29/03/2026
Opinião
O fim do jogo: quem vai “desligar” João Lourenço do Poder?
O fim do jogo: quem vai "desligar" João Lourenço do Poder?
O fim do jogo: quem vai "desligar" João Lourenço do Poder?
Dizem os antigos que o poder é como vinho forte: embriaga primeiro, revela depois. E quando a lucidez volta, já é tarde. João Lourenço está agora nesse ponto delicado da história, onde o relógio não marca horas, marca destinos. Cada tic-tac soa mais a despedida do que a continuidade.
A política, ao contrário da matemática, não é ciência exata. Mas há equações que raramente falham. Roma ensinou isso quando Júlio César caiu não pelas mãos dos inimigos, mas pelo abraço frio dos seus. Entre eles, Marco Júnio Bruto, o amigo, o confiável, o “honrado”. É sempre assim: a lâmina mais afiada vem embrulhada em confiança.Política
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Angola não é Roma, mas a natureza humana não mudou assim tanto.
O MPLA, no poder desde 1975, habituou-se a uma lógica simples: quem controla o partido controla o Estado, e quem controla o Estado decide quem permanece de pé.  O problema é que essa lógica funciona como um espelho. Reflete tudo… inclusive a traição. Ou seja, o MPLA não é um convento de monges. É uma arena. E numa arena, lealdade é moeda de curto prazo. Ontem és camarada, hoje és obstáculo, amanhã és memória. A fidelidade não é um valor. É uma estratégia temporária.
Há um detalhe curioso na história recente.
Quando José Eduardo dos Santos decidiu sair, deixou um cenário que parecia controlado: o sucessor escolhido, o partido alinhado, o sistema intacto. Uma transição “harmoniosa”, diziam. Mas a política raramente é harmonia. É silêncio antes da queda. Em poucos meses, o discípulo revelou-se cirurgião. Cortou, afastou, investigou. E o antigo mestre, que ainda pensava mandar da sombra, viu o palco fugir-lhe. Não foi preciso punhal visível, bastou a subtileza do poder a reorganizar-se. O trono não aceita partilhas emocionais.Política
Hoje, o cenário repete-se com um sabor quase irónico. Agora o espelho está virado.
João Lourenço aproxima-se do fim do ciclo com a mesma ilusão clássica: acreditar que controla o enredo depois de sair de cena. A ideia é simples, quase ingénua: sair da presidência do Estado, manter o partido, escolher o sucessor, continuar a mandar. Uma espécie de imperador aposentado, sentado na sede, a puxar fios invisíveis. A chamada “bicefalia” do poder, esse arranjo onde um lidera o Estado e outro controla o partido.
Nos bastidores, o ambiente não é de estabilidade, é de cálculo. 2026 e 2027 não são apenas datas no calendário, são um campo minado político. O MPLA entra nesse ciclo sob pressão interna, desgaste de popularidade e disputas silenciosas pela sucessão.  E quando há sucessão, há sempre uma pergunta que ninguém faz em voz alta: quem será o próximo a trair primeiro? O problema não é apenas quem vem depois. É como vem. Se vier como continuidade disfarçada, poderá romper. Se vier como ruptura, precisará legitimar-se rapidamente. Em ambos os cenários, o líder cessante torna-se um obstáculo potencial a derrubar.Política
O problema não é a estratégia. É o material humano. Num sistema onde a lealdade é frequentemente transacional, a fidelidade dura o tempo que duram os interesses. Não é ideologia, é conveniência. Não é compromisso, é sobrevivência. E quando o centro de gravidade muda, as alianças evaporam com uma facilidade quase científ**a.
Talvez seja isso que torna o momento actual tão denso. Não é apenas o fim de um ciclo presidencial. É o início de um teste silencioso: até onde vai a lealdade quando o poder começa a escorregar das mãos?
Porque no fundo, a pergunta não é se haverá um Brutus no MPLA. Essa parte da história é quase garantida.
A verdadeira questão é outra, mais incómoda: quantos já estão sentados à mesa com o chefe?
No Comité Central, no Bureau Político, nos corredores onde se sorri em público e se calcula em privado, a política segue o seu curso natural. E esse curso raramente é guiado por amizade.Política
Nos bastidores, já não se fala apenas de sucessão. Fala-se de sobrevivência política. Quem f**a com o controlo real? Quem garante proteção depois do poder? Quem reescreve a narrativa?
E, sobretudo, quem trai primeiro.
Porque no fim, a maior ilusão do poder é acreditar que se controla tudo.
César acreditou. Caiu.
Dos Santos acreditou. Foi ultrapassado.
E João Lourenço, homem “experiente”, sabe disso melhor do que todos. Talvez por isso o seu maior adversário não esteja na oposição. Nem nas ruas. Nem nos discursos críticos de Adalberto Costa Júnior, líder da oposição.
Está dentro.
Senta-se à mesa.
Aplaudirá no próximo congressos.
E espera.
Porque o tempo político de João Lourenço está a entrar na contagem regressiva. E o calendário, esse juiz implacável, não negocia. Porque, no fim, o poder é como um castelo de areia. Impressiona enquanto está de pé. Mas basta uma maré certa, no momento certo, para lembrar que nada ali era eterno. Apenas muda de mão.