30/10/2025
Sou seropositiva, já não consigo dormir o meu irmão menor foi a minha vítima:
Eu nunca pensei que um dia teria coragem de escrever isto. Mas já não aguento. Já não durmo, já não como, e quando fecho os olhos, ouço o choro do meu irmão.
Tudo começou há dois anos, quando a vida me empurrou para o abismo. Eu tinha 24 anos, vivia em Luanda, e trabalhava como recepcionista num salão de beleza. A vida parecia normal até o dia em que comecei a namorar um homem casado. Eu sabia que era errado, mas ele me fazia sentir especial. Dizia que me amava, que ia deixar a esposa, que eu era a mulher dos sonhos dele.
Um dia, adoeceu. Disse que era apenas uma gripe. Depois, eu também adoeci. Tive febres, emagreci, e o corpo parecia me castigar por dentro. Fui ao hospital, e depois de alguns exames, a médica olhou para mim com aquele olhar que corta o peito:
“Minha filha, você é seropositiva.”
O chão sumiu. Saí do hospital sem forças. O mundo girava. Eu lembrava do homem que dizia me amar — nunca mais o vi. Mudou o número, desapareceu, como se eu fosse um lixo humano.
Mas o pior não foi o vírus. O pior foi o que veio depois.
Um dia, meu irmão menor — o Bento, de apenas 17 anos — foi dormir comigo no quarto, porque a luz tinha acabado e ele tinha medo do escuro. A gente sempre foi muito unido. Eu o criei praticamente, depois que nossa mãe morreu. Ele era o meu orgulho.
Acordei de madrugada com febre e calafrios. Estava suando e o lençol molhado. Fui ao banheiro, lavei o rosto, e sem pensar deixei a lâmina de barbear usada sobre o lavatório. No dia seguinte, quando entrei de novo no banheiro, percebi que ele tinha feito a barba com a mesma lâmina.
Senti o coração parar.
Corri para o quarto dele, o sangue me gelou. Ele estava rindo, dizendo:
“Mana, finalmente comecei a fazer a barba como homem.”
Mas eu... não consegui sorrir.
Passei a semana inteira em silêncio, o estômago embrulhado, sem coragem de contar. Depois comecei a ver ele ficar doente. Tosse, febre, emagrecimento. Até que um dia ele foi ao hospital, e a notícia veio como um tiro que me atravessou a alma:
“Bento é seropositivo.”
Desde aquele dia, eu deixei de viver.
Ele não sabe. Pensa que foi da namorada dele. Eu o vejo tomar os medicamentos, vejo ele sorrir para mim sem imaginar que a culpada sou eu.
Todas as noites, eu sonho com ele chorando e me perguntando:
“Mana, porquê?”
Eu acordo encharcada de lágrimas. Já tentei me matar duas vezes, mas não consegui. Talvez Deus queira que eu viva esse castigo em vida.
Hoje, estou a escrever isso para aliviar o peso que me sufoca. Não quero piedade. Quero apenas que sirva de aviso.
O HIV não tem rosto. Não tem cheiro. Não avisa.
Ele se esconde em promessas falsas, em noites de paixão e em gestos descuidados.
E quando você percebe... já destruiu tudo o que mais amava.