao público, uma obra artística passa igualmente a pertencer ao olhar do espectador, tornando-se legítimo o exercício da crítica. Apesar da contestação, recusou retirar o texto, reiterando que o seu objectivo é contribuir para o crescimento do teatro angolano.

Para além das divergências, a polémica acabou por expor uma realidade raramente debatida no sector cultural angolano: a ausência de uma tradição consolidada de crítica teatral pública. Enquanto alguns artistas defendem que a avaliação deve acontecer em espaços reservados e num ambiente de maior proximidade entre profissionais, outros entendem que a crítica aberta, desde que fundamentada e respeitosa, constitui um instrumento indispensável para elevar a qualidade das produções e estimular o pensamento artístico.

Mais do que decidir quem tem razão, o episódio convida a uma reflexão mais ampla sobre o papel da crítica numa comunidade artística em crescimento. Uma crítica dura invalida o seu valor? O respeito exige silêncio perante as fragilidades de uma obra? Ou será precisamente o confronto de ideias, quando sustentado por argumentos e respeito mútuo, que permite amadurecer o teatro nacional?

𝗘 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝘀𝗶, 𝗮 𝗰𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗮 𝘁𝗲𝗮𝘁𝗿𝗮𝗹 𝗱𝗲𝘃𝗲 𝘀𝗲𝗿 𝗽𝘂́𝗯𝗹𝗶𝗰𝗮 𝗲 𝗳𝗿𝗼𝗻𝘁𝗮𝗹 𝗼𝘂 𝗿𝗲𝘀𝗲𝗿𝘃𝗮𝗱𝗮 𝗮𝗼𝘀 𝗯𝗮𝘀𝘁𝗶𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀?

𝑨 𝑨𝒍𝒗𝒐𝒓𝒂𝒅𝒂
𝑼𝒎 𝒆𝒔𝒑𝒂𝒄̧𝒐 𝒐𝒏𝒅𝒆 𝒐 𝑨𝒓𝒕𝒊𝒔𝒕𝒂 𝒕𝒆𝒎 𝒗𝒐𝒛 𝒆 𝒗𝒆𝒛.

𝗔𝗦 𝗖𝗥𝗜𝗔𝗡𝗖̧𝗔𝗦 𝗩𝗔̃𝗢 𝗥𝗜𝗥 𝗠𝗔𝗦 𝗢𝗦 𝗠𝗔𝗜𝗦-𝗩𝗘𝗟𝗛𝗢𝗦 𝗩𝗔̃𝗢 𝗥𝗘𝗙𝗟𝗘𝗖𝗧𝗜𝗥𝗘𝗻𝘁𝗿𝗲 𝗮 𝗳𝗼𝗺𝗲, 𝗮 𝘁𝗲𝗶𝗺𝗼𝘀𝗶𝗮 𝗲 𝗼𝘀 𝗳𝗮𝗻𝘁𝗮𝘀𝗺𝗮𝘀 𝗱𝗮 𝘁𝗿𝗮𝗱𝗶𝗰̧𝗮̃𝗼: 𝗠𝘂𝗹𝗼𝗻𝗴𝗶 𝗬𝗮...
28/06/2026

𝗔𝗦 𝗖𝗥𝗜𝗔𝗡𝗖̧𝗔𝗦 𝗩𝗔̃𝗢 𝗥𝗜𝗥 𝗠𝗔𝗦 𝗢𝗦 𝗠𝗔𝗜𝗦-𝗩𝗘𝗟𝗛𝗢𝗦 𝗩𝗔̃𝗢 𝗥𝗘𝗙𝗟𝗘𝗖𝗧𝗜𝗥

𝗘𝗻𝘁𝗿𝗲 𝗮 𝗳𝗼𝗺𝗲, 𝗮 𝘁𝗲𝗶𝗺𝗼𝘀𝗶𝗮 𝗲 𝗼𝘀 𝗳𝗮𝗻𝘁𝗮𝘀𝗺𝗮𝘀 𝗱𝗮 𝘁𝗿𝗮𝗱𝗶𝗰̧𝗮̃𝗼: 𝗠𝘂𝗹𝗼𝗻𝗴𝗶 𝗬𝗮 𝗠𝗯𝗼𝘁𝗲 𝗹𝗲𝘃𝗮 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗼 𝗮𝗻𝗴𝗼𝗹𝗮𝗻𝗼 𝗮𝗼 𝗽𝗮𝗹𝗰𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗲𝗻𝘀𝗶𝗻𝗮𝗿 𝘀𝗲𝗺 𝗱𝗮𝗿 𝘀𝗲𝗿𝗺𝗼̃𝗲𝘀

Uma barriga vazia tem pressa, não escuta conselhos, não mede consequências, não distingue o perigo da oportunidade. Apenas exige ser alimentada.

É dessa verdade simples e antiga que nasce "𝘿𝙞𝙠𝙞𝙭𝙞-𝙆𝙞𝙭𝙞 – 𝘼 𝙏𝙚𝙞𝙢𝙤𝙨𝙞𝙖 𝙙𝙖 𝘽𝙖𝙧𝙧𝙞𝙜𝙖 𝙑𝙖𝙯𝙞𝙖", o novo espectáculo do 𝗠𝘂𝗹𝗼𝗻𝗴𝗶 𝗬𝗮 𝗠𝗯𝗼𝘁𝗲, inspirado no conto tradicional angolano "A Teimosia".

Mas quem espera encontrar apenas uma peça infantil poderá surpreender-se.

Por detrás das gargalhadas, das aventuras e das figuras misteriosas que habitam o imaginário popular angolano, esconde-se uma reflexão sobre fome, obediência, experiência, escolhas e responsabilidade. Uma história interpretada por crianças, mas que parece ter sido escrita para muitos adultos.

A adaptação nasceu da vontade de resgatar os contos tradicionais angolanos e devolvê-los ao convívio das comunidades através do teatro. Numa época em que muitas referências culturais vão sendo substituídas por conteúdos importados e consumidos à velocidade de um clique, o grupo decidiu olhar para a sabedoria dos mais-velhos e transformá-la numa experiência cénica capaz de dialogar com as novas gerações.

A escolha do conto "*A Teimosia"* não foi aleatória. A narrativa aborda um tema que atravessa gerações: a tendência humana para ignorar conselhos quando a necessidade fala mais alto do que a razão. Uma realidade tão presente nas crianças quanto nos adultos.

Foi a partir dessa premissa que Diego Dos Santos, Director do grupo, desenvolveu a adaptação teatral e acrescentou ao título original uma nova identidade: "*Dikixi-Kixi – A Teimosia da Barriga Vazia"*.

Mais do que uma expressão curiosa, Dikixi-Kixi remete para figuras presentes no imaginário tradicional angolano.

“𝘋𝘪𝘬𝘪𝘹𝘪 𝘰𝘶 𝘔𝘢𝘬𝘪𝘹𝘪 𝘳𝘦𝘱𝘳𝘦𝘴𝘦𝘯𝘵𝘢𝘮 𝘴𝘦𝘳𝘦𝘴 𝘢𝘴𝘴𝘰𝘤𝘪𝘢𝘥𝘰𝘴 𝘢𝘰 𝘪𝘮𝘢𝘨𝘪𝘯𝘢́𝘳𝘪𝘰 𝘵𝘳𝘢𝘥𝘪𝘤𝘪𝘰𝘯𝘢𝘭, 𝘧𝘪𝘨𝘶𝘳𝘢𝘴 𝘭𝘪𝘨𝘢𝘥𝘢𝘴 𝘢 𝘦𝘯𝘴𝘪𝘯𝘢𝘮𝘦𝘯𝘵𝘰𝘴, 𝘮𝘦𝘥𝘰𝘴 𝘰𝘶 𝘢𝘥𝘷𝘦𝘳𝘵𝘦̂𝘯𝘤𝘪𝘢𝘴.”

É precisamente nesse encontro entre fantasia e ensinamento que reside a força da peça. Tal como acontecia nos antigos contos narrados à volta da fogueira, a imaginação surge como caminho para transmitir valores, provocar reflexão e despertar consciências.

Embora apresentada como um espectáculo infantil, a obra não se limita às crianças. A mensagem atravessa idades, lembrando que a teimosia, a impulsividade e a dificuldade em ouvir os mais experientes são características que acompanham o ser humano ao longo da vida.

O espectáculo será apresentado por crianças e adolescentes do próprio bairro, jovens que encontraram no teatro uma forma de expressão, aprendizagem e crescimento pessoal. Para o Mulongi Ya Mbote, esse aspecto é tão importante quanto a própria encenação.

Outro elemento que distingue a iniciativa é a forma de acesso ao espectáculo. Em vez de um bilhete convencional, o público é convidado a contribuir com material escolar, numa acção que reforça a dimensão social do projecto.

A medida não surge por acaso. Há vários anos que o Mulongi desenvolve acções de apoio a crianças e jovens, ajudando-os a ingressar, permanecer ou regressar ao sistema de ensino. Para além da formação artística, o grupo tem contribuído para processos de registo, aquisição de material escolar e atribuição de pequenas bolsas de estudo, beneficiando não apenas os seus integrantes, mas também outras crianças e adolescentes das comunidades onde actua.

A campanha associada ao espectáculo insere-se precisamente nessa visão de que a arte não deve limitar-se ao entretenimento. Pode também educar, incluir, apoiar e transformar vidas.

Mas os planos do Mulongi Ya Mbote vão mais longe. O grupo pretende levar a peça a escolas, comunidades e outros palcos, defendendo o teatro como instrumento de educação, consciencialização e transformação social.

Numa sociedade marcada por múltiplos desafios, Hélio Diogo acredita que a cultura continua a ser uma das ferramentas mais eficazes para promover mudanças positivas, fortalecer valores e criar oportunidades para as novas gerações.

No final, "*Dikixi-Kixi" recupera uma verdade antiga: há lições que entram melhor quando chegam disfarçadas de história.*

Há ensinamentos que sobrevivem mais tempo quando viajam pela imaginação.

E há verdades que uma barriga vazia compreende antes mesmo de aprender a explicá-las.

As crianças vão rir, mas os adultos, muito provavelmente, vão sair a pensar.

𝗢 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗰𝘁𝗮́𝗰𝘂𝗹𝗼 𝗮𝗰𝗼𝗻𝘁𝗲𝗰𝗲 𝗻𝗼 𝗱𝗶𝗮 𝟮𝟲 𝗱𝗲 𝗝𝘂𝗹𝗵𝗼, 𝗮̀𝘀 𝟭𝟱𝗵𝟬𝟬, 𝗻𝗮 𝗤𝘂𝗶𝗻𝘁𝗮 𝗠𝗲𝗻𝗮, 𝗕𝗮𝗶𝗿𝗿𝗼 𝗚𝗿𝗮𝗳𝗮𝗻𝗶𝗹, 𝗲 𝗼 𝗶𝗻𝗴𝗿𝗲𝘀𝘀𝗼 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗶𝘀𝘁𝗲 𝗻𝗮 𝗲𝗻𝘁𝗿𝗲𝗴𝗮 𝗱𝗲 𝗺𝗮𝘁𝗲𝗿𝗶𝗮𝗹 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗮𝗿 𝗱𝗲𝘀𝘁𝗶𝗻𝗮𝗱𝗼 𝗮 𝗮𝗽𝗼𝗶𝗮𝗿 𝗰𝗿𝗶𝗮𝗻𝗰̧𝗮𝘀 𝗱𝗮 𝗰𝗼𝗺𝘂𝗻𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲.

𝘼 𝘼𝒍𝙫𝒐𝙧𝒂𝙙𝒂
𝑼𝙢 𝙚𝒔𝙥𝒂𝙘̧𝒐 𝒐𝙣𝒅𝙚 𝙤 𝘼𝒓𝙩𝒊𝙨𝒕𝙖 𝙩𝒆𝙢 𝙫𝒐𝙯 𝙚 𝙫𝒆𝙯.

𝗖𝗨𝗟𝗧𝗨𝗥𝗔 𝗔𝗡𝗚𝗢𝗟𝗔𝗡𝗔 𝗚𝗔𝗡𝗛𝗔 𝗣𝗟𝗔𝗧𝗔𝗙𝗢𝗥𝗠𝗔 𝗤𝗨𝗘 𝗣𝗥𝗢𝗠𝗘𝗧𝗘 𝗔𝗕𝗥𝗜𝗥 𝗣𝗢𝗥𝗧𝗔𝗦 𝗔 𝗡𝗢𝗩𝗔𝗦 𝗢𝗣𝗢𝗥𝗧𝗨𝗡𝗜𝗗𝗔𝗗𝗘𝗦A cultura angolana acaba de ganhar uma n...
24/06/2026

𝗖𝗨𝗟𝗧𝗨𝗥𝗔 𝗔𝗡𝗚𝗢𝗟𝗔𝗡𝗔 𝗚𝗔𝗡𝗛𝗔 𝗣𝗟𝗔𝗧𝗔𝗙𝗢𝗥𝗠𝗔 𝗤𝗨𝗘 𝗣𝗥𝗢𝗠𝗘𝗧𝗘 𝗔𝗕𝗥𝗜𝗥 𝗣𝗢𝗥𝗧𝗔𝗦 𝗔 𝗡𝗢𝗩𝗔𝗦 𝗢𝗣𝗢𝗥𝗧𝗨𝗡𝗜𝗗𝗔𝗗𝗘𝗦

A cultura angolana acaba de ganhar uma nova ferramenta destinada a aproximar artistas, instituições, parceiros e público. Trata-se do 𝗗𝗶𝗿𝗲𝗰𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼 𝗱𝗼 𝗔𝗿𝘁𝗶𝘀𝘁𝗮 𝗔𝗻𝗴𝗼𝗹𝗮 (𝗗𝗔𝗔), uma plataforma digital apresentada nesta terça-feira, na sede da Agência Nacional das Indústrias Culturais e Criativas, com o objectivo de promover, valorizar e dar maior visibilidade aos criadores nacionais.

O projecto foi apresentado por Rui Pombo, que explicou que a iniciativa pretende funcionar como uma ponte entre os diferentes actores do sector cultural, permitindo aos artistas registarem-se, divulgarem os seus portfólios e ampliarem as suas oportunidades profissionais através de uma presença digital organizada e acessível.

A cerimónia contou com a presença do Director da Agência Nacional das Indústrias Culturais e Criativas, Asdrúbal Rebelo, e do Presidente da Comissão da Carteira Profissional do Artista, Maneco Vieira Dias, entre outras individualidades ligadas ao sector.

Um dos momentos marcantes do acto foi protagonizado pelo Ministro da Cultura, Filipe Zau, que realizou simbolicamente o primeiro registo na plataforma, assinalando o início oficial do processo de adesão dos artistas ao sistema.

Na ocasião, o governante manifestou satisfação pela implementação da iniciativa, considerando o Directório do Artista Angola uma ferramenta estratégica para a dinamização da cultura nacional, bem como para a massificação da informação cultural e o fortalecimento da presença dos artistas angolanos nos espaços de promoção e difusão cultural.

Com esta plataforma, espera-se que os profissionais das artes encontrem novas formas de divulgação, networking e acesso a oportunidades, num momento em que a transformação digital assume um papel cada vez mais importante no desenvolvimento das indústrias culturais e criativas.

𝘼 𝘼𝒍𝙫𝒐𝙧𝒂𝙙𝒂
𝑼𝙢 𝙚𝒔𝙥𝒂𝙘̧𝒐 𝒐𝙣𝒅𝙚 𝙤 𝘼𝒓𝙩𝒊𝙨𝒕𝙖 𝙩𝒆𝙢 𝙫𝒐𝙯 𝙚 𝙫𝒆𝙯.

𝗔𝗦 𝗖𝗢𝗥𝗧𝗜𝗡𝗔𝗦 𝗝𝗔́ 𝗔𝗕𝗥𝗜𝗥𝗔𝗠: 𝗖𝗜𝗧 𝟮𝟬𝟮𝟲 𝗛𝗢𝗠𝗘𝗡𝗔𝗚𝗘𝗜𝗔 𝗠𝗔𝗡𝗨𝗘𝗟 𝗚𝗢𝗡𝗖̧𝗔𝗟𝗩𝗘𝗦 𝗘 𝗔𝗡𝗨𝗡𝗖𝗜𝗔 𝗡𝗢𝗩𝗜𝗗𝗔𝗗𝗘𝗦𝗟𝘂𝗮𝗻𝗱𝗮, 𝟭𝟴 𝗱𝗲 𝗝𝘂𝗻𝗵𝗼 𝗱𝗲 𝟮𝟬𝟮𝟲. Entre apl...
20/06/2026

𝗔𝗦 𝗖𝗢𝗥𝗧𝗜𝗡𝗔𝗦 𝗝𝗔́ 𝗔𝗕𝗥𝗜𝗥𝗔𝗠: 𝗖𝗜𝗧 𝟮𝟬𝟮𝟲 𝗛𝗢𝗠𝗘𝗡𝗔𝗚𝗘𝗜𝗔 𝗠𝗔𝗡𝗨𝗘𝗟 𝗚𝗢𝗡𝗖̧𝗔𝗟𝗩𝗘𝗦 𝗘 𝗔𝗡𝗨𝗡𝗖𝗜𝗔 𝗡𝗢𝗩𝗜𝗗𝗔𝗗𝗘𝗦

𝗟𝘂𝗮𝗻𝗱𝗮, 𝟭𝟴 𝗱𝗲 𝗝𝘂𝗻𝗵𝗼 𝗱𝗲 𝟮𝟬𝟮𝟲. Entre aplausos, cumprimentos e reencontros, artistas, gestores culturais, parceiros e jornalistas voltaram a ocupar a mesma sala para celebrar uma arte que insiste em sobreviver, reinventar-se e crescer. Foi neste ambiente que o 𝗖𝗶𝗿𝗰𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗜𝗻𝘁𝗲𝗿𝗻𝗮𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 (𝗖𝗜𝗧) apresentou oficialmente a sua 11.ª edição, durante uma concorrida Conferência de Imprensa realizada no Palácio de Ferro.

Ao revelar as linhas mestras da programação de 2026, o Director do festival, 𝗔𝗱𝗲́𝗿𝗶𝘁𝗼 𝗥𝗼𝗱𝗿𝗶𝗴𝘂𝗲𝘀, reafirmou o compromisso do 𝗖𝗜𝗧 com a excelência artística, a formação de novos públicos e o fortalecimento das ligações entre criadores nacionais e internacionais. Mais do que uma montra de espectáculos, o festival continua a afirmar-se como um espaço de encontro, reflexão e valorização do teatro enquanto instrumento de cidadania, educação e transformação social.

Quando o nome de 𝗠𝗮𝗻𝘂𝗲𝗹 𝗔𝗻𝘁𝗼́𝗻𝗶𝗼 𝗚𝗼𝗻𝗰̧𝗮𝗹𝘃𝗲𝘀 ecoou na sala, os aplausos fizeram-se ouvir de forma espontânea. Não era apenas o reconhecimento da personalidade escolhida para homenageado desta edição. Era também a celebração de uma ideia cada vez mais necessária: a de que a cultura cresce melhor quando encontra instituições e líderes dispostos a caminhar ao seu lado.

Vice-Governador de Luanda, Manuel António Gonçalves foi distinguido pelo seu contributo para o fortalecimento das políticas de apoio à cultura e pelo incentivo a iniciativas que promovem a criatividade, a inclusão e a valorização da identidade cultural angolana. A sua presença, acompanhada pela família, conferiu ao momento um significado particularmente simbólico.

A organização apresentou igualmente os prémios que integram a 11.ª edição do festival, entre os quais o Prémio Mena Abrantes, o Prémio Cenografia Luzingo Malembe e o Prémio Isabel André, distinções que continuam a reconhecer o talento, a inovação e o legado de figuras incontornáveis das artes cénicas nacionais.

Onze edições depois, o Circuito Internacional de Teatro deixou de ser apenas um festival para se afirmar como um dos mais importantes movimentos culturais do país, promovendo encontros, formando públicos e criando oportunidades para artistas e instituições.

𝗤𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗮𝘀 𝗰𝗮𝗱𝗲𝗶𝗿𝗮𝘀 𝗰𝗼𝗺𝗲𝗰̧𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗮 𝗲𝘀𝘃𝗮𝘇𝗶𝗮𝗿-𝘀𝗲 𝗲 𝗮𝘀 𝗰𝗼𝗻𝘃𝗲𝗿𝘀𝗮𝘀 𝗿𝗲𝗴𝗿𝗲𝘀𝘀𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗮𝗼𝘀 𝗰𝗼𝗿𝗿𝗲𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗱𝗼 𝗣𝗮𝗹𝗮́𝗰𝗶𝗼 𝗱𝗲 𝗙𝗲𝗿𝗿𝗼, 𝗻𝗶𝗻𝗴𝘂𝗲́𝗺 𝗹𝗲𝘃𝗮𝘃𝗮 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗶𝗴𝗼 𝗮𝗽𝗲𝗻𝗮𝘀 𝘂𝗺𝗮 𝗽𝗿𝗼𝗴𝗿𝗮𝗺𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼. 𝗟𝗲𝘃𝗮𝘃𝗮 𝗮 𝗰𝗲𝗿𝘁𝗲𝘇𝗮 𝗱𝗲 𝗾𝘂𝗲, 𝗼𝗻𝘇𝗲 𝗲𝗱𝗶𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀 𝗱𝗲𝗽𝗼𝗶𝘀, 𝗼 𝗖𝗜𝗧 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮 𝗮 𝗽𝗿𝗼𝘃𝗮𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝘁𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 𝗲́ 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗱𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗰𝘁𝗮́𝗰𝘂𝗹𝗼. 𝗘́ 𝗲𝗻𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼. 𝗘́ 𝗺𝗲𝗺𝗼́𝗿𝗶𝗮. 𝗘́ 𝗶𝗱𝗲𝗻𝘁𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲. 𝗘 𝘁𝗮𝗹𝘃𝗲𝘇 𝘀𝗲𝗷𝗮, 𝗮𝗶𝗻𝗱𝗮 𝗵𝗼𝗷𝗲, 𝘂𝗺𝗮 𝗱𝗮𝘀 𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮𝘀 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗵𝘂𝗺𝗮𝗻𝗮𝘀 𝗱𝗲 𝗶𝗺𝗮𝗴𝗶𝗻𝗮𝗿 𝗼 𝗳𝘂𝘁𝘂𝗿𝗼.

𝘼 𝘼𝒍𝙫𝒐𝙧𝒂𝙙𝒂

𝑼𝙢 𝙚𝒔𝙥𝒂𝙘̧𝒐 𝒐𝙣𝒅𝙚 𝙤 𝘼𝒓𝙩𝒊𝙨𝒕𝙖 𝙩𝒆𝙢 𝙫𝒐𝙯 𝙚 𝙫𝒆𝙯.

𝗤𝗨𝗔𝗡𝗗𝗢 𝗢 𝗧𝗘𝗔𝗧𝗥𝗢 𝗖𝗘𝗟𝗘𝗕𝗥𝗔 𝗢𝗦 𝗦𝗘𝗨𝗦: 𝗨𝗠𝗔 𝗟𝗘𝗜𝗧𝗨𝗥𝗔 𝗗𝗘 “𝗔𝗦 𝗧𝗥𝗘̂𝗦 𝗠𝗔𝗥𝗜𝗔𝗦”Há espectáculos que terminam quando a cortina se fecha....
19/06/2026

𝗤𝗨𝗔𝗡𝗗𝗢 𝗢 𝗧𝗘𝗔𝗧𝗥𝗢 𝗖𝗘𝗟𝗘𝗕𝗥𝗔 𝗢𝗦 𝗦𝗘𝗨𝗦: 𝗨𝗠𝗔 𝗟𝗘𝗜𝗧𝗨𝗥𝗔 𝗗𝗘 “𝗔𝗦 𝗧𝗥𝗘̂𝗦 𝗠𝗔𝗥𝗜𝗔𝗦”

Há espectáculos que terminam quando a cortina se fecha. Há outros que continuam muito depois dos aplausos. “𝘼𝙨 𝙏𝙧𝙚̂𝙨 𝙈𝙖𝙧𝙞𝙖𝙨”, levada à cena pela 𝗖𝗼𝗺𝗽𝗮𝗻𝗵𝗶𝗮 𝗘𝗻𝗶𝗴𝗺𝗮 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼, com a direcção de Nelson Cabanga, pertence claramente às que não morrem com o cair do pano.

Na noite de apresentação, a 12 de Junho, a sala da LAASP (Ex-Liga Africana) não acolheu apenas espectadores. Acolheu memórias, reencontros e uma parte significativa da história recente do teatro angolano. Entre actores, encenadores, dramaturgos, directores de grupos e amantes das artes cénicas, sentia-se no ambiente uma atmosfera rara, como se todos soubessem que estavam prestes a testemunhar algo que ultrapassava a simples apresentação de uma peça. E talvez estivessem certos.

Já no interior da sala, desde os primeiros instantes, uma luz azul predominante envolvia o palco, criando uma atmosfera de mistério e introspecção. Junto ao proscénio, duas estruturas discretas exibiam fileiras de pequenas luzes semelhantes a velas, enquanto uma terceira chama surgia ao fundo, no centro da cena. A composição parecia anunciar uma narrativa onde destino, memória e redenção se entrelaçam. Ao fundo, uma voz ecoava pela sala como uma presença invisível que observava e conduzia o percurso das personagens, preparando o público para uma história onde nada parecia existir apenas à superfície.

E é precisamente aí que reside uma das maiores forças do texto de 𝗔𝗿𝗺𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗥𝗼𝘀𝗮. As suas personagens raramente dizem apenas aquilo que dizem. Quando uma delas afirma: “𝘌𝘶 𝘷𝘪𝘷𝘰 𝘰 𝘵𝘰𝘳𝘮𝘦𝘯𝘵𝘰 𝘥𝘰𝘴 𝘥𝘪𝘢𝘴 𝘰𝘣𝘴𝘤𝘶𝘳𝘰𝘴, 𝘧𝘰𝘳𝘫𝘢𝘥𝘰𝘴 𝘯𝘢 𝘪𝘮𝘦𝘯𝘴𝘪𝘥𝘢̃𝘰 𝘥𝘢 𝘥𝘰𝘳”, não estamos perante uma simples declaração de sofrimento. A escolha da palavra “forjados” sugere alguém moldado pela dor, construído por ela, tal como o ferro se transforma sob o fogo. Noutra passagem, ouvimos: “𝘚𝘰𝘶 𝘦𝘶 𝘮𝘦𝘴𝘮𝘢, 𝘢 𝘔𝘢𝘳𝘪𝘢 𝘚𝘦𝘮 𝘎𝘳𝘢𝘤̧𝘢. 𝘔𝘢𝘳𝘪𝘢 𝘦́ 𝘵𝘶𝘢 𝘮𝘢𝘭𝘥𝘪𝘤̧𝘢̃𝘰 𝘥𝘰𝘴 𝘥𝘪𝘢𝘴 𝘷𝘢𝘻𝘪𝘰𝘴.” A personagem deixa de ser apenas uma mulher para se transformar numa espécie de destino, numa presença que habitita a memória de quem a encontra. E quando as três proclamam “𝘕𝘰́𝘴 𝘴𝘰𝘮𝘰𝘴 𝘢 𝘷𝘦𝘳𝘥𝘢𝘥𝘦 𝘥𝘢 𝘮𝘶𝘭𝘩𝘦𝘳”, a frase expande-se para além das personagens e parece convocar séculos de silêncios, cumplicidades, perdas e resistências.

Não surpreende. 𝗔𝗿𝗺𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗥𝗼𝘀𝗮 pertence à geração que viveu e ajudou a construir algumas das páginas mais intensas da história contemporânea angolana. A sua escrita carrega a densidade de quem conheceu os conflitos, as contradições e os sonhos de um país em permanente construção. Tal como acontece nas dramaturgias simbólicas de autores que fazem da palavra um território de múltiplas leituras, o texto recusa a facilidade e exige do espectador participação activa. Não entrega respostas; oferece pistas.

A encenação de 𝗡𝗲𝗹𝘀𝗼𝗻 𝗖𝗮𝗯𝗮𝗻𝗴𝗮 compreendeu essa exigência. A trama, sustentada pelo desempenho de quatro actrizes e um actor, foi enriquecida por recursos sonoros, jogos de luz, fumo cénico e outros efeitos especiais que contribuíram para uma experiência sensorial intensa. Houve momentos em que o silêncio pareceu tão eloquente quanto as palavras e outros em que a composição visual assumiu um papel narrativo quase autónomo.

Nos dias que sucederam ao espectáculo, surgiram vozes defendendo que esta montagem representaria um afastamento significativo da estética que durante décadas ajudou a definir a identidade cénica do Enigma Teatro. Contudo, uma observação mais atenta sugere uma leitura diferente. Quem acompanhou montagens marcantes da companhia, fundada em 1998 a partir da fusão histórica de Os Makotes e Comba Meneck, como “𝘼 𝙍𝙖𝙞𝙫𝙖”, “𝘼 𝙂𝙧𝙖𝙣𝙙𝙚 𝙌𝙪𝙚𝙨𝙩𝙖̃𝙤”, “𝙂𝙖𝙡𝙖́𝙭𝙞𝙖”, “𝘾𝙖𝙨𝙖𝙙𝙤𝙨 𝙚 𝘾𝙖𝙣𝙨𝙖𝙙𝙤𝙨” ou “𝘾𝙖𝙣𝙜𝙖𝙡𝙖𝙣𝙜𝙖”, encontrará na “𝘼𝙨 𝙏𝙧𝙚̂𝙨 𝙈𝙖𝙧𝙞𝙖𝙨” muitos elementos familiares: a ocupação rigorosa do espaço, a valorização do corpo e, fundamentalmente, a utilização simbólica do mobiliário. Longe de ser uma ruptura, a manutenção da 𝗺𝗲𝘀𝗮 𝗻𝗼 𝗰𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼 geométrico do palco reafirma a assinatura visual do Enigma. A desconstrução utilitária surge nos 𝗯𝗮𝗻𝗰𝗼𝘀 𝗱𝗲 𝗺𝗮𝗱𝗲𝗶𝗿𝗮, que deixam de ser assentos passivos para se tornarem 𝗲𝘅𝘁𝗲𝗻𝘀𝗼̃𝗲𝘀 𝗳𝗶́𝘀𝗶𝗰𝗮𝘀 𝗱𝗼 𝗰𝗼𝗿𝗽𝗼 𝗱𝗮𝘀 𝗮𝗰𝘁𝗿𝗶𝘇𝗲𝘀; o acto dramático de "𝘀𝘂𝗯𝗶𝗿 𝗮𝗼 𝗯𝗮𝗻𝗰𝗼" para demarcar a centralidade do discurso ou impor a força de uma acção, como Maria da Graça executa com precisão, é uma herança directa de dispositivos cénicos já testados em “𝘼 𝙍𝙖𝙞𝙫𝙖” e “𝘼 𝙂𝙧𝙖𝙣𝙙𝙚 𝙌𝙪𝙚𝙨𝙩𝙖̃𝙤”, só para citar alguns. Além disso, a presença do manequim sobre a mesa, representando o falecido Zé (que na penumbra inicial mimetiza com assombrosa eficácia uma pessoa real), evoca de imediato a estética de Tadeusz Kantor, ao retirar a função quotidiana do objecto e transformá-lo num simulacro carregado de misticismo e assombro.

Essa abordagem corporal e cenográfica dialoga directamente com as vanguardas teatrais europeias do século XX. O rigor físico do elenco ao interagir com as estruturas de madeira evoca a 𝗕𝗶𝗼𝗺𝗲𝗰𝗮̂𝗻𝗶𝗰𝗮 𝗱𝗲 𝗩𝘀𝗲𝘃𝗼𝗹𝗼𝗱 𝗠𝗲𝘆𝗲𝗿𝗵𝗼𝗹𝗱 (𝟮𝟬𝟭𝟮), que via o actor como um organizador do espaço através do movimento coordenado. Simultaneamente, o despojamento em torno desse núcleo central remete ao conceito de "𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 𝗣𝗼𝗯𝗿𝗲" 𝗱𝗲 𝗝𝗲𝗿𝘇𝘆 𝗚𝗿𝗼𝘁𝗼𝘄𝘀𝗸𝗶 (𝟭𝟵𝟳𝟭), onde a renúncia aos excessos decorativos força os adereços a metamorfosearem-se em signo dinâmico da acção dramática.

Este pendor do Enigma Teatro para uma encenação conceptual e física permite estabelecer paralelos evidentes com outros grandes colectivos do panorama nacional. Se, por um lado, afasta-se do realismo quotidiano e do cariz mais interventivo ou didáctico do 𝗠𝗶𝗿𝗮𝗴𝗲𝗻𝘀 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 (frequentemente focado no registo de costumes, mitos e tradições urbanas, como na peça “𝟰:𝟯𝟬”), aproxima-se, por outro, da pesquisa estética e literária do 𝗘𝗹𝗶𝗻𝗴𝗮 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 de 𝗝𝗼𝘀𝗲́ 𝗠𝗲𝗻𝗮 𝗔𝗯𝗿𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀. A opção de 𝗡𝗲𝗹𝘀𝗼𝗻 𝗖𝗮𝗯𝗮𝗻𝗴𝗮 por uma cenografia despida e simbólica evoca o rigor e o pendor experimentalista do Elinga. De igual modo, a precisão coreográfica das actrizes encontra eco no trabalho do grupo 𝗛𝗲𝗻𝗿𝗶𝗾𝘂𝗲 𝗔𝗿𝘁𝗲𝘀, conhecido pela minúcia física e espacial dos seus elencos em dramas institucionais e psicológicos como "𝙃𝙤𝙩𝙚𝙡 𝙆𝙤𝙢𝙖𝙧𝙘𝙖". Contudo, onde o Henrique Artes tende a apostar num ritmo vertiginoso e num fôlego quase cinematográfico, o Enigma Teatro, nesta peça, prefere a suspensão poética e o misticismo do fumo e da penumbra.

Na verdade, se retirássemos o nome do encenador do programa e mostrássemos apenas determinadas imagens do espectáculo a alguém profundamente familiarizado com a história do Enigma Teatro, dificilmente essa pessoa deixaria de reconhecer uma linhagem estética comum. Mas reconhecer uma herança não significa assistir a uma repetição. O mérito de 𝗡𝗲𝗹𝘀𝗼𝗻 𝗖𝗮𝗯𝗮𝗻𝗴𝗮 talvez resida precisamente aí. Em vez de negar a tradição que o formou, escolheu dialogar com ela. Em vez de romper com uma gramática cénica consolidada ao longo de décadas, reorganizou os seus elementos para servir um texto, uma sensibilidade e um olhar próprios. A novidade parece residir menos na ruptura e mais na forma como os mesmos códigos são convocados para produzir novas leituras.

𝗡𝗲𝗺 𝘁𝘂𝗱𝗼, 𝗰𝗼𝗻𝘁𝘂𝗱𝗼, 𝗳𝗼𝗶 𝗶𝗿𝗿𝗲𝗽𝗿𝗲𝗲𝗻𝘀𝗶́𝘃𝗲𝗹. O início do espectáculo sofreu um atraso considerável relativamente ao horário anunciado, situação que gerou alguma expectativa e impaciência entre os presentes. Já em cena, a riqueza vocabular da escrita de 𝗔𝗿𝗺𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗥𝗼𝘀𝗮 exigia uma articulação particularmente cuidada. Com excepção da actriz que interpretou Maria Desgraça, 𝗻𝗲𝗺 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗮 𝗱𝗶𝗰𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗽𝗲𝗿𝗺𝗶𝘁𝗶𝘂 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗼𝗱𝗮𝘀 𝗮𝘀 𝘀𝘂𝗯𝘁𝗶𝗹𝗲𝘇𝗮𝘀 𝗱𝗼 𝘁𝗲𝘅𝘁𝗼 𝗳𝗼𝘀𝘀𝗲𝗺 𝗽𝗹𝗲𝗻𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗮𝗽𝗿𝗲𝗲𝗻𝗱𝗶𝗱𝗮𝘀 𝗽𝗲𝗹𝗼 𝗽𝘂́𝗯𝗹𝗶𝗰𝗼 por conta da deficiente articulação vocal das outras três actrizes. Em vários momentos, essa dificuldade foi agravada pelo volume elevado dos recursos sonoros, que por vezes se sobrepunham às falas.

Ainda assim, esses aspectos não foram suficientes para diminuir o impacto global da experiência. Talvez porque, naquela noite, o acontecimento ultrapassou os limites do palco. Houve aplausos para a direcção geral, encabeçada pela estreante Liliana Simão, para o elenco, para a equipa técnica e para a encenação. Mas houve também um reconhecimento colectivo dirigido a 𝗔𝗿𝗺𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗥𝗼𝘀𝗮, cuja presença foi celebrada como se celebra alguém que ajudou a construir uma parte importante da casa comum do teatro angolano.

Pouco depois, numa mensagem dirigida a 𝗡𝗲𝗹𝘀𝗼𝗻 𝗖𝗮𝗯𝗮𝗻𝗴𝗮, o dramaturgo resumiria aquilo que muitos sentiram naquela sala: "𝘋𝘳. 𝘊𝘢𝘣𝘢𝘯𝘨𝘢, 𝘰𝘣𝘳𝘪𝘨𝘢𝘥𝘰. 𝘜𝘮𝘢 𝘴𝘰𝘣𝘦𝘳𝘣𝘢 𝘦 𝘮𝘶𝘪𝘵𝘰 𝘤𝘳𝘪𝘢𝘵𝘪𝘷𝘢 𝘦𝘯𝘤𝘦𝘯𝘢𝘤̧𝘢̃𝘰. 𝘜𝘮 𝘵𝘳𝘢𝘣𝘢𝘭𝘩𝘰 𝘥𝘦 𝘳𝘦𝘴𝘱𝘰𝘯𝘴𝘢𝘣𝘪𝘭𝘪𝘥𝘢𝘥𝘦. 𝘖 𝘋𝘳. 𝘩𝘰𝘯𝘳𝘰𝘶 𝘰 𝘮𝘦𝘶 𝘯𝘰𝘮𝘦. 𝘋𝘶𝘳𝘢𝘯𝘵𝘦 𝘰 𝘦𝘴𝘱𝘦𝘤𝘵𝘢́𝘤𝘶𝘭𝘰, 𝘤𝘩𝘰𝘳𝘦𝘪 𝘥𝘦 𝘦𝘮𝘰𝘤̧𝘢̃𝘰.”

Nem sempre um espectáculo consegue emocionar o seu próprio autor. Nem sempre consegue reunir tantas gerações do teatro angolano sob o mesmo tecto. Nem sempre consegue lembrar-nos que, apesar das dificuldades que persistem, a Arte Rainha continua viva.

𝗤𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗮𝘀 𝗹𝘂𝘇𝗲𝘀 𝘀𝗲 𝗮𝗽𝗮𝗴𝗮𝗿𝗮𝗺, 𝗮𝘀 𝘁𝗿𝗲̂𝘀 𝗠𝗮𝗿𝗶𝗮𝘀 𝗱𝗲𝗶𝘅𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗼 𝗽𝗮𝗹𝗰𝗼, 𝗺𝗮𝘀 𝗳𝗶𝗰𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗮𝘀 𝗽𝗲𝗿𝗴𝘂𝗻𝘁𝗮𝘀, 𝗳𝗶𝗰𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗮𝘀 𝗳𝗲𝗿𝗶𝗱𝗮𝘀, 𝗳𝗶𝗰𝗮𝗿𝗮𝗺 𝗮𝘀 𝗽𝗮𝗹𝗮𝘃𝗿𝗮𝘀 𝗲 𝗳𝗶𝗰𝗮𝗿𝗮𝗺, 𝘀𝗼𝗯𝗿𝗲𝘁𝘂𝗱𝗼, 𝗼𝘀 𝗿𝗲𝗲𝗻𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼𝘀. 𝗡𝘂𝗺𝗮 𝗲́𝗽𝗼𝗰𝗮 𝗲𝗺 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗮𝗻𝘁𝗮𝘀 𝘃𝗲𝘇𝗲𝘀 𝘀𝗲 𝗮𝗻𝘂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗮 𝗰𝗿𝗶𝘀𝗲 𝗱𝗮𝘀 𝗮𝗿𝘁𝗲𝘀, 𝗮 𝗳𝗮𝗹𝘁𝗮 𝗱𝗲 𝘂𝗻𝗶𝗮̃𝗼 𝗲𝗻𝘁𝗿𝗲 𝗼𝘀 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗶𝘀𝘁𝗮𝘀, 𝗮 𝗻𝗼𝗶𝘁𝗲 𝗱𝗲 “𝗔𝘀 𝗧𝗿𝗲̂𝘀 𝗠𝗮𝗿𝗶𝗮𝘀” 𝗹𝗲𝗺𝗯𝗿𝗼𝘂 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝘁𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮 𝘃𝗶𝘃𝗼. 𝗘 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗼 𝘁𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 𝘀𝗲 𝗿𝗲𝘂́𝗻𝗲 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗰𝗲𝗹𝗲𝗯𝗿𝗮𝗿 𝘂𝗺 𝗱𝗼𝘀 𝘀𝗲𝘂𝘀, 𝗮 𝗮𝗿𝘁𝗲 𝗱𝗲𝗶𝘅𝗮 𝗱𝗲 𝘀𝗲𝗿 𝗮𝗽𝗲𝗻𝗮𝘀 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗰𝘁𝗮́𝗰𝘂𝗹𝗼. 𝗧𝗼𝗿𝗻𝗮-𝘀𝗲 𝗺𝗲𝗺𝗼́𝗿𝗶𝗮.

𝘼 𝘼𝒍𝙫𝒐𝙧𝒂𝙙𝒂
𝑼𝙢 𝙚𝒔𝙥𝒂𝙘̧𝒐 𝒐𝙣𝒅𝙚 𝙤 𝘼𝒓𝙩𝒊𝙨𝒕𝙖 𝙩𝒆𝙢 𝙫𝒐𝙯 𝙚 𝙫𝒆𝙯.

𝗔𝗟𝗕𝗜𝗡𝗢 𝗖𝗔𝗥𝗟𝗢𝗦 𝗥𝗘𝗦𝗚𝗔𝗧𝗔 𝗔 𝗠𝗘𝗠𝗢́𝗥𝗜𝗔 𝗦𝗢𝗡𝗢𝗥𝗔 𝗗𝗘 𝗔𝗡𝗚𝗢𝗟𝗔 𝗘𝗠 𝗡𝗢𝗩𝗔 𝗢𝗕𝗥𝗔Entre melodias, histórias e identidades, o escritor, jorna...
19/06/2026

𝗔𝗟𝗕𝗜𝗡𝗢 𝗖𝗔𝗥𝗟𝗢𝗦 𝗥𝗘𝗦𝗚𝗔𝗧𝗔 𝗔 𝗠𝗘𝗠𝗢́𝗥𝗜𝗔 𝗦𝗢𝗡𝗢𝗥𝗔 𝗗𝗘 𝗔𝗡𝗚𝗢𝗟𝗔 𝗘𝗠 𝗡𝗢𝗩𝗔 𝗢𝗕𝗥𝗔

Entre melodias, histórias e identidades, o escritor, jornalista e investigador Albino Carlos apresentou, esta quinta-feira, 18 de Junho, no emblemático Palácio de Ferro, a sua mais recente obra, “História da Música Angolana”, um livro que propõe uma viagem profunda pelas raízes, transformações e significados da música produzida em Angola.

O lançamento reuniu músicos, académicos, jornalistas, estudantes e amantes da cultura, num encontro marcado pela celebração da memória colectiva e do património artístico nacional. Mais do que uma simples cronologia musical, a obra apresenta a história de Angola através das suas canções, ritmos e movimentos culturais, revelando o papel da música na construção da identidade angolana.

Segundo a sinopse divulgada pela editora, o livro percorre temas como o cancioneiro popular, a poesia tradicional, o semba, o kuduro, a canção política, as diásporas, as línguas nacionais e a música infantil, reunindo ainda mais de duas centenas de letras de canções que marcaram diferentes épocas da vida nacional.

Vencedor do Prémio Nacional de Literatura em 2014 e uma das vozes mais respeitadas do jornalismo e da investigação cultural angolana, Albino Carlos reafirma, nesta obra, a sua dedicação ao estudo da alma angolana. Para o autor, preservar a memória da música é também preservar a memória do próprio país.

Num tempo em que as novas gerações consomem música a uma velocidade sem precedentes, “História da Música Angolana” surge como um convite à escuta da nossa própria história, lembrando que cada canção guarda fragmentos daquilo que fomos, somos e aspiramos ser.

𝘼 𝘼𝒍𝙫𝒐𝙧𝒂𝙙𝒂
𝑼𝙢 𝙚𝒔𝙥𝒂𝙘̧𝒐 𝒐𝙣𝒅𝙚 𝙤 𝘼𝒓𝙩𝒊𝙨𝒕𝙖 𝙩𝒆𝙢 𝙫𝒐𝙯 𝙚 𝙫𝒆𝙯.

"DURANTE O ESPECTÁCULO, CHOREI DE EMOÇÃO": ARMANDO ROSA RENDE-SE À ENCENAÇÃO DE NELSON CABANGAA encenação de "As Três Ma...
13/06/2026

"DURANTE O ESPECTÁCULO, CHOREI DE EMOÇÃO": ARMANDO ROSA RENDE-SE À ENCENAÇÃO DE NELSON CABANGA

A encenação de "As Três Marias", levada à cena pela Companhia Enigma Teatro, mereceu rasgados elogios do dramaturgo angolano Armando Rosa, autor do texto da peça, que assistiu ao espectáculo e partilhou, em conversa privada com o encenador Nelson Cabanga, a emoção que sentiu ao ver a sua obra ganhar vida no palco.

"Dr. Cabanga, obrigado. Uma soberba e muito criativa encenação. Um trabalho de responsabilidade. O Dr. honrou o meu nome. Durante o espectáculo, chorei de emoção", escreveu o dramaturgo.

Em resposta, Nelson Cabanga agradeceu as palavras e reafirmou o respeito que nutre pelo autor:
"É uma obrigação minha honrar o nome do professor e elevar o bom nome do Teatro e dessa classe que incansavelmente tem feito muito em prol do desenvolvimento da nossa amada arte."

Mas, para além dos elogios trocados entre autor e encenador, o espectáculo deixou igualmente marcas profundas no público que encheu por completo a sala da LAASP (Ex-Liga Africana).

Desde os primeiros instantes, a atmosfera mergulhou os espectadores num universo quase ritualístico. Uma luz azul predominante envolvia o palco, conferindo-lhe uma aura de mistério e introspecção. Junto ao proscénio, duas estruturas estreitas posicionadas diagonalmente, próximas das bambolinas, sustentavam fileiras de pequenas luzes que evocavam velas acesas. Ao fundo, no centro do palco, uma terceira chama completava a composição cénica. Mais do que simples elementos decorativos, estes pontos luminosos pareciam desenhar uma cartografia simbólica, sugerindo os caminhos convergentes das três Marias e anunciando, desde logo, uma narrativa onde destino, memória e redenção se entrelaçam. Ao fundo, uma voz ecoava pela sala como uma consciência colectiva ou uma presença invisível que observava, comentava e, por vezes, parecia conduzir o percurso das personagens.

A partir daí, desenrolou-se uma trama envolvente e carregada de nuances, sustentada pelo desempenho de quatro actrizes e um actor que se entregaram por completo às suas personagens. Os recursos sonoros, incluindo a presença de uma orquestra, os jogos de luz, o fumo cénico e outros efeitos especiais contribuíram para uma experiência sensorial intensa, onde cada silêncio parecia carregar significado próprio.

A encenação de Nelson Cabanga revelou uma leitura profundamente simbólica do texto, explorando contrastes entre luz e sombra, verdade e ilusão, fé e desejo. Em vários momentos, a disposição dos corpos em cena, a geometria dos movimentos e a recorrência de determinados elementos visuais sugeriam uma construção semiótica cuidadosamente pensada, convidando o espectador a interpretar camadas que vão muito além do que é dito pelas personagens.

O resultado foi um espectáculo emocionalmente exigente, capaz de arrancar lágrimas, provocar inquietação e manter o público suspenso entre a contemplação e o desconforto.

O A Alvorada publicará oportunamente uma matéria mais aprofundada sobre "As Três Marias", analisando os seus aspectos dramatúrgicos, estéticos e simbólicos, bem como os desafios da sua montagem.

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