04/05/2026
𝐍𝐃𝐎𝐍𝐆𝐎: AS ORIGENS ORAIS DE UM REINO
O Reino do Ndongo, foi um estado poderoso que existiu na região central de África localizado na região que hoje é a actual Angola. Os territórios do então chamado reino do Ndongo compreendiam faixas de terra entre dois importantes rios da região: o Kwanza e o Bengo ( 𝘡𝘦𝘯𝘻𝘢) . Cercado por importantes reinos da África Centro Ocidental como o Congo e a Matamba, o Ndongo era habitado pelos Mbundus ou Ambundos, povo de origem bantu, falante de Kimbundu.
Os ambundos são o povo dominante na região de Luanda, Bengo, Cuanza Norte, Malange, Cuanza Sul e uma pequena parte do Uíge. Durante muito tempo, o reino do Ndongo foi dado como dependente do reino do Congo, que era um dos grandes e reinos naquela época, o reino do Ndongo pagava tributo ao reino do Congo.
O facto da região de Luanda ser favorável ao resgate de escravos, ser rica em prata, ferro e cobre e fornecer, na altura, uma co**ha com valor fiduciário, chamada “𝐧𝐳𝐢𝐦𝐛𝐮”, constituiu motivo suficiente para que os portugueses desejassem cristianizar o Ngola e os seus súbditos. Com os portugueses chegavam frades das diversas Ordens e clérigos para catequizarem os Ambundus.
A formação do reino do Ndongo está relacionada à migração dos povos Ambundus, que teriam se fixado na região após um movimento migratório em busca de áreas com maiores potenciais agrícolas. Os ambundus se estabeleceram desde a idade do Ferro na região, esses povos encontraram no Ndongo, um local privilegiado para o desenvolvimento da agricultura e do pastoreio, uma vez que a região apresentava um rico solo, irrigado naturalmente pela bacia hidrográfica do Kwanza (900 km) e os rios adjacentes.
𝐀 𝐨𝐫𝐢𝐠𝐞𝐦 𝐝𝐨 𝐑𝐞𝐢𝐧𝐨 𝐝𝐨 𝐍𝐝𝐨𝐧𝐠𝐨:
De acordo com a tradição oral, 𝐍𝐠𝐨𝐥𝐚-𝐌𝐮𝐬𝐬𝐮𝐫𝐢 teve várias mulheres mas a uma concedeu o título de “𝑵𝒈𝒂𝒏𝒂-𝑰𝒏𝒆𝒏𝒆”,a dona de casa, a “grande senhora”, que teve três filhas dele: 𝒁𝒖𝒏𝒅𝒂-𝒅𝒊𝒂-𝒏𝒈𝒐𝒍𝒂, 𝑻𝒖𝒎𝒃𝒂-𝒅𝒊𝒂-𝒏𝒈𝒐𝒍𝒂 e uma terceira cujo nome é desconhecido. Deste modo, ficava assim marcado o carácter inicialmente matrilinear das linhagens dos futuros 𝐍𝐠𝐨𝐥𝐚. O facto da esposa 𝑵𝒈𝒂𝒏𝒂-𝑰𝒏𝒆𝒏𝒆 não lhe ter dado um varão, levou-o a casar a sua primeira filha com um servente, e nomeou-o “vice-rei”. No entanto, este acabou por matar Ngola-Mussuri, seu sogro, e tinha a intenção de também matar a sua própria mulher, caso esta não viesse a falecer repentinamente.
É assim que 𝒁𝒖𝒏𝒅𝒂-𝒅𝒊𝒂-𝒏𝒈𝒐𝒍𝒂, a primogénita de Mussuri “foi proclamada e venerada como rainha”, afirmando-se que governou bem até à velhice, porém de uma forma triste por não ter filhos.
Daí que invejasse Tunda-dia-ngola, sua irmã, mãe de dois rapazes, casada com “𝐍𝐠𝐨𝐥𝐚 𝐊𝐮𝐢𝐥𝐮𝐚𝐧𝐣𝐢”. Escolheu um dos sobrinhos para herdeiro e durante algum tempo dedicou-se a prepará-lo para a sucessão.
Mas, a partir de uma determinada altura, temeu que este a destituísse e mandou-o matar. Em represália, sua irmã Tunda e seu cunhado Ngola Kiluanji acabaram por diligenciar também a sua morte. Com o apoio das populações, Tunda foi proclamada rainha e procurou dividir o poder com o seu marido, mas este declinou tais responsabilidades, de comum acordo, resolveram fazer “coroar o filho de ambos, “𝐍𝐠𝐨𝐥𝐚 𝐊𝐢𝐥𝐮𝐚𝐧𝐣𝐢 𝐊𝐢𝐚 S𝐚𝐦𝐛𝐚”.
𝐄𝐬𝐭𝐫𝐮𝐭𝐮𝐫𝐚 𝐒𝐨𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐞 𝐏𝐨𝐥í𝐭𝐢𝐜𝐚:
O Reino do Ndongo era uma monarquia, com o monarca, cuja a principal entidade era designado como “Ngola” exercendo o poder supremo. O rei governava com o apoio de uma aristocracia e conselheiros, e havia uma estrutura administrativa com governadores regionais.
A capital do reino do Ndongo, era 𝐊𝐚𝐛𝐚ç𝐚 (Caculo Cabaça), localizada no planalto próximo à actual N'dalatando província do Kwanza Norte. O reino do Ndongo era formado por uma sociedade altamente hierarquizada, onde papéis eram muito bem definidos, e a prestação de serviços ao Ngola levou à formação de uma complexa corte.
Além de Ngola e dos sobas, existiu no Ndongo um grupo extremamente poderoso: os “𝒎𝒂𝒌𝒐𝒕𝒂𝒔”, esses eram homens descritos como idosos, que exerciam a função de aconselhar o Ngola. Sua influência era tamanha que chegava a limitar o poder dos sobas e até mesmo a interferir nos processos de sucessão dos Ngolas a sucessão real entre os ambundus deveria seguir os princípios baseados na matrilinearidade.
Contudo o poder do Ngola era restrito e limitado. Muitos dos
sobas que viviam em seus domínios eram totalmente independentes, ou por razões geográficas que dificultavam o acesso a esses sobados, ou pela ausência de legitimidade do poder político do Ngola junto a esses chefes locais. Alguns sobas reconheciam o Ngola somente por seus poderes místicos, como por exemplo, em relação ao dom de fazer a chuva, mas não o viam como autoridade política
𝐀 𝐡𝐢𝐞𝐫𝐚𝐫𝐪𝐮𝐢𝐚 𝐝𝐨 𝐍𝐝𝐨𝐧𝐠𝐨:
A hierarquia dos ambundus era formada por vários outros grupos. Abaixo dos 𝐍𝐠𝐨𝐥𝐚𝐬 e dos“𝒎𝒂𝒌𝒐𝒕𝒂𝒔”, estavam os sacerdotes supremos chamados 𝒎𝒂𝒏𝒊-𝒏𝒅𝒐𝒏𝒈𝒐𝒔, abaixo vinham os 𝒕a𝒏𝒅𝒂𝒍𝒂𝒔, espécie de primeiros-ministros, em seguida os tandalas de cari, ministros secundários, na sequência vinham as lideranças militares representadas pelos 𝒏𝒈𝒐𝒍𝒂𝒎𝒃𝒐𝒍𝒆 que eram os chefes dos exércitos, depois os ferreiros, grupo também ligado aos poderes sobrenaturais em função da relação entre a origem do Ngola.
𝐎 𝐩𝐨𝐝𝐞𝐫 𝐬𝐨𝐛𝐫𝐞𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚𝐥 𝐝𝐨𝐬 𝐍𝐠𝐨𝐥𝐚𝐬:
De acordo as fontes oirais, os Ngolas tinham seu poder marcado pelo sobrenatural, seriam os grandes responsáveis por trazer a chuva. Sua função era estratégica para a manutenção da unidade do reino, mesmo quando para muitos sobas essa vertente mística era a única reconhecida. Para os ambundus o controlo da natureza era uma atribuição do Ngola, relacionando essa prática ao dom de comunicação com os ancestrais, um elemento estranho para os portugueses, que precisaram de tempo para compreender a forte presença da ancestralidade africana. E que consideravam tais ações como práticas do mal.
𝐀𝐬 𝐚𝐭𝐢𝐯𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞𝐬 𝐞𝐜𝐨𝐧ô𝐦𝐢𝐜𝐚𝐬 𝐝𝐨 𝐍𝐝𝐨𝐧𝐠𝐨:
As principais atividades econômicas do povo do Ndongo envolviam o comércio de sal, metais, tecidos e produtos de origem animal. A prática deste desenvolvido comércio era feita por meio do escambo (trocas) ou com a adoção do “𝑵𝒛𝒊𝒎𝒃𝒖”,um tipo de co**ha encontrada exclusivamente na região de Luanda. Nas terras do Ndongo existiam alguns espaços de trocas, onde os nzimbos eram utilizados.
Os produtos valorizados como o sal, também serviam para efetivar nas transações, no caso do sal, ele era dividido em pedras uniformes de três palmos que correspondiam a um determinado valor, na troca por outra mercadoria. O Ndongo era uma região que se baseava no trabalho agrícola, por meio da utilização de utensílios de metal.
𝐂𝐮𝐥𝐭𝐮𝐫𝐚 𝐞 𝐫𝐞𝐬𝐢𝐬𝐭ê𝐧𝐜𝐢𝐚:
O Reino do Ndongo tinha uma cultura rica, com tradições artísticas, religiosas e sociais próprias. O reino resistiu à colonização portuguesa, lutando bravamente contra as forças coloniais e preservando sua independência por um tempo significativo.
𝐄𝐬𝐜𝐫𝐚𝐯𝐢𝐝ã𝐨 𝐞 𝐜𝐨𝐦é𝐫𝐜𝐢𝐨 𝐭𝐫𝐚𝐧𝐬𝐚𝐭𝐥â𝐧𝐭𝐢𝐜𝐨:
O Reino do Ndongo foi afetado pelo comércio transatlântico de escravos, com os portugueses capturando e transportando pessoas da região para as Américas. A resistência do reino contra a escravidão e a exploração desempenhou um papel importante na história da resistência africana contra o tráfico de escravos.
O Reino do Ndongo teve uma história complexa e desempenhou um papel significativo na luta contra a colonização portuguesa e na preservação da identidade e cultura africanas.
𝐑𝐞𝐟𝐞𝐫ê𝐧𝐜𝐢𝐚𝐬:
•Silva, Alberto Da Costa E (2002). A Manilha e o Libambo. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira
•Vansina, Jan. «A África equatorial e Angola: as migrações e o surgimento dos primeiros Estados». In: Niane, Djibril Tamsir. História Geral da África Vol. IV.
•Vansina, Jan. «XIX. O Reino do Congo e seus vizinhos». In: Ogot, Bethwell Allan. História Geral da África Vol. V. África do século XVI ao XVIII. Paris e São Carlos: UNESCO e Universidade de São Carlos
•África do século XII ao XVI. Paris e São Carlos: UNESCO e Universidade de São Carlos
•RODRIGUES, Casimiro e RODRIGUES, José Damião. (2011). Representações de África e dos Africanos na História e Cultura – Séculos XV a XXI. Lisboa, Centro de História de Além-Mar. SILVA, Débora. Reino do Congo.
Publicado por: Uma África Desconhecida