14/06/2026
João Lourenço não quer servir Angola. Quer ser dono do MPLA
Autoria: Raul Diniz
Os líderes incompetentes não perceberam, nem perspectivaram sabiamente, que a ambição desmedida é o último recurso dos fracassados. As pessoas perderam literalmente o encanto pelos endiabrados dominadores tirânicos irracionais, que abominaram, no passado recente, as democracias. A dominação deixou de ser atrativa. Aliás, é bom que se entenda: a fronteira que separa os idealizadores do caos dos idiotas úteis é deveras ténue. Ambos os grupos são astutos arquitectos dos malditos sepulcros caiados e construtores dos cemitérios dos ignóbeis parasitas.
Perguntaram-me um dia, algures em Malanje, quantas Angolas cabem na Angola de hoje. A minha resposta teve duas partes genuínas. Primeiro, respondi que não sabia. Segundo, a minha resposta foi conclusiva: disse, na primeira pessoa do singular, que tenho absoluta certeza de que cabemos todos dentro da nossa Angola mártir — apesar de o MPLA nos manter divididos e explorados há mais de cinquenta anos. Todo o povo angolano quer João Lourenço fora do poder.
Quero aqui declarar que apoio e estou muito grato para com os candidatos à presidência do MPLA que se encontram fora do círculo do poder central do partido. Porém, jamais fugi de um bom combate, e não seria agora que fugiria e deixaria o meu velho amigo e antigo camarada de armas Higino Lopes Carneiro lutar sozinho. Estou identificado com a sua candidatura. Por assim ser, nunca o deixaria lutar sozinho por um MPLA unido e mais forte. É bom que se saiba que já declarei pessoalmente todo o meu apoio e empenho à candidatura oportuna de Higino Carneiro.
Que fique bem claro: não apoiarei em momento algum a candidatura de João Lourenço. De igual modo, não apoiarei o MPLA nas próximas eleições com João Lourenço na presidência do partido.
João Lourenço é a amostra clara de um político delivery, que se serve do poder para promover a confusão e para trazer pessoas estranhas, buscando-as nas remanescentes lixeiras portucalenses, para as transformar em empresários e banqueiros bilionários — como acontece com os grupos famigerados de bandoleiros, como as famílias "Carrinhos" e similares, e a "Omatapalo", entre outras perigosas empresas de indignos vira-latas pescados no Olimpo da picanosidade enlatada.
Se acontecer uma crise — seja ela política, económica, financeira ou social — traz sempre consigo a desordem e a inevitável crise de âmbito fiscal profundo. Por isso não é compreensível aceitar que o país cresça com estabilidade inflacionando os números do PIB; nunca há crescimento real quando a economia vai mal em todas as frentes.
Angola não é um país industrialmente produtivo. Apesar de possuir terras aráveis e lençóis de águas fluviais, não estimula a expansão da agricultura industrial para assegurar o défice primário. O governo desperdiça moeda externa, gasta como se não houvesse amanhã. Além do mais, tem o petróleo de todo o angolano hipotecado pelos próximos vinte e cinco anos, possui uma dívida interna descomunal e uma dívida externa astronómica com a qual não sabe lidar. A inflação é cada vez mais negativamente crescente, com a economia em total desequilíbrio e, como já afirmei, sem receitas em moeda externa que viabilizem qualquer criação de riqueza.
Sem falsas modéstias, pode afirmar-se sem medo de errar que Angola é um país afundado em dívidas impagáveis a curto e médio prazo. Para piorar, Angola teve, nos cinquenta anos de independência, sucessivos governos super e hiper despesistas. Porém, os piores governos são os do actual presidente da República.
O MPLA com João Lourenço à cabeça afundou e exibiu a fome e a miséria como política de Estado, arrasou o país, levou-o ao declínio económico e financeiro, e incrementou a maior crise política jamais vista desde a independência do país em 1975. O cidadão sente-se hoje um esfarrapado pária, que recorre sistematicamente aos contentores de lixo em busca de restos para se alimentar.
Como pôde um indevido querer a todo o custo ser dono do MPLA, apenas e só para manter o poder pelo poder, usando para isso mecanismos impróprios e impossíveis de serem consumados em qualquer outra democracia representativa do universo progressista mundial? O MPLA de hoje vive apenas de promessas vãs e de mentiras desconcertantes.
As posições políticas do presidente cessante, além de ardilosas, derivam do assombroso medo de não ter dado cumprimento às promessas feitas em tempo eleitoral a todo o país. Ele, João Lourenço, sabe bem que o nosso país está humanamente envelhecido, vive na desesperança e encontra-se perdido no tempo e no espaço, sem a possibilidade de ver nascer um país rico onde a distribuição da riqueza seja equitativa.
No limite da verdade inusitada, e do ponto de vista do próprio presidente João Lourenço, ele imagina que promover a mentira é a estratégia adequada para se manter firme no poder. Não acompanha a evolução dos tempos e, por isso, dificilmente vislumbrará as realidades do estado de pobreza endémica e de carência absoluta em que o povo vive.
Prometeu entregar o MPLA à juventude inteligente e honesta — como se isso fosse possível nos tempos que correm. Mentiu descaradamente. Prometeu facilitar a vida dos angolanos e entregar o partido a uma pessoa menos cansada do que ele. Mentiu. Prometeu democratizar o partido e o país. De novo mentiu. Admitiu, em modo de promessa, que não perseguiria ninguém. Mentiu. Prometeu, em discurso directo, que faria da província de Benguela a Califórnia angolana. Mentiu, e mentiu feio. Em Cabinda prometeu entregar um novo aeroporto. Mentiu. Disse igualmente que entregaria, até ao ano transacto, o metro de superfície aos luandenses. O resultado da promessa foi mais uma estrondosa mentira.
Sequer é bom falar da promessa do jovem que seria escolhido para o representar — e não para o substituir — na presidência da República, pois João Lourenço pensa entregar esse supremo sacrifício à sua esposa Ana Dias Lourenço, ou a outro qualquer lacaio malandro ao seu dispor.
Angola é, para João Lourenço, um benéfico penduricalho. Mas as ideias e vontades do presidente cessante representam para os simples mortais angolanos um amargo e doloroso golpe no futuro da Angola vindoura.
A melhor e única saída para o MPLA é mandar embora o presidente cessante do partido. O MPLA precisa de uma viragem de chave civilizacional. E isso só acontecerá com a anulação da candidatura do oligarca agrário João Lourenço. O presidente angolano nega ser tirano e fraudador de eleições. O facto de ele o negar não significa que essa realidade não exista — ela existe e é vivida no quotidiano angolano.
Lutemos juntos e unidos. Estamos juntos.