17/04/2026
Especialistas apontam impactos na construção do Porto Meridional de Arroio do Sal, no Litoral Norte
Reunião foi organizada pela Comissão de Segurança, Serviços Públicos e Modernização
Comissão de segurança, serviços públicos e modernização do Estado realiza audiência, na ALRS, para debater a proposta do Porto Meridional de Arroio do Sal
Uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul discutiu, nesta quinta-feira, os riscos ambientais da proposta de construção do Porto Meridional, previsto para Arroio do Sal, no Litoral Norte. Especialistas presentes na sessão debateram sobre possíveis impactos na dinâmica costeira e nos ecossistemas da região. O encontro foi proposto pela Comissão de Segurança e Serviços Públicos.
O empreendimento está em fase de licenciamento ambiental e audiências públicas. A previsão é de que os investimentos superem a marca dos R$ 6 bilhões e capacidade de movimentação de 53 milhões de toneladas por ano.
Entre as principais preocupações, estão a alteração da dinâmica costeira, com risco de erosão e avanço do mar sobre áreas urbanas e ecossistemas frágeis. Além disso, impactos sobre a Lagoa Itapeva, que é fonte de abastecimento hídrico da região, e prejuízos à biodiversidade, à pesca artesanal e ao turismo local. Um memorial técnico elaborado por cientistas e entidades aponta que o empreendimento pode representar “risco real de colapso ambiental e urbano” e questiona a transparência e a suficiência dos estudos apresentados.
Proponente da audiência, a deputada estadual Sofia Cavedon (PT) lembrou que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) aceitou, após três análises, o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) apresentado pela empresa. Porém, que a análise dos movimentos sociais que contestam o Porto, por meio de um aprofundado estudo envolvendo o Ministério Público, afirma que a autorização para o novo ciclo, que seria de audiências públicas, não apresenta uma prévia análise ambiental consolidada. "O Ibama aceita formalmente, determina a publicidade e inicia o procedimento, mas não sem juízo quanto ao mérito ambiental". A deputada também argumenta que apenas uma audiência pública não garante o diálogo total do cenário.
O professor Jefferson Cardia Simões, glaciologista e pesquisador da Ufrgs, pontuou que os impactos do projeto vão além da questão ambiental. "Vai implicar uma modif**ação da morfologia da costa, constantes drenagens, vai afetar a praia e o transporte de areia maior para as praias ao sul do Porto e cavando as praias logo ao Norte. E temos a questão da poluição local, sonora, principalmente com caminhões, e a poluição do ar".
Ele também questionou quem será o responsável pelos demais trabalhos que implicam no projeto, como a ampliação de estradas federais e principalmente duplicações. O professor lembrou, também, que a consulta da população não está sendo aberta. "Essa proposta muda o modelo de turismo e veraneio e pesca artesanal para uma industrialização que não é apropriada, porque nós temos outros meios que tem que ser explorados, como ferrovias e hidrovias que têm que ser recuperadas".
Para o advogado e integrante do Movimento Unif**ado em Defesa do Litoral Norte (MOV), Paulo de Vasconcellos, o empreendimento não tem sustentação econômico-financeira e, sob o ponto de vista operacional, envolve artificialização do mar, modif**ação da linha costeira e problemas de hidro sedimentação. "Chegamos a uma conclusão que esse empreendimento é altamente violador da natureza e do meio ambiente", disse.
"Um porto instalado nessas condições é algo extremamente temerário, porque é um empreendimento fadado ao insucesso. Sob o ponto de vista econômico e financeiro, não se sustenta um empreendimento que exige dragagens perpétuas, permanentes, contínuas, devolvendo o fundo do mar para manter uma profundidade ideal para os navios atracarem”, complementa.
Na mesa, estavam presentes também os deputados Matheus Gomes (PSOL) e Halley Lino (PT).
Em nota, a empresa Porto Meridional informou que não participaria da reunião, justif**ando que os empreendedores optaram por concentrar esforços na "audiência pública oficial que vai tratar do licenciamento ambiental do empreendimento". No texto, a empresa acrescentou que o evento foi proposto por uma parlamentar "contrária ao empreendimento, cuja principal bandeira é a educação e não logística e transportes, apenas servirá para reunir entidades ideologicamente alinhadas ao seu grupo político".
Fonte: jornal Correio do Povo dia 16/04/26.