22/12/2025
O chamado Paradoxo de Ulisses, tal como pensado por Hannah Arendt, revela-se menos como uma curiosidade interpretativa da mitologia e mais como uma anatomia rigorosa da consciência moderna. Trata-se de um gesto inaugural em que a razão, longe de se afirmar como soberania absoluta, reconhece a própria vulnerabilidade e, justamente por isso, institui o limite como forma superior de liberdade.
Ulisses não ignora o canto das sereias, tampouco o combate. Ele o deseja. Aqui está o ponto decisivo, o desejo não é um erro a ser eliminado, mas uma força a ser compreendida. Arendt percebe que o herói homérico não age por negação do prazer, mas por lucidez diante de seu poder dissolvente. O perigo não reside no canto em si, mas na entrega irrestrita a ele. Ulisses, ao ordenar que o amarrem, transforma a autolimitação em ato deliberado. A obediência aos nós é, paradoxalmente, a mais alta expressão de comando.
Nesse gesto, Arendt antecipa um dos dramas centrais da modernidade, a descoberta de que a liberdade não pode mais ser pensada como espontaneidade absoluta. O homem que tudo segue, inclusive seus impulsos mais íntimos, não é livre, é governado. O paradoxo de Ulisses denuncia a ilusão romântica da autenticidade irrestrita, essa crença ingênua de que seguir o desejo é sempre um ato de verdade. Às vezes, seguir o desejo é apenas uma forma elegante de abdicar do pensamento.
A razão, nesse cenário, não aparece como instância repressiva, mas como inteligência estratégica. Ulisses não confia em sua futura lucidez, e essa desconfiança é sinal de maturidade. Ele sabe que, no auge do fascínio, o pensamento cede, a palavra se corrompe, a promessa se impõe como destino. O homem prudente não confia cegamente em sua força moral futura, cria antes condições para não precisar dela. Eis uma ética do intervalo, não heroica, mas profundamente humana.
Arendt lê esse episódio também como uma alegoria política. As leis, os pactos, as instituições não nascem da virtude, mas do reconhecimento da fragilidade. São nós no mastro da história, amarras que não anulam a liberdade coletiva, antes a tornam possível. Uma sociedade sem limites não é livre, é volátil. Uma política sem amarras não emancipa, seduz e devora.
Há ainda um elemento trágico e refinado nessa leitura. Ulisses escuta. Ele não se protege pelo silêncio, mas pela contenção. A lucidez não o poupa da dor, apenas impede que a dor se transforme em aniquilação. Isso é decisivo, pensar não é anestesiar-se, é suportar o real sem sucumbir a ele. A inteligência não elimina o sofrimento, confere-lhe forma, duração e fronteira.
O Paradoxo de Ulisses, portanto, é uma lição contra os excessos da ingenuidade moral e da soberba racional. Ensina que a verdadeira autonomia não está em fazer tudo o que se deseja, mas em saber quando não se deve obedecer a si mesmo. Há momentos em que a fidelidade ao próprio futuro exige a traição do impulso presente.
Ulisses retorna porque aceitou não ser soberano por um instante. E nisso reside a grandeza silenciosa de sua decisão. A liberdade que ignora seus limites se perde no canto, a liberdade que os reconhece encontra o caminho de volta.
Oliver Harden
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