26/05/2026
REFLEXÃO | Neste 25 de Maio, Dia de África, inclinamos a nossa consciência diante da história e diante da memória dos gigantes que sonharam um continente livre, digno e respeitado entre as nações.
África, berço da humanidade, terra dos grandes impérios do Mali, do Congo, do Monomotapa, do Egipto antigo, dos reinos do Ndongo, Bailundo, Lunda entre outros, continua a ser um continente de riquezas imensuráveis e de um povo extraordinário. Um continente onde nasceu a filosofia do Ubuntu, essa profunda sabedoria africana que nos ensina: “Eu sou porque nós somos.”
Os nossos libertadores sonharam uma África unida, soberana, democrática e próspera. Sonharam uma África onde a independência significasse liberdade real, pão na mesa, escolas de qualidade, hospitais dignos, justiça independente e respeito pela vontade popular.
Kwame Nkrumah advertiu-nos que “a independência política sem independência económica é apenas uma ilusão”. Amílcar Cabral ensinou-nos que “dizer a verdade ao povo é servir o povo”. Patrice Lumumba tombou acreditando numa África dona do seu destino. Nelson Mandela mostrou ao mundo que a reconciliação é uma arma mais poderosa do que o ódio.
Mas hoje, com dor e honestidade, devemos reconhecer: o sonho africano não morreu. O sonho africano foi sequestrado.
Em muitos países africanos, assistimos ao crescimento das autocracias, à manipulação das constituições, à captura das instituições públicas, à repressão das vozes livres e à transformação das eleições em simples rituais para legitimar o poder. Os golpes de Estado militares proliferam, mas também crescem os golpes de Estado constitucionais, silenciosos, executados através da manipulação dos resultados eleitorais e da violação da vontade soberana dos povos.
África é hoje um continente profundamente rico, mas paradoxalmente habitado por milhões de pobres.
Temos cerca de 30% dos recursos minerais do mundo, vastas reservas de petróleo, gás, diamantes, ouro, cobre, coltan, terras férteis e uma juventude vibrante. Ainda assim, milhões de africanos vivem sem acesso à água potável, energia eléctrica, educação de qualidade ou assistência médica básica.
Vivemos um paradoxo trágico. Durante o período colonial, vinham buscar mão de obra escrava ao nosso litoral; hoje, são os nossos filhos, milhares de jovens africanos, que fogem em barcos frágeis, oferecendo-se à escravidão moderna em busca de uma sobrevivência que a sua própria terra lhes nega . Como podemos aceitar que, sessenta anos após a fundação da União Africana, dos 50 países mais pobres do mundo, 40 sejam africanos? . Esta é a prova estatística de que as nossas lideranças falharam no essencial: colocar a riqueza ao serviço do povo.
Precisamos de investir seriamente na educação, porque nenhuma nação se desenvolve na ignorância. Precisamos de industrializar as nossas economias para deixar de exportar apenas matéria-prima e importar pobreza. Precisamos de valorizar a agricultura, a ciência, a tecnologia e o talento da juventude africana. Precisamos de tribunais independentes, imprensa livre e eleições transparentes. Precisamos devolver o Estado ao cidadão.
A África não pode continuar a ser um arquipélago de 55 ilhas isoladas. Não podemos ter mercados fragmentados, alfândegas que aprisionam em vez de libertar, e barreiras que impedem a nossa juventude de circular livremente na casa-mãe.
É preciso acelerar a criação de uma verdadeira zona de comércio livre continental, construir corredores logísticos que liguem o Índico ao Atlântico. A integração económica africana não é uma opção, é um imperativo de sobrevivência. A Área de Livre Comércio Continental Africana representaria um mercado de 1,3 mil milhões de pessoas e uma oportunidade única para impulsionar a industrialização e o comércio intra-africano, servindo tanto a ambição global como a regional. A isso, associado ao fortalecimento da boa governação são os alicerces para um futuro diferente.
Como costumo afirmar, o desenvolvimento sustentável assenta num triângulo sagrado: Democracia, Boa Governação e Conhecimento.
Angola, nossa pátria, carrega também esta responsabilidade histórica. O nosso país possui todas as condições para ser uma potência africana de estabilidade, prosperidade e desenvolvimento humano. Mas isso só será possível quando colocarmos o interesse nacional acima dos interesses partidários, quando respeitarmos a alternância democrática e quando devolvermos dignidade ao cidadão comum.
Neste Dia de África, deixemos uma mensagem clara às novas gerações: não desistam do continente. Não desistam de Angola. A África do futuro será construída pelas mãos dos africanos.
Que a juventude africana transforme a indignação em participação cívica. Que transforme a dor em consciência política. Que transforme o sofrimento em força criadora.
O baobá resiste às tempestades porque as suas raízes são profundas. Assim também é África. Sofremos, caímos muitas vezes, mas continuamos de pé porque a nossa alma colectiva é antiga, forte e indestrutível.
Acreditamos numa África onde a riqueza sirva o povo.
Numa África onde governar seja servir.
Numa África onde a diferença política não seja motivo de perseguição.
Numa África onde a democracia não seja um discurso, mas uma prática.
Numa África reconciliada com os seus filhos.
O sonho africano precisa de ser libertado. E será libertado.
Porque África não é o continente do futuro. África é o continente do presente que durante demasiado tempo foi impedido de florescer.
Mas os povos africanos nunca foram povos derrotados.
Os grandes reinos africanos provaram ao mundo a nossa capacidade civilizacional. O Reino do Congo, o Império do Mali, o Grande Zimbabwe, o Reino do Ndongo, o Egipto antigo e tantos outros demonstraram organização política, comércio avançado, cultura, diplomacia e conhecimento muito antes da ocupação colonial.
Precisamos voltar às nossas raízes civilizacionais. Precisamos recuperar o espírito do Ubuntu: “Eu sou porque nós somos.” Uma filosofia profundamente africana que nos ensina que nenhuma sociedade prospera quando apenas uma pequena elite vive bem enquanto o povo sofre.
Que Deus abençoe África.
Que Deus abençoe Angola.
Que os nossos heróis e mártires nos inspirem a maior devoção à causa das independências e sobretudo para o desenvolvimento. O futuro não é um destino; é uma construção. E nós, juntos, vamos construir uma Angola e uma África livres, prósperas e justas.
Feliz Dia de África.